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I&D compensa Taiwan

Com uma economia mundial fragilizada, uma estratégia agressiva de acordos de comércio livre da rival Coreia do Sul, assim como uma moeda local a valorizar, os produtores de têxteis e vestuário de Taiwan fizeram as suas apostas na inovação. E o seu foco nos têxteis funcionais parece estar a compensar. O volume de negócios das exportações da indústria em 2011 atingiu os 12,7 mil milhões de dólares (9,71 mil milhões de euros), em comparação com os 11,3 mil milhões de dólares no ano anterior. Para 2012, o valor total da produção deverá crescer 2% a 3%, para mais de 17,1 mil milhões de dólares. Estes números são um recorde dos últimos 10 anos para a indústria de Taiwan. A tecnologia e produtos resultantes das cerca de 400 empresas têxteis da ilha estiveram em exibição, em outubro, na Mostra de Aplicações Têxteis Inovadoras de 2012 em Taipei, que a organização afirma ser a mais importante exposição de têxteis inovadores na Ásia. «A tendência é para têxteis multifuncionais», afirmou Justin Huang, secretário-geral da Federação Têxtil de Taiwan (FTT). «Por exemplo, características de armazenamento de calor são agora combinadas com propriedades antibacterianas e secagem rápida», explicou. Huang acrescentou que a Formosa Textile, a maior empresa têxtil de Taiwan, lançou um tecido superleve de 7 denier (há dois anos era ainda de 15) e que as empresas de tecidos Far Eastern New Century, Shinkong Textile e Everest Textile apresentaram todas tecidos produzidos a partir de garrafas de plástico recicladas. «Os consumidores podem expressar a sua consciência ecológica ao mesmo tempo que disfrutam de multifuncionalidades se estes materiais forem conjugados», sublinhou Huang. Foco na funcionalidade A mudança de Taiwan em direção à funcionalidade surgiu em 2002. Foi durante o Campeonato Mundial da FIFA no Japão e na Coreia do Sul, quando a Nike, Adidas e outras marcas trabalharam com os produtores têxteis da ilha para desenvolver jerseys funcionais para os jogadores. Este trabalho foi realizado com uma consciência ecológica. A empresa têxtil Singtex, uma das líderes da indústria em Taiwan, é particularmente inovadora, combinando garrafas de plástico e grãos de café para criar um tecido que absorve os odores, que a Adidas, Boss, Puma, Nike, The North Face, Timberland e outras marcas internacionais (assim como o clube de futebol inglês Liverpool) compraram e usaram. «[Quando eramos ainda produtores de tecidos baratos], percebemos que sempre que tentávamos desenvolver um novo tecido, os produtores do sudeste asiático copiavam-nos e faziam-no mais barato», explicou Jason Chen, presidente da Singtex. «Depois, três doutorados e eu próprio estivemos quatro anos a fazer investigação e desenvolvimento para extrair e transformar resíduos de grãos de café em estruturas de tamanho nano para serem colocadas no fio S.Cafe, que depois transformámos em muitos estilos de tecidos e malhas», acrescentou. A história de sucesso da Singtex teve o seu papel a estimular a indústria têxtil de Taiwan a subir na escala de valor. Isto tornou-se evidente durante o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA em 2010, na África do Sul, onde a Nike colaborou com os produtores de Taiwan para vestir nove das 32 seleções em competição com jerseys funcionais. Também os Jogos Olímpicos de Londres foram vistos como um grande sucesso para as empresas têxteis de Taiwan. Combater a concorrência Mas ainda assim, uma trajetória ascendente continuada dificilmente pode ser dada como garantida. Após a implementação do Acordo de Comércio Livre UE-Coreia do Sul no ano passado, as exportações de Taiwan para a UE desceram 10% em termos anuais nos primeiros nove meses deste ano, afetando bastante o sector têxtil. Além disso, o Acordo de Comércio Livre EUA-Coreia do Sul entrou em vigor em março, o que pode levar à substituição de 5% das exportações têxteis de Taiwan para os EUA por produtos da Coreia do Sul. E uma quebra de 5% a 7% nos envios de têxteis para a China no ano passado foi atribuído à tendência das compras on-line. Huang, secretário-geral da FTT, considera que desde que a I&D seja reforçada, estes concorrentes coreanos podem ser combatidos. Primeiro porque os grandes retalhistas internacionais não trocam facilmente de fornecedores se tiverem um bom serviço de inovação. «Mas um perigo concreto é que os clientes usem o trunfo Coreia para baixar os preços», referiu. É também de sublinhar que a Coreia do Sul e Taiwan não estão em concorrência direta no mercado de retalho da China continental, acrescentou Huang, já que «os coreanos enfatizam o design de moda, não a funcionalidade». Também a corroer as margens de lucro está a atual força da moeda de Taiwan (Novo Dólar). A moeda local valorizou-se constantemente grande parte do ano, chegando recentemente ao seu nível mais elevado em 14 meses comparativamente com o dólar americano. Outra questão é a proteção da I&D. Colocando em perspetiva, a Singtex afirma ter gasto cerca de um terço do seu capital para desenvolver o seu fio de grãos de café S.Cafe. A I&D para têxteis multifuncionais envolve as indústrias de químicos e biotecnologia e o que funciona nos laboratórios pode dar problemas na produção em massa. Por isso, é particularmente incomodativo quando empresas fora de Taiwan copiam e exploram as inovações. Hu Sheng-Cheng, um antigo presidente do Conselho para o Planeamento e Desenvolvimento Económico da ilha, queixou-se das empresas da China continental que potencialmente aproveitam-se dos benefícios da I&D de outros. «Taiwan e a China Continental assinaram um acordo de Direitos de Propriedade Intelectual em junho de 2010, mas o lado continental não o implementa com zelo», afirmou Hu. «O que não é benéfico para eles não é aplicado pelas autoridades do continente», concluiu.