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Humana com saldo positivo

A organização sem fins lucrativos que gere vestuário usado em Portugal fez um balanço da recolha de vestuário e acessórios no país, no ano de 2020, e acabou com «saldo positivo». Através da reciclagem e da reutilização, foram recuperadas 2.923 toneladas de têxteis para fins sociais, o que é sinónimo da não emissão de 9.262 toneladas de CO2.

[©Humana]

Apesar do cenário de pandemia que assombrou o mundo de forma inesperada no ano passado, a Humana Portugal continuou a exercer funções, ainda que adaptada à nova realidade. A associação que trabalha a favor da proteção do meio ambiente, focando-se na reutilização têxtil e na realização de programas de cooperação para o desenvolvimento em Moçambique e na Guiné-Bissau e também de apoio local, manteve a atividade de recolha, já que a valorização dos resíduos é considerada um serviço essencial.

Deste modo, a desaceleração e a paralisação, nalguns casos, da atividade económica a nível nacional e global traduziram-se numa queda no mercado de vestuário em segunda mão a nível mundial que não impediu a associação sem fins lucrativos de recolher 2.923 toneladas de têxteis em 2020, dando-lhes uma nova vida, com recurso à reciclagem e à reutilização.

«O saldo é positivo considerando o contexto vivido desde março do ano passado e que o segmento de vestuário em segunda mão sofreu um grande impacto, o que tem dificultado o desempenho da associação», destaca a organização em comunicado.

No caso específico da Humana, a crise pandémica provocou o encerramento temporário da rede de lojas e também uma diminuição do número de espaços, motivo pelo qual, atualmente, existe um total de 14 espaços, nove em Lisboa e cinco no Porto.

Graças às parcerias com os municípios e entidades privadas, a Humana dispõe de 838 contentores para que os cidadãos possam depositar vestuário, calçado, acessórios e têxteis-lar que já não pretendem utilizar. Só no ano passado, foram efetuadas 414.900 doações.

Duplo benefício

Segundo a associação, a recuperação de têxteis tem um «duplo benefício»: a nível ambiental, uma vez que reduz a geração de resíduos, e contribui simultaneamente para o combate às mudanças climáticas. «A reutilização e a reciclagem de têxteis durante o ano passado representam uma economia de 9.262 toneladas de CO2 para a atmosfera, tendo em conta que um estudo da própria União Europeia indica que cada quilo de roupa recuperado e não incinerado representa 3,169 kg de CO2 que não são mais transmitidos», indica a Humana. «As 9.262 toneladas de CO2 não emitidas graças ao manejo sustentável dos têxteis equivalem à emissão anual de 3.479 carros que circulam 15.000 km cada ou à absorção anual de dióxido de carbono de 69.127 árvores», exemplifica.

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Outro benefício centra-se na vertente social, já que implica a criação de empregos que a Humana define como «inclusivos, estáveis e de qualidade». Além de gerar emprego, os próprios recursos obtidos são aplicados a projetos sociais, pois a associação faz parte da Humana People to People Federation que, no ano passado, procurou responder a três desafios globais – a pandemia de Covid-19, a crise climática e a crescente desigualdade, tendo beneficiado 12 milhões de pessoas em todo o mundo.

Visão circular e destino dos têxteis

A Humana atua em conformidade com o novo marco estabelecido para a gestão de resíduos no âmbito da economia circular em Portugal (Decreto-Lei 102-D/2020, Publicado no Diário da República de Portugal n.º 239 a 10 de dezembro 2020). Proteger, preservar e melhorar a qualidade do ambiente, regendo-se pelo uso prudente, eficiente e racional dos recursos naturais, reduzindo a pressão sobre a capacidade regenerativa dos ecossistemas faz agora parte da visão da organização que, para 2021, pretende progredir nas metas sustentáveis já traçadas.

«A Humana contribui para tornar o sector mais sustentável, com uma visão de economia circular em Portugal», revela Elisabeth Molnar, diretora-geral da associação, enfatizando que a organização «reintroduz o vestuário na cadeia de valor, gera recursos com impacto social positivo, cria emprego verde e sustentável, contribui para o cumprimento dos objetivos de reutilização definidos e promove a melhoria das condições de vida das comunidades mais desfavorecidas graças a programas de cooperação para o desenvolvimento».

De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), 200 mil toneladas de roupas são descartadas anualmente, pelo que é necessário aumentar o número de pontos de recolha. «A proporção atual de contentores por habitante ainda está longe de ser a adequada», sublinha a diretora-geral da Humana.

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No ano passado, 53% dos têxteis recolhidos foram destinados ao reaproveitamento: 14% através das lojas em segunda-mão da Humana em Portugal e 39% exportados, principalmente para a África, onde, posteriormente, foram vendidos a preços baixos, gerando recursos para a cooperação ao desenvolvimento. 36,5% estavam num estado que não permitiu o reaproveitamento, por isso foram vendidos a empresas de reciclagem de tecidos para a fabricação de outros produtos, como mantas, isolantes ou panos para a indústria automotiva. 2% foram denominados de resíduos impróprios, nomeadamente plástico, papelão e muitos outros, que acabaram nas mãos dos respetivos gestores autorizados. 8,5% não puderam ser reaproveitados, reciclados ou recuperados e foram encaminhados para uma estação de tratamento de resíduos.