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Impacto ambiental de peso

O grupo Kering adotou uma abordagem inovadora que lhe permitirá compreender e alterar a pegada ambiental da sua atividade, através da fixação de um valor monetário do impacto acumulado nas suas operações e cadeia global de aprovisionamento.

O primeiro relatório de Ganhos e Perdas Ambientais (EP&L na sigla inglesa) recentemente publicado pelo grupo de artigos de luxo Kering, cujo portefólio de marcas inclui Gucci, Saint Larent e Stella McCartney, revela que 93% do impacto ambiental da empresa decorre da sua cadeia de aprovisionamento.

Desse valor, mais de metade do impacto está associado à produção de matérias-primas e 26% é proveniente do seu processamento, enquanto o fabrico e montagem do produto respondem por 17% do total. Porém, apenas 7% do impacto ambiental resultante da atividade do grupo está associado às suas operações, incluindo retalho.

O valor monetário do impacto ambiental da cadeia de aprovisionamento do grupo Kering em 2013 foi de 773 milhões de euros.

Os impactos ambientais são medidos através das emissões de gases de efeito de estufa (GEE), consumo de água, poluição da água e do ar, produção de resíduos e utilização do solo. Assim como os seus fornecedores, desde as matérias-primas até à fabricação, a empresa avaliou simultaneamente o impacto das suas operações de retalho, de escritório e de transporte próprias.

O grupo de artigos de luxo, que gerou vendas de 10 mil milhões de euros em 2014 e marca presença em 120 países, está agora a utilizar a avaliação EP&L de forma a obter uma compreensão mais profunda das suas atividades e a melhorar o processo de tomada de decisões, não só quando se trata de reduzir o seu impacto desde o momento do design, mas também respondendo a drivers da cadeia de fornecimento, como flutuações na qualidade da matéria-prima e sua disponibilidade.

Por exemplo, 93% do total do impacto do couro resulta do uso do solo e emissões de GEE associadas à atividade da pecuária. Em resposta, o grupo Kering procura reduzir o impacto deste segmento através do recurso a couro proveniente de animais destinados a consumo humano e apoio de práticas de pastoreio mais sustentáveis. A empresa, que possui quatro fábricas de curtumes, também desenvolveu métodos de processamento isentos de metais e crómio, reduzindo o consumo de água e de energia em cerca de 30% e 20%, respetivamente.

De igual modo, a produção de algodão representa mais de 95% do total do impacto decorrente do tratamento de fibras vegetais, devido ao elevado consumo de água e às emissões de gases de efeito estufa associados a este processo. A utilização de algodão orgânico representa uma redução de 80% do impacto do processo associado à sua produção e tratamento.

Com base nesta informação, o grupo Kering optou por integrar uma quantidade superior de algodão orgânico nas suas marcas de luxo. Simultaneamente, em parceria com as organizações Textile Exchange, Fundação C&A e outras empresas, o grupo tem colaborado no lançamento do Organic Cotton Accelerator, uma entidade que promove a produção e o uso de algodão orgânico.

No que diz respeito à produção de fibras sintéticas, a maioria dos impactos provêm do processamento. A análise EP&L demonstra que os fios de poliéster reciclados têm um impacto de 0,17 cêntimos por quilograma em comparação com o valor de 1,40 euros por quilograma de poliéster convencional – uma redução de 89% (excluindo os impactos da fiação, tecelagem e tinturaria que são semelhantes para ambos).

Nos processos de fabricação, montagem e processamento, o maior impacto ocorre na fiação, tecelagem e tingimento, em parte devido ao volume de têxteis utilizados nos produtos do grupo Kering, mas também porque estes processos requerem um uso intensivo de energia e água, conduzindo à emissão de gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos.

De forma a potenciar o impacto positivo desta iniciativa, o grupo procura envolver os seus fornecedores, apelando à conscientização sobre as questões da sustentabilidade. A Puma, que integra o portefólio de marcas do grupo, organizou sessões de mesa-redonda com cerca de 290 fornecedores diretos e indiretos na Turquia, Índia, Indonésia, Vietname, Camboja, China, Argentina e Bangladesh.

Tendo em vista a melhoria da eficiência dos seus fornecedores têxteis, o grupo expandiu o programa “Clean by Design” do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC na sigla inglesa) às cadeias de aprovisionamento do luxo em Itália, focando-se na poupança de água, energia, combustível e eletricidade.

O relatório EP&L é o primeiro alguma vez produzido pelo grupo Kering como um todo, porém este coordenou um projeto piloto com a marca Puma em 2011. Inicialmente, o seu âmbito limitou-se a uma análise por nível da cadeia de abastecimento e os respetivos impactos ambientais.

A metodologia EP&L foi aperfeiçoada em cooperação com a firma PwC nos últimos quatro anos, através de um processo constituído por sete etapas que envolvem a identificação de processos e marcas essenciais, mapeamento das suas cadeias de aprovisionamento, recolha de dados sobre os principais impactos, monetização dos impactos ambientais e consequente tomada de decisões e ações.

A empresa mostra-se disponível para partilhar a sua metodologia como forma de apoiar os empresas na compreensão do seu impacto sobre o «capital natural», apoiando simultaneamente o Natural Capital Protocol, uma iniciativa intersectorial da indústria que está a desenvolver orientações para as empresas sobre contabilidade ambiental, com publicação prevista para 2016.

«O grupo Kering está a partilhar o EP&L uma vez que a transparência e a colaboração são necessárias à propagação das soluções, que ajudarão a resolver problemas de escala, como o esgotamento do capital natural», afirmou François-Henri Pinault, presidente e CEO do grupo. «Estou convencido de que um EP&L e uma representação mais ampla do capital natural corporativo são essenciais para permitir que as empresas reconheçam o verdadeiro custo de fazer negócios sobre a natureza. [Esta metodologia] destaca onde ocorrem impactos ambientais e também oportunidades de negócio, para, em seguida, permitir a tomada de decisões estratégicas informadas, que irão apoiar um negócio mais resiliente em face dos desafios ambientais atuais e futuros resultantes das alterações climáticas».

Apresentando os resultados do grupo Kering num contexto mais vasto, a PwC estima que se o grupo optasse por seguir um modelo de negócio tradicional e adotasse uma cadeia de aprovisionamento convencional, o seu EP&L teria sido de 1,1 mil milhões de euros – ou 40% superior. Em resultado da estratégia adotada, os seus impactos ambientais são 45% inferiores à média global com base no volume de negócios comparativo.