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Ideias para 2021 – Homem

Com a influência do streetwear no mercado de vestuário de homem a ficar madura, os principais tópicos para 2021 vão andar à volta do ciclo de vida dos produtos no contexto de mercados online e da sustentabilidade, assim como das estratégias digitais para o design.

Dior

A evolução do mercado de vestuário de homem está a trazer novas tendências, que vão do design ao consumidor. Sem omitir a necessidade de produzir menos e proteger mais o planeta – uma exigência que se estende também ao vestuário de criança e aos têxteis em geral –, o mercado do menswear em 2021 terá, de acordo com o WGSN algumas particularidades.

Cultura de parcerias

As colaborações vieram para ficar. Há, sublinha o WGSN,  poucas dúvidas de que o streetwear vai continuar a ser um dos principais impulsionadores da moda masculina, tendo contribuído para um crescimento de 5% do mercado de luxo mundial em 2017, de acordo com a Bain & Co. Grande parte do cruzamento de influências entre a rua e a passerelle tem sido alimentado por colaborações, que passaram de uma tendência para uma estratégia central de negócio.

Moncler

Juntamente com o modelo de entrega, as parcerias continuam a ser uma benesse para muitas marcas, acelerando a evolução de produto, a procura do consumidor e dando narrativas para se manifestar nos meios de comunicação digitais.

«Tendo em conta um consumidor cada vez mais educado e sofisticado, um ADN de produto autêntico é fundamental, por isso as colaborações devem fazer parte da estratégia a longo prazo para criar uma extensão significativa da marca, ao mesmo tempo que desafia o status quo e estimula a inovação de produto», aponta o gabinete de tendências.

A marca de outdoor de luxo Moncler atribuiu parte substancial do seu crescimento de 27% no primeiro semestre de 2018 ao seu novo conceito Genius – completamente baseado em colaborações. «Quero que os mundos da música e da moda fiquem mais próximos. A música e a moda costumavam estar mais intimamente ligadas, mas agora sinto que isso acontece menos. Esta coleção remete para isso», afirmou Hiroshi Fujiwara sobre a sua colaboração com a Moncler.

Undercover x Stanley Kubrick

Mas as colaborações têm também a ver com cultura e comunidade. As marcas tornaram-se nas novas bandas, com uma audiência que está a manifestar as suas preferências nas mangas das camisolas. Os lançamentos de edições limitadas de merchandising têxtil substituem atualmente a arte das capas dos discos e os posters nas paredes dos quartos das gerações anteriores e tornaram-se significativos da identidade subcultural, como as imagens de Stanley Kubrick na Undercover  ou a utilização do arquivo de Warhol por Raf Simons. Virgil Abloh anunciou recentemente que a sua próxima coleção para a Louis Vuitton será inspirada em Michael Jackson.

Pensar digital

À medida que as esferas do digital e do analógico continuam a convergir e os consumidores passam mais tempo (e gastam mais dinheiro) online, as estratégias digitais estão a ir além da logística da otimização do website e do marketing e a focar-se no desenvolvimento do design e do próprio produto.

Os showrooms digitais estão a ganhar popularidade nas últimas estações, estando a ser lançados por alguns players mundiais como a Tommy Hilfiger, a Hugo Boss e a Adidas, à medida que as peças de vestuário virtuais oferecem ganhos de eficiência e de custos, graças a amostras de coleção reduzidas, assim como uma menor pegada ambiental.

A The Fabricant oferece diversos serviços, desde o scan corporal e fitting virtual a catálogos completamente virtuais e vídeos realistas, abrindo caminho para uma abordagem de prototipagem rápida para o futuro do design de moda, como já é feito no design industrial e no automóvel.

Carlings

A retalhista escandinava Carlings levou esta ideia mais longe ao eliminar completamente o vestuário físico na sua coleção cápsula Neo-Ex. O consumidor compra uma peça de vestuário virtual na sua loja, envia a sua selfie favorita e o “alfaiate digital” da marca ajusta as peças à imagem, gerando uma fotografia que pode ser colocada nas redes sociais, sem qualquer malefício para o ambiente.

Robbie Barrat

Os jogos online também estão a aumentar em popularidade, com jogos como o Fortnite a ultrapassarem os 200 milhões de utilizadores registados, por isso é fácil ver o potencial para colaborações comerciais. A Bathing Ape anunciou recentemente uma parceria com a PUBG, a principal concorrente do Fortnite, e tornou-se a primeira marca de moda a vender produto num género de jogos viciantes que são gratuitos mas que cobram para mudar o aspeto do avatar usado.

Nos limites externos do design digital está a inteligência artificial, que recentemente fez incursões no mercado de arte com a primeira pintura gerada por inteligência artificial a ser vendida em leilão pela Christie’s por 435 mil dólares. Por detrás da arte do coletivo Obvious, sediado em Paris, está o algoritmo de Robbie Barrat, um prodígio de 19 anos de Stanford, que tem também uma predileção pela Balenciaga e foi notícia por treinar uma rede neural para “desenhar” os novos looks da Balenciaga com base em imagens sazonais. Os resultados são, de alguma forma, crus, com poucos detalhes, mas deixam espaço para a imaginação de qualquer designer que queira abraçar esta aleatoriedade como inspiração.

O fim de mais

A continuada atenção dada à sustentabilidade e o crescente interesse por parte dos governos, como uma recente iniciativa no parlamento inglês para analisar a indústria de fast fashion, estão a manter o tema nas notícias e na mente dos consumidores, pelo que a pressão para que marcas e retalhistas atuem está a aumentar.

«O tamanho da tarefa, contudo, em combinação com o medo de serem acusados pelos consumidores de “greenwashing”, pode fazer com que muitos hesitem em dar o primeiro passo. A complexidade da questão, no entanto, também revela oportunidades, já que diferentes pontos de partida vão permitir abordagens criativas diferentes. O desafio é optar por uma e persistir», destaca o WGSN.

Soulland

A marca dinamarquesa Soulland recentemente partilhou as dificuldades encontradas em criar a sua coleção cápsula sustentável, Logic, e a perceção de que cada esforço conta. «Mudar a forma como produzimos não vai fazer a diferença em termos gerais, mas há uma hipótese de inspirarmos as pessoas a pensarem de forma diferente». Segundo o diretor criativo da marca, Silas Adler, «em determinado ponto percebemos que se não falarmos sobre isso, não estamos a empurrar as barreiras de como as pessoas pensam sobre o vestuário».

Numa altura em que o apelo do vestuário pode durar apenas um post do Instagram antes de ser trocado no Grailed ou devolvido à loja, a marca de denim sem género Ullac está a mudar a narrativa. Para quem usar qualquer uma das suas peças de vestuário 300 vezes, com provas através de posts nas redes sociais, a empresa troca a peça por uma nova.

Samuel Ross colocou as suas crenças na coleção cápsula Nike x A-C-W, eliminando o revestimento UV nas sapatilhas para introduzir um processo de envelhecimento intencional. «Devíamos estar também interessados no ciclo de vida dos nossos produtos – abrir discussões sobre sustentabilidade – não tem a ver com comprar e trocar o produto, é viver com ele», considera.

Trocar em vez de comprar

Com a revolução do vestuário masculino sob a batuta do streetwear, a ascensão rápida do mercado em segunda-mão tornou-se ao mesmo tempo um indicador e um impulsionador de mudanças drásticas nas atitudes e comportamentos dos consumidores e na noção de guarda-roupa dos homens.

A troca de peças de vestuário está a aumentar, impulsionada por um fluxo incessante de produtos “obrigatórios”, as exigências dos feeds das redes sociais e a vida urbana, que estão a colocar pressão no espaço do armário dos consumidores mais jovens.

Stadium Goods

Sites à consignação como o Grailed, o StockX, a Stadium Goods e a TheRealReal tornaram-se players sérios na expansão do mercado online de luxo que, segundo a Bain & Co, deverá aumentar dos atuais 30 mil milhões de dólares para 103 mil milhões de dólares em 2025. A recente aquisição da Stadium Goods pela Farfetch, avaliada em 250 milhões de dólares, prova o potencial destes mercados – não apenas em si próprios, mas como portais de acesso às comunidades de consumidores de streetwear.afound

O interesse renovado em produtos em segunda-mão é uma oportunidade para retalhistas com lojas físicas fazerem parte deste ciclo. Em Estocolmo, um novo conceito de loja da H&M, a Afound, vende produtos a preços mais baixos das próprias marcas do grupo, assim como outras fora do grupo. A Filippa K tem uma loja em segunda-mão com as roupas da sua marca, também em Estocolmo, e incentiva os consumidores a reciclarem as suas roupas em troca de um desconto de 15%.

A emergência de plataformas de aluguer de vestuário de senhora, como a Rent the Runway nos EUA e a Y Closet na China, está a levantar questões mais profundas sobre o fim da propriedade. Mas embora as proclamações de que as mudanças possam ser comparáveis às experienciadas pela indústria da música ou do cinema sejam prematuras, a crescente importância da revenda e do vestuário em segunda-mão já representa um estado reduzido de propriedade – e enquadra-se num cenário mais vasto de um modelo de moda mais sustentável e circular.

Afound

De acordo com o WGSN, isto aponta «para uma visão mais considerada da moda, em que a qualidade e a desejabilidade tornam os produtos menos dispensáveis e aumentam a sua esperança de vida como parte de uma economia circular mais sustentável». Esta ideia irá, segundo o gabinete de tendências, ser impulsionada por um forte sentimento do consumidor, mas precisa de ser alimentada pelas marcas e retalhistas que abracem estes conceitos.

Prontos para o futuro

Ao mesmo tempo que as temperaturas sazonais variam de forma pouco previsível, baralhando o planeamento do retalho e prejudicando as vendas de vestuário de exterior de inverno, por exemplo, uma aposta forte na utilidade urbana está a expandir as fronteiras do outdoor e dos materiais de elevada tecnologia, criando peças para futuro investimento com estatuto de luxo.

A Cold Wall x Nike

A cultura de colaboração em combinação com a ascensão do streetwear catapultou marcas perfecionistas de elevada tecnologia como a Acronym, a 1017 ALYX 9SM e a A-Cold-Wall para o reconhecimento mundial e estatuto de culto, especialmente porque dão uma alternativa vanguardista à obsessão pelo retro da moda.

A peça central de vestuário da coleção cápsula A-C-W x Nike de Samuel Ross é uma parka reconfigurável com painéis, feita numa poliamida experimental que muda à medida que é usada. «Até o material ser aquecido e tocar o corpo, é incrivelmente duro, mas com a utilização suaviza e ganha vida», explica Ross.

Uma série de recentes colaborações com a Nasa está a aumentar o interesse em temas de ficção científica que estão alicerçados tanto no passado como no futuro, desde a Vans, a Monkeytime e a Anicorn até à Heron Preston e a Ikea.

Para o desfile pre-fall da Dior Men de 2019 em Tóquio, Kim Jones misturou a linguagem visual do futurismo japonês com a longa tradição da Dior de alfaiataria e alta-costura, tendo contado com Matthew Williams, da ALYX, para desenhar os cintos e fivelas dos acessórios.

O mercado de moda de homem tem uma audiência cativa para temas de vestuário de trabalho e militar e para alguns, gastar dinheiro em vestuário de exterior técnico – como em automóveis – tem tanto a ver com tecnologia como com valor prático.

Neste contexto, refere o WGSN, «ideias futuristas de guarda-roupas modulares, com sistemas em camadas de artigos técnicos que funcionam em qualquer condição meteorológica, tornam-se uma proposta menos distante e uma que se tornará cada vez mais importante para além do domínio do activewear».

Dior