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Hugo Costa: uma marca 100% digital

O designer Hugo Costa decidiu tornar a sua marca epónima completamente online, com as vendas a serem apenas realizadas no mundo virtual, numa estratégia que reflete o mundo atual.

Hugo Costa

«Hugo Costa é uma marca que vai existir 100% no digital», revela ao Jornal Têxtil. A estratégia navega numa tendência que foi impulsionada pela pandemia e implicou uma série de investimentos. «[O online e o modelo híbrido das apresentações] mudou a visibilidade que as marcas estão a ter neste momento. O facto de termos uma exposição maior e um evento que acontece também em digital ao mesmo tempo faz com que as marcas se estejam a divulgar muito mais», afirma o designer.

Para capitalizar o momento, a marca fez «uma série de iniciativas diretas com o consumidor final no Instagram, até para escoar algum stock, que tiveram um impacto bastante interessante e acho que isso é demonstrativo do que a pandemia trouxe, que foi uma digitalização maior da nossa indústria, principalmente do nosso mercado. Foi um acelerar do processo», assegura Hugo Costa.

Atualmente, o website da marca está a ser redesenhado e permitirá vendas para todo o mundo. «Numa fase inicial vamos começar pela Europa e depois, a partir daí, vamos tentar abrir protocolos para outros destinos, porque as questões alfandegárias ainda trazem muita burocracia e é preciso uma estrutura logística muito sólida para podermos dar esse salto», salienta.

Com um passado recheado de apresentações internacionais, o criador de moda colocou essa área em pausa. «Sinceramente, não é uma coisa em que pense muito, não é algo que exclua, não é isso que estou a dizer, até porque é muito interessante fazer, mas, se calhar, agora temos de estar focados noutras coisas. Para mim é muito importante ficar concentrado naquilo que realmente importa e, neste momento, é a parte do negócio, trabalhar o digital. Depois, lentamente, começar a construir essas iniciativas [de internacionalização] com o Portugal Fashion», explica.

Apesar da pandemia ter, de algum modo, moldado a estratégia de distribuição, não afetou a forma de trabalhar de Hugo Costa. «Acho que nos mudou a todos como seres humanos, e isso, claro, reflete-se no trabalho que fazemos, mas não acho que, enquanto designer ou no método, tenha sido tão impactante assim», aponta.

A mais recente coleção faz a ligação entre o passado e o futuro da marca, numa espécie de retrospetiva que impulsiona para o que há de vir. Inspiradas no filme Tenet e numa fotografia de Hugo Costa dos anos 80, as propostas trabalham pormenores já usados pelo designer no passado, adotando novas cores e materiais.

ITV no papel principal

Riopele e Troficolor são dois dos parceiros do criador de moda, «muito importantes para nós numa fase em que as marcas passaram algumas dificuldades e estas empresas estão, efetivamente, a dar a mão aos designers para ajudá-los com as questões das quantidades de matérias-primas». No entanto, confessa Hugo Costa, «para ser honesto, não vejo a indústria assim tão aberta aos designers nacionais. Está mais flexível para produções mais pequenas, mas falta produtores, confecionadores, produtores de calçado, não só para mim, que tenho um processo consideravelmente flexível e consigo resolver com os recursos que tenho. Em termos internacionais é mais fácil, parece-me, chegar aqui e dizer que temos um projeto e fazer acontecer esse projeto. Em termos nacionais é muito difícil».

Ainda assim, Hugo Costa admite sentir-se «um privilegiado», inclusivamente em relação ao apoio que tem recebido por parte do Portugal Fashion ao longo da sua carreira. «Tive a oportunidade certa, no momento certo, com as pessoas certas. Tudo correu bem e nós – porque não sou só eu que trabalho, mas todas as pessoas que passam pela empresa e a família foi também importante – estávamos preparados. É um investimento muito grande que fazemos na carreira. Foi uma conjuntura perfeita para termos feito o percurso que fizemos até hoje», realça.

A imprevisibilidade do mundo atual faz, contudo, com que o designer não arrisque previsões. «Estamos na iminência de entrarmos numa III Guerra Mundial, estamos a sair de uma pandemia, tudo isto são ciclos que, infelizmente, se repetem na história e, neste momento, está tudo totalmente imprevisível. O meu plano é continuar a fazer o meu trabalho e bem feito, cada vez mais», assevera Hugo Costa.