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Guochao: a tendência que nasceu na China

O interesse da geração mais jovem pela cultura e pelos designs tradicionais chineses tem vindo a aumentar no país. Apesar de estar muito em voga, esta tendência, batizada guochao, constitui um grande desafio para as marcas internacionais.

[©Instagram/@lining.official]

Traduzido à letra, guochao significa “maré nacional” e é um conceito que está a cativar, sobretudo ,a geração Z na China, que tem agora preferência por produtos de caracter tradicional. Uma análise citada pelo South China Morning Post revela que esta tendência representa 13% das despesas do rendimento familiar na China comparativamente com os 4% registados em França e na Alemanha.

«Quando a pandemia surgiu, em 2020, todos culparam a China e os chineses sentiram-se atacados pelo exterior e vemos que o guochao afetou as preferências dos consumidores numa variada gama de sectores, incluindo o vestuário», explica Olivier Verot, CEO da GMA – Gentleman Marketing Agency, sediada em Xangai, uma consultora que ajuda marcas estrangeiras a conquistar quota de mercados no retalho chinês. «Agora, dificilmente haverá um dia em que não se veja jovens a usar roupas tradicionais chinesas no metro de Xangai, o que está a influenciar a moda no quotidiano», conta ao Just Style.

A Li-Ning, uma marca de vestuário chinesa, decidiu explorar esta tendência com a criação de uma linha de streetwear cujo foco principal é a China, motivo pelo qual a insígnia teve uma grande aceitação junto dos consumidores locais.

Para Ben Cavender, diretor do China Market Research Group, com sede em Xangai, os consumidores, além de terem em conta a estética do design da marca, valorizam também a ligação com a cultura chinesa. «Já não são vistas como marcas inferiores à Nike ou Adidas e converteram-se em líderes de design em vez de seguidoras», salienta.

Alternativas nacionais

Depois da Nike, Hennes & Mauritz (H&M) e outras empresas de vestuário internacionais terem anunciado que não iam usar algodão de Xinjiang, por todas as questões de direitos humanos envolventes, os consumidores chineses descobriram que os produtos da Li-Ning estavam a enfatizar o facto de usar essa matéria-prima.

Neste sentido, os dados da Daxue Consulting revelaram que a mudança fez subir 10,64% os preços das ações da marca chinesa a 26 de março, uma percentagem que continuou a subir e chegou aos 28% a 14 de abril.

[©Instagram/@lining.official]
Pelo contrário, os designs chineses inspirados em marcas internacionais como a H&M, Uniqlo e a Zara têm estado ausentes, com casas de luxo como a Gucci a responderem à problemática com produto orientado para a China, nomeadamente a coleção de bolsas e sapatos Gucci Tian, que bebeu inspiração das tapeçarias chinesas do séculos XVIII.

Mesmo com todo o crescimento, o guoacho não é ainda uma ameaça para as marcas internacionais. «Não vi evidências de que o guochao tenha reduzido a procura por produtos de vestuário estrangeiros, acho que acontece porque há uma falta de alternativas nacionais que pode rivalizar com as marcas estrangeiras em termos de qualidade e reputação», justifica Imogen Page-Jarrett, analista de pesquisas na Economist Intelligence Unit (EIU), sediada em Pequim. «No entanto, o fortalecimento da guochao indica que as marcas de vestuário estrangeiras vão ter de adequar os seus produtos e anúncios mais às preferências locais se quiserem sustentar o crescimento no mercado chinês», conclui.