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Hugo Boss replica fábrica 4.0

A unidade de produção do grupo alemão na Turquia está a tornar-se num modelo não só para a Hugo Boss mas também para outras empresas em todo o mundo, incluindo Portugal. Responsabilização dos funcionários, gamificação da formação, análise de dados e flexibilidade de fabricação são alguns dos conceitos-chave.

Joachim Hensch

A empresa alemã tinha já anunciado, em 2018, o projeto em curso de otimização da produção e a criação de uma “fábrica do futuro”. Mas da teoria passou à prática e está já em funcionamento uma unidade industrial na Turquia que corresponde ao novo paradigma de flexibilidade que a fabricação atual de vestuário exige. A fábrica é resultado de um investimento inicial de 1,3 milhões de euros, mas cujo retorno, garantiu, ao Portugal Têxtil, Joachim Hensch, diretor-geral da área das indústrias têxteis da Hugo Boss durante a conferência da ITMF, em outubro passado, «foi mais rápido do que o esperado». Em apenas 18 meses, a Hugo Boss recuperou o investimento. «O plano era que fosse em dois anos, mas fomos ainda mais rápidos», acrescentou.

Nesta unidade produtiva em Esmirna, na Turquia, a Hugo Boss confeciona 35% dos fatos de homem que vende em todo o mundo, assim como 30% das camisas e mais de 40% do vestuário formal de senhora. «Temos cerca de 4.000 pessoas e fazemos milhões de peças por ano», adiantou Joachim Hensch. A capacidade de resposta para um pedido é de quatro semanas, graças à flexibilização da produção que envolve os funcionários.

«Temos uma fábrica digital e uma física. A “gémea” digital tem muito a ver com simular a realidade e depois de a simularmos e a otimizarmos, damos esse conhecimento aos operadores e eles executam e adoram – adoram ser responsabilizados», explicou o diretor-geral da área das indústrias têxteis. Em apenas alguns minutos, os funcionários no chão de fábrica mudam o layout da produção para serem mais eficientes.

Além destas simulações virtuais, a digitalização reflete-se ainda, entre outras, na formação, com os trabalhadores a serem formados em contexto de jogo (a chamada gamificação), e na utilização de plataformas tecnológicas, implantadas em 800 tablets no chão de fábrica, para, rapidamente, poderem comunicar dúvidas ou problemas que surjam. «Diria que somos capazes de lidar com a complexidade de forma muito mais fácil», afirmou Hensch, revelando ainda que «a cada duas semanas questionamos se estamos ou não no caminho certo». A isso soma-se a recolha e análise de dados – todas as máquinas estão conectadas – que, no futuro, deverão permitir obter informação para melhorar ainda mais o processo.

Uma outra característica desta unidade produtiva prende-se com a maior polivalência dos trabalhadores. «Formamos os nossos operadores e duplicamos a quantidade de operações por operador. Por exemplo, no menswear, normalmente temos cinco ou seis operações por operador. Na nossa linha 4 – temos cinco linhas de produção – temos 13 operações por operador», aponta. Uma forma de trabalhar que, assegura o diretor-geral da área das indústrias têxteis, «dá-nos uma flexibilidade incrível para lidar, num curto prazo, com as situações imprevisíveis que surgem hoje em dia».

Um exemplo a replicar

Além da produção da Hugo Boss, esta “fábrica do futuro” abriu uma nova área de negócio à empresa alemã, que presta agora consultoria a outras unidades produtivas que querem levar o negócio para a Indústria 4.0. «Já não somos apenas uma fábrica, somos uma plataforma para produtos, serviços e conhecimento», sublinha Joachim Hensch. «Na indústria 4.0 pode-se gastar muito dinheiro na direção errada. Se [as empresas] precisarem de uma lista de verificação, para perceberem onde estão, em que nível de digitalização ou de maturidade estão, podemos começar a ajudá-las fazendo as questões certas», referiu, garantindo que «primeiro é preciso perceber onde é que está a organização. Se se compreender isso, então pode pensar-se em como polir a organização, como a tornar lean e depois como construir esta área digital».

E são já várias as indústrias que abordaram a Hugo Boss, inclusive do nosso país. «Estamos a trabalhar com empresas portuguesas, com empresas indianas e também um pouco em Marrocos e na Indonésia», enumerou Hensch. Mais que o país em causa, acredita, «tem a ver com a coragem, com líderes que se movem em diferentes direções, porque é uma abordagem muito distinta no que diz respeito à gestão. Não se pode persuadir alguém em relação a isto. É preciso dedicação total a nível superior, de outra forma não irá funcionar. Não é uma história de raízes, é uma história em que se teve uma visão», conclui o diretor-geral da área das indústrias têxteis da Hugo Boss.