Início Notícias Mercados

Hong Kong perde clientes

A cidade chinesa recebe anualmente milhões de pessoas de todo mundo, que vêm para comprar os melhores e mais variados artigos de moda, joalharia, eletrónica, cosmética e mais. Mas, desde 2018, que Hong Kong parece ter perdido a popularidade e a preferência entre os consumidores.

A avenida que domina o distrito comercial híper-frenético de Causeway Bay, em Hong Kong, venceu o ano passado o primeiro lugar do local com as rendas imobiliárias mais caras do mundo, ultrapassando a Quinta Avenida de Nova Iorque e a Rua New Bond de Londres. Apesar disso, o mês de fevereiro chegou a sentir um abrandamento do movimento comercial, que apenas se intensificou ao longo do resto do ano: em julho, quando se iniciaram os protestos pró-democráticos, as vendas a retalho diminuíram 11,4%, o declínio mais íngreme desde há mais de três anos. Esta evolução foi suficiente para chamar a atenção da Associação Administrativa de Retalho de Hong Kong (HKRMA, na sigla inglesa), que recentemente solicitou aos senhorios a redução das rendas para metade durante um período de seis meses, pedido que até agora passou despercebido, noticia o Quartz.

Motivos que justificam a queda

O declínio das vendas pode resultar de uma conjugação de vários fatores. Michael Cheng, líder do mercado de consumidores da Ásia-Pacífico na PricewaterhouseCoopers explicou, ao jornal South China Morning Post, que «a contínua disputa comercial sino-americana, a instabilidade do mercado de ações e a volatilidade da moeda chinesa renminbi continuam a ensombrar a consciência dos consumidores e os respetivos gastos».

Causeway Bay

Já no sector do luxo, os chineses continentais substituíram as ruas de Hong Kong pelas compras em casa. Esta mudança faz com que «as perspetivas para o mercado do luxo na Ásia sejam positivas, especialmente na China, a não ser para Hong Kong e Macau», afirma a Consultancy Bain & Company.

Neste enquadramento, a instabilidade social que se reflete em manifestações e protestos só contribui para aumentar a pressão. Durante os fins de semana, os centros ou áreas comerciais, como Causeway Bay, tornaram-se campos de guerra, forçando algumas lojas a fechar, o que significa não só uma perda de vendas como também a ausência de pagamento aos empregados pelas horas ou dias em que não puderam trabalhar.

Tendência em baixa

Apesar da instabilidade social que se faz sentir na cidade, Hong Kong permanece pacífico para se visitar, o que não parece estar a surtir qualquer efeito.

O turismo (que reúne cerca de 5% do PIB chinês) sofreu um golpe, que se refletiu na perda de 4,8% visitantes, em julho, relativamente ao ano passado. A queda chega a ser mais drástica entre as chegadas dos chineses continentais, que representaram 80% dos visitantes no mesmo período.

Prevê-se que esta tendência se mantenha durante o mês de agosto, uma vez que saírem os dados de análise. Se assim for, a instabilidade pode desencadear uma diminuição das vendas a retalho até 30%, o que evidencia os primeiros sinais de uma recessão.

O cenário torna-se mais negro para as marcas de luxo, já que Hong Kong é uma importante fonte de vendas. A UBS estima que a Richemont retira desta cidade 11% das suas vendas, a Swatch cerca de 10% e a Burberry 9%. Para além destas, várias outras casas de moda podem estar em risco, como a Hermès, Moncler e Prada.

No entanto, os residentes de Hong Kong dão prioridade a outras questões em que «a liberdade é mais importante que a economia», garante um protestante à Time. Neste contexto, a primeira-ministra de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou a retirada da lei de extradição que, inicialmente, desencadeou os protestos. A medida poderia significar um alívio à pressão comercial sobre as marcas de luxo. Contudo, não é provável que seja o suficiente para apaziguar os manifestantes, que agora exigem uma investigação independente para a alegada má conduta da polícia e aproveitaram o momento para pedir eleições livres.