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Idade maior

No início deste ano, Joan Didion surpreendeu o mundo. Não, o motivo não foram as suas palavras sagazes ou um novo livro de sua autoria. A escritora americana de 80 anos, uma das autoras literárias mais importantes dos século XX e XXI, protagonizou uma campanha publicitária para a Céline. O Instagram foi invadido com imagens suas; no Facebook, toda a gente partilhou a fotografia da campanha a elogiar Didion e os sites da especialidade, mas não só, questionavam sobre o que se passava no planeta moda. A indústria estava extática com a expressão de poucos amigos – mas muitos fãs – da genial Joan Didon. Passado não muito tempo, a Saint Laurent anunciou Joni Mitchell como cara do projeto musical da marca francesa. Fotografada por Hedi Slimane, o diretor criativo da Saint Laurent, na sua casa, em Bel Air, a cantora de folk, de 71 anos de idade, parece ser a escolha perfeita para exibir a coleção primavera/verão 2015 inspirada na década onde Mitchell reinou, os anos 70. Mas Didion e Mitchell não são casos únicos. Helen Mirren e Jane Fonda dão a cara pela L’Oréal Paris, Charlotte Rampling protagoniza os anúncios da marca de cosmética Nars e a Dolce & Gabbana escolheu três adoráveis “nonnas” como musas da campanha da coleção para a próxima estação quente. Até parece que a preferência por mulheres mais velhas para protagonizar campanhas publicitárias é recente, quase como se de uma nova tendência se tratasse, mas não. Este movimento começou – para registo – já em 2010, com a popularização do blog de Ari Seth Cohen “Advanced Style”, a que depois se seguiu um livro e um documentário. A intenção de Cohen, como descreve no seu blog, é provar que, com imagens e depoimentos «dos mais sábios, com cabelos grisalhos, o estilo fica melhor com a idade.» E desde então, outras iniciativas se seguiram. Os grandes armazéns londrinos Selfridges, pela primeira vez, vão trocar a iniciativa Bright Young Things – na qual davam a oportunidade a novos designers de exibir as suas criações nas suas montras da loja londrina – pela classe de Bright Old Things, onde 14 homens e mulheres, de idade avançada, mudaram de carreiras para a área artística numa altura em que poderiam já estar a pensar na reforma. Na quinta-feira passada, o Barneys New York apresentou Christie Brinkley e Brooke Shields – entre outras antigas supermodelos – como objeto de desejo de jovens modelos masculinos, na sua nova campanha publicitária. O que leva a questionar: porque é que só agora se celebra o envelhecimento feminino na moda? Uns dizem que isto é apenas uma estratégia de marketing para atrair quem, realmente, tem poder financeiro para comprar roupas e acessórios de luxo. Outros são da opinião de que o mundo já não é (só) para os mais novos, principalmente numa era em que a medicina tratou de aumentar a esperança média de vida. A moda, como sempre, procura espelhar o desejo, as necessidades e a realidade de quem a consome.