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I&D traz novo couro para o mercado

Cobiçado pela sua resistência, elegância intemporal e toque de luxo, o couro é usado na moda, nos automóveis e no design de interiores e é apontado como uma das matérias-primas mais transacionadas do mundo. A próxima geração do material pode, contudo, vir diretamente do laboratório.

Em termos económicos, a desejabilidade do couro é inegável: em 2010, a United National Industrial Development Organization avaliou a economia mundial de artigos em couro em cerca de 100 mil milhões de dólares (cerca de 93,8 mil milhões de euros) por ano.

Mas um mercado tão abrangente tem igualmente os seus custos. A produção tradicional de couro deixa atrás de si uma grande pegada de carbono, muita poluição ambiental, sofrimento a animais e, por vezes, violações dos direitos humanos. Nas empresas de curtumes de couro, por exemplo, o Quartz aponta que há taxas mais elevadas de incidência de cancro, doenças respiratórias e outras questões de saúde, exacerbadas pela exposição a longo prazo a químicos tóxicos, em comparação com o emprego num escritório.

Ao longo dos anos, várias empresas tentaram responder ao aumento do consumo de couro, ao mesmo tempo que procuram encontrar uma solução para estes problemas. Diversas marcas de moda publicitaram alternativas sintéticas ou comprometeram-se a usar apenas desperdícios.

A Modern Meadow, contudo, foi mais longe nesta busca pela alternativa. Fundada em 2011, a startup voltou-se para a biotecnologia para literalmente cultivar couro num laboratório. Através da edição da sequência de ADN, as células são transformadas em pequenas fábricas que misturam colagénio, que é uma proteína estrutural encontrada na pele dos animais. À medida que são agitadas, as células são cultivadas com uma dieta de nutrientes até que o colagénio se transforme numa rede de fibras, formando uma espécie de folha que pode depois sofrer um processo de curtume e usado em vários produtos, Este material é biologicamente comparável ao couro animal, mas sem provocar a morte do mesmo, ao mesmo tempo que diminui o impacto humano e ambiental de preparar e tratar o couro.

«Estamos a criar toda uma plataforma de bioprodução», afirma Suzanne Lee, diretora criativa da empresa e ex-designer de moda. «Estamos apenas a começar a ver o que é possível», acrescenta.

Da perspetiva do design, ser capaz de criar em laboratório um material semelhante ao couro abre novas oportunidades para serem exploradas por empresas e designers. «É possível criar algo que é mais fino mas mais forte, mais leve mas que tem alguma nova funcionalidade», afirma.

Para o consumidor, o material traz igualmente outras possibilidades. Para além dos consumidores éticos poderem usar couro de baixo impacto, há ainda a possibilidade de cultivar peles de espécies raras ou mesmo extintas. «Claro que não é a nossa prioridade trazer de volta espécies extintas», sublinha Lee, «mas é exatamente o tipo de coisa que é possível com esta tecnologia».

Em junho do ano passado, a Modern Meadow anunciou uma ronda de financiamento de 40 milhões de dólares para preparar a comercialização. Atualmente a empresa tem uma unidade de produção piloto que fornece material suficiente para os parceiros para a realização de protótipos, mas o dinheiro angariado vai permitir à empresa construir uma unidade maior para trazer a primeira geração de produtos para o mercado. Suzanne Lee estima que os produtos vão começar a chegar aos consumidores dentro de dois anos.

Contudo, o caminho para a viabilidade económica trará os seus desafios. Produzir uma “folha” de couro a partir de células geneticamente modificadas é atualmente um processo que demora várias semanas – o que, apesar de tudo, é menos tempo do que a produção de couro, com os animais a demorarem vários anos a crescer. Mas a equipa multidisciplinar da empresa, que inclui engenheiros de células, engenheiros de materiais, especialistas em curtumes e em desenvolvimento de produto, está a trabalhar para reduzir o ciclo de produção e cumprir as exigências da produção em massa.

Durante as primeiras fases da empresa, os críticos da Modern Meadow afirmaram que a visão de criar couro sem matar animais é demasiado boa para ser verdade. Como prova, apontaram para a necessidade de ter células animais como base e sérum fetal bovino, que é o meio mais usado para fazer a cultura de células – mas é também controversamente proveniente de fetos bovinos vivos. Desde então, contudo, a empresa deixou de lado os meios de crescimento à base de animais, segundo um representante da empresa.

Apesar de todos estes avanços, Lee antecipa que os produtos produzidos pela Modern Meadow vão provavelmente complementar, e não substituir, os materiais existentes. «Penso que é um absurdo as pessoas assumirem que um “novo material” que entre no mercado vai imediatamente, do dia para a noite, substituir algo que cá está há décadas, séculos, milénios», afirma. Por exemplo, «se olharmos para o século XX, lá porque inventamos a poliamida isso não fez com que todos os outros materiais desaparecessem. Vai ser o mesmo para nós», acredita.

A Modern Meadow não é a única empresa que está a investigar couro biofabricado. A startup Mycoworks, sediada em San Francisco, que angariou a primeira ronda de financiamento em fevereiro do ano passado, tem estado a trabalhar também num material semelhante, tendo por base uma substância dos cogumelos chamada micélio e outros subprodutos agrícolas. Numa aplicação ainda mais bizarra da tecnologia, a designer de moda Tina Gorjanc está mesmo a usar o ADN do falecido designer Alexander McQueen para cultivar pele, como parte de um projeto conceptual.

Suzanne Lee vê estes possíveis concorrentes mais como parceiros do que uma possível ameaça. «O que é entusiasmante para nós é ver um número crescente de empresas que estão a biproduzir materiais mais amigos do ambiente, que têm propriedades incríveis e que são melhores para as pessoas e para o planeta», justifica.