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I&D no centro do negócio

Caso único em Portugal, a Cortadoria Nacional de Pêlo reúne, desde 1943, as valências de 24 unidades industriais. Mais de 70 anos depois, a investigação e desenvolvimento continuam no cerne da atividade da empresa de fibras que, mantendo o seu negócio tradicional, tem novos projetos em curso.

A necessidade de competir num mercado global levou 24 cortadorias a juntarem-se numa única unidade industrial, resultando na criação da Cortadoria Nacional de Pêlo. «Na altura, outra das razões para a unificação das empresas era a substituição do mercúrio, utilizado para promover a capacidade feltrante», revelou Nuno Oliveira Figueiredo, um dos três administradores da empresa, numa entrevista publicada na edição de setembro de 2016 do Jornal Têxtil. «O objetivo era que a Cortadoria tivesse dimensão crítica para criar um laboratório de investigação e desenvolvimento para substituir a solução mercurial», explicou.

A estratégia do género “união faz a força” provou que, mais do que apenas um ditado popular, o conceito é eficaz, já que 73 anos depois, a empresa, sediada em São João da Madeira, não só continua a sua atividade como é líder de mercado, com uma produção que ronda 120 toneladas de pelo, que é usado na produção de chapéus. «A Cortadoria produz 40% a 50% da quantidade de pelo utilizada no mundo inteiro», afirmou o administrador, que apontou os EUA e a Bolívia como os principais mercados de exportação.

Atualmente, a empresa, que emprega 70 pessoas e em 2015 registou um volume de negócios de oito milhões de euros, importa as peles de castor do Canadá e da América do Norte, enquanto as peles de coelho são provenientes da Europa Central e as de lebre vêm da Europa Central e da Argentina. «A grande maioria das peles é de coelho, um subproduto da indústria alimentar, ou seja, em termos de economia circular – e estamos inclusivamente a investigar e a procurar algumas certificações nessa área – somos uma empresa bastante bem colocada, porque estamos a utilizar um subproduto e a transformá-lo num produto nobre, tal como a indústria do couro faz. Enquanto os humanos se alimentarem de vacas e de coelhos, faz todo o sentido que haja aproveitamento das peles desses animais, que de outra forma iriam para aterro», afirmou o administrador, que sublinhou ainda que «todos os fornecedores da Cortadoria têm números de certificado veterinário, ou seja, o controlo veterinário tem como objetivo a segurança alimentar, mas também o bem-estar animal».

Tal como na sua génese, também atualmente a investigação e desenvolvimento de novas soluções estão na ordem do dia para a Cortadoria Nacional de Pêlo, com vários projetos em curso. «Um deles visa uma terceira geração daquilo que é a operação de incremento das capacidades feltrantes. Tínhamos o mercúrio, agora fazemos, já há vários anos, em meio líquido, com ácidos e uma solução oxidante, e estamos a desenvolver meios gasosos para realizar a mesma operação, o que seria muito mais limpo em termos ambientais», explicou Nuno Oliveira Figueiredo.

Um outro projeto está relacionado com o aproveitamento da pele após a retirada do pelo. «No nosso processo de fabrico, a pele é destruída para conseguir retirar o pelo. O que estamos a tentar fazer neste momento é aproveitar as duas coisas», afirmou o administrador. «Embora seja uma pele relativamente pequena, pode ser curtida para luvas, por exemplo. Será um couro muito fino, com características únicas, que não existe no mercado», apontou. O projeto, desenvolvido em parceria com o Centro Tecnológico das Indústrias do Couro (CTIC), já resultou numa «encomenda experimental para uma marca de luxo», revelou Nuno Oliveira Figueiredo.

O investimento em I&D, de resto, é para continuar. «Se se comprovar que temos bons resultados, depois temos um investimento mais maciço em equipamento produtivo. Serão 3 ou 4 milhões de euros a investir nos próximos três anos», referiu.

O futuro da Cortadoria Nacional de Pêlo é, por isso, encarado com «otimismo» por Nuno Oliveira Figueiredo.  «Face à concorrência há uma diferença enorme em termos de tecnologia, de perspetiva como se gere uma operação como esta. Temos um nível tecnológico e uma sofisticação de negócio que não vejo nos nossos concorrentes», justificou. «É claro que temos de estar atentos, perceber que temos de continuar a melhorar e a prova disso é os projetos que temos. Mas também sabemos que temos alguma dianteira que nos dará no futuro alguma vantagem», concluiu.