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H&M aposta na reciclagem

A Hennes & Mauritz, a segunda maior retalhista de moda do mundo, está a promover a reciclagem, numa iniciativa que se destina a reduzir o seu impacto ambiental, impulsionar as credenciais éticas e adereçar a iminente escassez de matérias-primas.

Esta iniciativa surge num momento em que os críticos destacam os malefícios decorrentes da cultura de desperdício alimentada pela tendência de vestuário de baixo custo, que tem testemunhado um aumento acentuado no número de peças vendidas anualmente em todo o mundo.

A sueca H&M, que prepara o lançamento de uma linha de jeans produzida à base de algodão reciclado, irá oferecer um prémio anual de 1 milhão de euros a criadores de novas técnicas de reciclagem de roupas, anunciou o presidente-executivo Karl-Johan Persson.

«Nenhuma empresa, de fast-fashion ou outra, pode continuar exatamente como hoje», defende Persson. «O maior potencial (do prémio) está em encontrar uma nova tecnologia que signifique que podemos reciclar as fibras com qualidade inalterada».

À medida que a pressão populacional cresce, retalhistas como a H&M estão preocupadas com a escassez de potenciais futuros de algodão, fibra altamente dependente de água e pesticidas.

Os métodos de reciclagem de algodão existentes resultam em fibras de baixa qualidade e não existe qualquer modo eficiente de reciclar peças de vestuário de materiais combinados, pelo que a grande maioria das peças de vestuário tem como fim um aterro.

Johan Rockstrom, professor de ciências ambientais na Universidade de Estocolmo e membro do júri para o prémio H&M, afirma que a indústria da moda precisa de encontrar novos modelos de negócios que respondam à escassez de recursos globais.

«Este é um grande desafio para a H&M, cuja marca registada é roupas baratas de boa qualidade. O facto de ser barato significa a existência do risco das pessoas comprarem e deitarem fora, ou comprarem muito», aponta.

As receitas da H&M mais que duplicaram desde 2006, alcançando os 151 mil milhões de coroas suecas (15,8 mil milhões de euros) no ano até novembro de 2014, tornando-se a segunda maior retalhista de moda do mundo, superada apenas pela espanhola Inditex.

Anne-Charlotte Windal, analista da Bernstein, sustenta que a tendência de sustentabilidade da indústria reflete o dilema que enfrentam as empresas de fast-fashion. «O modelo só funciona se eles incentivarem compras muito frequentes, mas os consumidores estão cientes do efeito nefasto que esta atitude tem sobre o meio ambiente», explica.

Outras empresas buscam, atualmente, as suas próprias soluções. A Mud Jeans é uma empresa holandesa que aluga vestuário aos consumidores e, em seguida, oferece-lhes uma peça de substituição anualmente, repara e revende as peças usadas e recicla o tecido.

«Este é o futuro: os produtores que são responsáveis pelos seus próprios resíduos», reconhece Bert van Son, presidente-executivo. «A nossa empresa pode fazer isto porque nós somos bastante pequenos e é por isso que podemos fazer este tipo de coisas loucas, porque podemos manter o algodão puro. Tratando-se de uma grande cadeia de lojas é muito complicado misturarem o algodão e o poliéster».

A H&M uniu forças no início do ano com o grupo Kering, proprietário da marca Puma, para apoiar a start-up Worn Again no desenvolvimento de uma tecnologia para separar e extrair fibras de peças de vestuário compostas por diversos materiais.

Simultaneamente, a Re:newcell está a desenvolver um método para melhorar a qualidade de fibras de algodão reciclado e espera construir a sua primeira fábrica nos próximos anos.

Atualmente, apenas um máximo de 20% do algodão reciclado pode ser usado num novo par de jeans porque o comprimento das fibras é reduzido no processo de reciclagem, afetando a sua qualidade, revelou a H&M.

A H&M e Kering não estão sozinhas nesta demanda pela reciclagem. Tal como a H&M, também a britânica Marks & Spencer e a italiana Calzedonia recolhem nas suas lojas artigos usados, destinando-os à reciclagem.

Numa escala inferior, os empresários finlandeses Pure Waste Textiles conseguiram produzir camisolas de algodão 100% reciclado após o aperfeiçoamento das técnicas de reciclagem existentes.

No entanto, outros acreditam que a reciclagem é apenas uma distração do verdadeiro desafio da indústria da moda: persuadir os clientes a prolongar a utilização das suas roupas.

Para o efeito, o designer britânico Tom Cridland está a oferecer uma garantia de 30 anos em diversas camisolas.

«Eu não acredito que seja justo para os clientes produzir simples camisetas brancas que só duram um ano ou dois», diz Cridland. «Eu não posso competir no preço, por isso tenho de fazer algo diferente».