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Homens à lupa

Como apresentar, hoje, o homem chinês? A identidade masculina, tradicionalmente definida pelo papel do homem na sociedade, tem vindo a sofrer alterações na economia capitalista da China. As antigas definições coletivas estão a revelar-se ultrapassadas, na mesma altura em que arquétipos alternativos baseados no individualismo estão em escalada.

O casamento é tudo

A realidade do homem chinês permanece relativamente desconhecida a nível mundial. Na sequência da liberalização da China como economia capitalista, porém, novas tribos estão silenciosamente a desenvolver-se, analisa o portal de tendências WGSN.

Desde a abertura do país, os seus homens outrora homogéneos foram formando grupos específicos que partilham prioridades, estilos de vida, empregos, estatuto socioeconómico e perspetivas.

Embora a individualidade e a autorrealização estejam em ascensão entre as gerações mais jovens da China devido à exposição aos meios de comunicação ocidentais, a pressão social do casamento continua a ser uma realidade unificadora dos homens chineses. Mas porquê?

Para a sociedade patriarcal da China, o casamento é tudo. Considerado dever de um bom filho, o matrimónio tem conotações com a idade adulta, masculinidade e classe que afirmam o valor social de um homem e a identidade de género. Ao contrário dos seus equivalentes ocidentais, os solteiros chineses são considerados incompletos como indivíduos e enfrentam uma rotulagem pejorativa – como “dan shen gou” (expressão traduzida como “cão solteiro”).

No ano de 2020, estima-se que haverá uma diferença de 30 milhões entre homens e mulheres adultos, de acordo com o National Statistics Bureau, motivando um aumento de “shengnan” (“homens sobrantes”).

Resultado desta realidade, foram identificadas duas tipologias masculinas na China: uma que é mais definida pelo seu grupo de consumidores do que escolhas de moda e outra que é mais definida pela sua tribo de estilo.

Grupos de consumidores

O “Homem ideal” joga pelo seguro em lojas da Uniqlo e nas marcas mais vendidas, podendo também vestir activewear de retalhistas internacionais ou domésticos.

O “Ingénuo” é definido pela sua aparência jovem e cuidada. Este homem é influenciado pela moda sul-coreana e estilo urbano, mas também pode usar activewear contemporâneo.

O “Nerd” é um consumidor anti-moda. Este homem é um cliente pragmático que gosta de comprar peças básicas fáceis de encontrar em marcas com estilos padrão e grandes retalhistas, como a Uniqlo.

O “Playboy” é um jovem mais ocidental. Viaja e tem dinheiro para comprar marcas internacionais “It” e, como pioneiro, junta marcas de luxo com marcas contemporâneas cool ou streetwear premium.

Os chamados “Bigwig” eram definidos pelos seus fatos por medida de estilo ocidental e relógios de luxo, mas devido à campanha anticorrupção na China têm experimentado um perfil mais discreto.

O “Homem ideal”

O “Homem ideal” é definido por valores tradicionais culturais associados ao Confucionismo – humildade, trabalho árduo e uma personalidade acessível e positiva. É alguém oriundo de uma família com bons valores, com formação universitária e pode trabalhar numa profissão bem-vista na sociedade, como professor.

Nos últimos anos, esse arquétipo masculino evoluiu para o termo “gao fu shuai” (alto, rico e bonito).

E, embora o “Homem ideal” venha com um selo de aprovação dos pais, é considerado um pouco aborrecido pelos seus pares em cidades que valorizam cada vez mais a autoexpressão e o individualismo.

O “Ingénuo”

Outrora apresentado como “xiao bai lian” (“cara pálida”) o “Ingénuo” é um novo arquétipo positivo para o jovem chinês mais aprumado. Influenciados pela exposição aos “meninos bonitos” ocidentais, homens metrossexuais, atletas chineses e estrelas K-pop, estes símbolos sexuais são agora referidos como “xiao xian rou” (“carne fresca”).

Tradicionalmente ridicularizado como “niang niang qiang” (efeminado) ou “hua hua gong zi” (“Playboy”), o “Ingénuo” representa uma mudança na definição de género na China. Com o rendimento e a sofisticação dos consumidores em ascensão, há uma expectativa social cada vez maior para que os homens jovens sejam charmosos e tenham boa aparência.

O “Nerd”

Conhecido como “zhai nan” (“homem caseiro”), o “Nerd” é um estereótipo relacionado com alguém que é socialmente desajeitado e introvertido e gosta de jogos online e/ou livros de banda desenhada.

As referências incluem a comédia americana “The Big Bang Theory”, Jack Ma (fundador e presidente executivo do grupo Alibaba) e Ma Huateng (fundador e CEO da Tencent Inc.).

O “Playboy”

Carregando a conotação negativa “hua hua gong zi” (“Playboy”) este é um segmento há muito relacionado com a classe alta da China, egoísta e hedonista. Associado com a vida pecaminosa decorrente da mudança de sistemas políticos do país, este homem é estereotipado como alguém que joga, bebe e consome drogas recreativas.

Filhos de altos funcionários do governo e empresários, estes elementos têm abundância de dinheiro da família para gastar em experiências e produtos de luxo.

Presos entre culturas, estes homens cresceram com uma educação ocidental e apreço pela realização pessoal, todavia, são definidos pelas conquistas dos pais e, como tal, espera-se que preencham todos os requisitos familiares tradicionais.

O “Bigwig”

O Bigwig é um self-made man. Desempenha funções como funcionário do governo ou executivo de negócios. Embora este arquétipo fosse, em tempos, o mais poderoso e venerado homem chinês, a mudança nos valores sociais e a campanha anticorrupção em curso no país criaram tensão no grupo.

Estes são os pais dos “playboys” do país, que são definidos pela sua reputação: amantes, fatos, whisky, clubes, jantares de negócios, carros e relógios de luxo. Não obstante, como os tempos mudaram, estes homens têm hoje uma presença mais discreta.

Tribos de estilo

Os “Chineses contemporâneos”

Influenciada pela cultura e filosofia tradicional chinesa, juntamente com os estilos de vida mais ponderados encontrados no Japão e Taiwan, esta é uma tribo de estilo e um grupo social para os intelectuais. Este homem pode trabalhar numa área criativa, como a arte, arquitetura, publicidade ou design industrial. Marcas posicionadas neste segmento incluem a Ziggy Chen, a Croquis, a retalhista japonesa Muji e a concept shop multimarca Triple Major.

Embora este seja um grupo de nicho de momento, os especialistas esperam que cresça devido a um renovado interesse do consumidor por artigos mais eruditos.

Os “Urban street”

Fortemente influenciada por marcas internacionais como Vêtements, Hood by Air, Pigalle, Black Scale, Adidas, Rick Owens e Nike, esta é a tribo perfeita para os jovens chineses que seguem e subscrevem “chao liu” (“tendências cool”).

Os “Desportistas alternativos”

Esta tribo é uma comunidade social e um estilo de vida que comemora a aceitação, a autoexpressão e a fraternidade encontradas no fluxo rítmico do movimento.

Liderado por skaters, este é um dos estilos de vida mais desenvolvidos e ativos do país. Shenzhen, Cantão, Xangai e Pequim são as cidades mais conhecidas por esta comunidade, mas esta está em expansão.

Apesar de a Vans e a Converse serem já nomes conhecidos para os “Desportistas alternativos”, outros influenciadores incluem a Kia World Extreme Games de Xangai; Eric Lai, fundador do Vagabond Skateboards em Shenzhen; Jeff Han, fundador da Fly Streetwear; a Avenue & Son; e a Made In China.