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Homem na ribalta

Aos 40 anos, Nuno Baltazar regressa à moda de homem. No “Circus” montado na passerelle do Portugal Fashion, o designer revelou a nova aposta, numa altura em que promete igualmente enveredar por uma nova investida na internacionalização da marca epónima.

Inspirada nas personagens interpretadas por Jessica Lange na série televisiva American Horror Story, a coleção para o outono-inverno 2016/2017 de Nuno Baltazar destacou-se na última edição do Portugal Fashion (ver Crónica de um inverno anunciado). «Fiz 40 anos em janeiro e achei que tinha de mostrar outros dos meus lados, das minhas facetas, que sempre existiram mas que ainda não tinha chegado o momento de revelar», explicou o designer. «De alguma forma, as minhas heroínas têm sido sempre muito poéticas, mais sofridas, mais dramáticas, mas todas elas têm um lado negro e é isso que as torna mais interessantes. Todas têm um bocadinho de Sue Ellen [Ewing, da série Dallas], uma mulher que bebia. E acho que esse lado da mulher ligeiramente desconstruída pode ser muito mais interessante», acrescenta.

Foi com base nesta desconstrução e neste lado mais negro – bem presente na música escolhida para o desfile, entrecortada com risos sinistros – que nasceram as propostas de Nuno Baltazar. Saias aos godés combinaram-se com meias pela canela, os vestidos de festa foram usados com bodies de gola alta. O brilho foi dado por alguns estampados e aplicações de estrelas, mas até os materiais exploraram um lado mais pesado, como os casacos de veludo pónei, assim como as cores, masculinas, divididas entre o preto, grafite, musgo, mostrada e vermelho sangue. «Foi trazer o lado negro… A cor é escura, a banda sonora situava-nos num lado muito sarcástico, corrosivo, de vício», resumiu.

Pelo caminho, estas diferentes personagens encontraram os homens – uma incursão do designer a um universo que não lhe é completamente desconhecido. «Homem é algo que eu fiz no passado, mas já há muitos anos», afirmou, revelando ter sido «desafiado» por clientes, mas que hesitou porque «achava que não tinha nada de novo para dizer». A decisão acabou por ser muito pessoal. «Efetivamente nunca encontrava no mercado de autor marcas com as quais eu próprio me identificasse. E percebi que, apesar de esteticamente poder não ser algo muito fantasioso – porque não é, nem era, isso que eu queria –, é algo com que uma faixa de homens que tenha um gosto parecido com o meu se pode identificar», justificou.

À passerelle subiu, assim, um homem sóbrio e elegante, com casacos de duplo abotoamento, camisolas de gola alta, pullovers e coletes a fazerem parte das propostas, em tons de cinzento e preto, mas também num inesperado mostarda, que vai ao encontro daquilo que o designer acredita ser a evolução do homem na moda. «Acho que os homens podem ser infiéis em tudo, menos nas marcas que consomem. São muito mais fiéis do que as mulheres, quando gostam de uma marca consomem sempre», explicou. «São mais rotineiros e efetivamente precisam de propostas que possam ter um twist, que pode ser uma cor que é um bocadinho fora do vulgar, comprimentos que são diferentes, mas sem ser exagerado – eu também não me identifico com esse tipo de roupa em homem», acrescentou.

Uma nova área a desenvolver no futuro, juntamente com uma aposta mais forte na internacionalização da marca. «Estou em contactos atualmente com o Portugal Fashion para rever essa proposta de estar lá fora. Para esta estação já houve essa possibilidade, mas como estava a trazer homem, achei que não era o momento certo – não me queria dispersar. Mas na próxima estação é possível que isso aconteça», referiu Nuno Baltazar, que sublinha a importância das feiras nessa estratégia. Quanto aos mercados, «obviamente que o mercado americano é aquele que me interessa mais neste momento», assim como «o mercado italiano», apontou o designer.