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«Há um extremismo relativamente ao plástico»

Embora reconheça a sustentabilidade como um caminho sem retorno, Carlos Oliveira, diretor-geral da Trevira GbmH Sucursal Portugal, considera que é preciso mais informação sobre o tema e lembra que o poliéster, quando comparado com o algodão, por exemplo, tem benefícios no processo produtivo que não devem ser ignorados.

Carlos Oliveira

Nas mãos do grupo Indorama Ventures desde 2017, a Trevira é um nome conhecido na produção de fibras de poliéster. Em Portugal, além da área comercial, que abrange também os mercados de Espanha e Marrocos, a empresa faz igualmente a conversão de fibras de poliéster para o sector laneiro, numa parceria com a Tessimax, do grupo Paulo de Oliveira. Apesar de não diabolizar o plástico, a Trevira continua a investir no desenvolvimento de fibras mais amigas do ambiente, seja com o PLA, seja com a reciclagem de resíduos pré e pós-consumo, mantendo uma oferta variada que lhe dá confiança para o futuro.

A Trevira passou, na totalidade, para as mãos da Indorama Ventures em 2017. O que mudou na empresa nestes dois anos?

A única, e grande, diferença foi que finalmente tivemos alguém que nos comprou com capitais próprios. Foram feitos alguns investimentos, mas em termos políticos e administrativos não houve grande alteração. As grandes alterações começaram precisamente este ano, em que a Indorama Ventures (IVL) está a fazer uma grande restruturação a nível mundial porque compraram uma série de empresas ao longo destes últimos anos e estão a criar grupos divididos por sectores, para evitar que dentro do grupo IVL haja concorrência entre empresas. Isto é uma grande mudança a nível mundial, que vai mexer muito com o mercado, em muitos sectores, porque estamos a falar de uma megaempresa. As regras do jogo ainda não estão totalmente definidas, mas durante o primeiro semestre do próximo ano tudo vai ficar definido e bem orientado. Por exemplo, o sector automóvel vai ter uma empresa onde vai anexar, por exemplo, a Trevira, uma Sinterama e outras empresas ligadas ao sector, entretanto, compradas pela IVL.

Como está atualmente composto o portefólio da empresa?

Estamos muito focados na área dos não-tecidos, não-tecidos técnicos, têxteis e têxteis-lar, mas sobretudo não-tecidos técnicos. Na área têxtil praticamente são fibras técnicas, muito especiais, desde a Trevira CS, talvez a marca mais conhecida no mundo em termos de retardante à chama, à Trevira Bioactive, uma fibra antibacteriana. Mais recentemente temos a PLA – apesar de, nos não-tecidos, ser uma fibra já com 15 anos, no sector têxtil isso não acontecia.

Temos também fibras, por exemplo, para o sector laneiro, como as novas fibras catiónicas com uma capacidade de gestão da humidade e circulação de ar muito maior. E estamos a lançar outras fibras com algumas especificidades. Quando falamos no sector têxtil focamo-nos sempre mais no laneiro, a nossa principal área de atividade. E recentemente, com sucesso absolutamente incrível, temos a Sinfineco – tudo o que são artigos sustentáveis está indexado a esta marca, entre os quais os reciclados.

A reciclagem é uma moda, ou veio para ficar?

Atualmente fala-se muito de reciclados, mas já trabalhamos reciclados desde 1993. Fomos dos primeiros a converter flakes de garrafas em fibras, mas as pessoas olhavam para o produto com alguma suspeita e diziam que era lixo. Só nos últimos quatro ou cinco anos, efetivamente, se começou a falar, de uma forma mais intensa, de reciclagem e de utilizar produtos reciclados. E hoje praticamente tudo é fabricado com matéria-prima reciclada, proveniente de garrafas nas suas mais diferentes vertentes. Trata-se de um processo complicado em termos de seleção de matéria-prima. Sou muito cético relativamente ao que se está a passar no mercado. Toda a gente quer utilizar fibras recicladas mas não é possível, porque, no sector têxtil, a matéria-prima necessária para produzir um produto de qualidade tem que ser baseado no flake transparente. Ou seja, temos que selecionar material de primeiríssima qualidade, que é mais caro, mais difícil de encontrar e não há para as necessidades do mercado. E se toda a gente quiser usar reciclado, onde está o virgem para reciclar? Não faz muito sentido. Além disso, temos áreas, como os não-tecidos, onde se utiliza muito reciclado. E o reciclado que existe no mercado não é suficiente para estas áreas. Portanto, porque razão temos de ir para a área têxtil com produtos reciclados de difícil elaboração se temos outras áreas que podem utilizar todo esse mesmo produto? O objetivo que temos é simplesmente limpar as nossas cidades, o nosso ambiente desse plástico que existe em excesso e fazer um reaproveitamento. No sector têxtil, não é a preocupação com o ambiente, diria eu, é mais uma questão de marketing. Se é possível reciclar com qualidade, como a Trevira está a fazer com o pré-consumo e uma mistura com o pós-consumo, dentro de determinadas limitações, muito bem. Mas o mercado, às vezes, pede situações de reciclagem que não são possíveis. Além disso, em termos de sustentabilidade, existe uma ideia muito errada relativamente ao plástico.

Como assim?

Tirando o facto de o plástico não ser biodegradável, todo o processo a montante é muito mais limpo e sustentável do que qualquer fibra de algodão – que gasta imensa água, fungicidas e pesticidas, que provocam a saturação dos solos. A questão da biodegradabilidade é cultural, isto é, se chegarmos ao final e a garrafa de plástico for para um caixote de lixo, separada, ou para reaproveitamento, ou para incineração, fechamos um ciclo. E o ciclo à retaguarda é muito puro. Um tecido de algodão pode ser reciclado ou incinerado, mas a montante nunca se vai eliminar aquilo por que passou.

Por exemplo, fala-se muito de algodão orgânico, mas gasta muita mais água do que a produção de algodão normal. Enquanto o processo de produção do plástico quase não tem utilização de água – um quilo de algodão gasta o equivalente em água a 10 toneladas de poliéster. Não estou a dizer que o poliéster é melhor do que o algodão. Estou a dizer que, no mínimo, há um extremismo relativamente ao plástico. Eu sou defensor de que não se deve utilizar plástico em pequenas coisinhas. Porque é que haveremos de produzir garrafas de 100 ml, quando podemos usar garrafões de água de 7 litros e encher uma garrafa de água? Sou apologista disso tudo. Mas não podemos ser fundamentalistas relativamente ao plástico porque estamos completamente errados. Se a água é um dos bens mais preciosos que temos, se as terras para cultivo de alimentos são muito mais preciosas do que trabalhar matérias-primas seja para que indústria for, então vamos chegar à conclusão que a produção química ou artificial de matérias-primas para o sector têxtil, vestuário ou seja o que for provavelmente será muito mais sustentável. Mas isto é um processo que temos de amadurecer e de assimilar.

Na área da sustentabilidade ambiental, que oferta propõe a Trevira?

Temos rPET pós-consumo e temos também pré-consumo. O pré-consumo é uma quantidade limitada porque depende do nosso desperdício. No caso das fibras laneiras não conseguimos garantir mais de 250 a 300 toneladas/ano e está tudo vendido para o próximo ano – e se tivesse o triplo estava tudo vendido. Agora vamos desenvolver, também para o sector laneiro, fibras recicladas pós-consumo, isto é, a partir de flakes de garrafas, mas aqui temos limitações técnicas, porque a própria fibra de baixo pilling implica baixa tenacidade. E com flakes de garrafas, que têm um alto nível de viscosidade intrínseca, não se consegue produzir baixa tenacidade. No PLA, que é uma fibra biodegradável e tem características muito similares ao poliéster, fazemos normalmente a partir de milho porque temos uma parceria com a Ingeo, nos EUA. Mas vai surgir uma nova fábrica na Tailândia cuja matéria-prima vai ser a cana-de-açúcar. Acredito que o futuro passa pelos biopolímeros. E os biopolímeros podem ser feitos das mais variadas matérias-primas, em que normalmente a matéria-prima base é o açúcar.

Quais são as restantes novidades em termos de produto?

Hoje diria que, como quase 90% das empresas ligadas ao sector químico, estamos focados na parte da sustentabilidade. Isto implica um esforço, que as pessoas não têm noção, não só em termos de produção mas em termos burocráticos, associado sobretudo ao facto de termos de trabalhar com GRS (Global Recycled Standard), que é a única forma de podermos garantir a 100% que o nosso material é reciclado. Isso implica um esforço adicional muito grande, não só para nós mas também para os nossos clientes, com grandes transformações internas.

Também estamos a desenvolver, nomeadamente para a Riopele, uma grande parceria em fibras recicladas, que vão utilizar na nossa marca Sinfineco. Na Paulo de Oliveira temos uma parceria muito forte e também com outras empresas – a Fiação da Graça foi a primeira empresa em Portugal a trabalhar com reciclados e efetivamente esteve na vanguarda em termos de utilização de produto.

Onde é realizada a produção das fibras?

A Trevira tem duas unidades de produção, ambas na Alemanha, uma de fibras e PET, em Bobingen, e outra de filamentos, em Guben. Produzimos cerca de 150 mil toneladas de PET têxtil, 70 mil de fibras e 20 mil de filamentos.

Em Portugal, além da sucursal, a Trevira dispõe de alguma unidade industrial?

Fazemos a conversão de fibras de poliéster para o sector laneiro. O poliéster não é apresentado às fiações sob a forma de fardos, ou seja fibra cortada, mas sim numa “bump”, que é como se fosse uma fita de carda, enrolada, que forma uma bobine de 10 quilos, normalmente. Essa produção é feita na Tessimax Conversão, que pertence ao Grupo Paulo de Oliveira, numa parceria com a Trevira, ou seja, a Tessimax Conversão só tem um cliente, que é a Trevira. É uma parceria muito próxima, que estimamos muito e com a qual estamos muito satisfeitos. Temos capacidade para produzir à volta das 250 toneladas mensais de fibra.

No geral, como se encontram repartidas as vendas da empresa?

Carlos Oliveira e Pedro Marques

As duas fibras técnicas com maior preponderância dentro do grupo, a nível mundial, são a Trevira CS e a Trevira Low-pill, que é a laneira. Estas duas fibras representam 25 mil toneladas de vendas, ou seja, cerca de 30% a 35%. O restante é quase tudo fibras para o sector dos não-tecidos, mas técnicas. Somos, provavelmente, a empresa europeia que mais fibras bicomponentes produz, não em quantidade, mas em valor acrescentado e tipo de fibras. Aliás, o nosso último grande investimento foi numa linha só para fibras bicomponentes.

E em Portugal?

Em termos de volume, sem dúvida que são as fibras laneiras e depois os filamentos para o sector dos não-tecidos. Em termos de turnover, são os filamentos.

A sucursal serve também Espanha e Marrocos. Quanto representa cada mercado, incluindo Portugal?

Portugal representa uns 70%. Espanha e Marrocos têm o mesmo peso, 15% cada um.

Por onde passam as ambições da Trevira GbmH Sucursal Portugal?

O escritório Trevira em Portugal é para continuar e evoluir. Em que moldes, não sei, porque com toda a transformação do grupo IVL, provavelmente novos negócios poderão vir para a sucursal Portugal. Há a possibilidade de abrir um leque de oportunidades, nomeadamente no sector automóvel. Confesso que tenho grandes expectativas.