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Impermeável de bioplástico absorve carbono

Da reciclagem à inovação, a indústria já encontrou várias soluções que previnem ou minimizam o impacto ambiental resultante da produção e do consumo de têxteis e vestuário. O casaco impermeável de Charlotte McCurdy vai mais além, revertendo o ciclo da poluição através da absorção das emissões de carbono.

O problema do plástico já é um assunto bem conhecido por todos os sectores de atividade, entre empresas e consumidores, e a indústria da moda é um dos agentes que contribuiu para o seu agravamento. Segundo a Fast Company, vários especialistas estimam que 60% de todos os têxteis usados no vestuário são derivados de plástico, o que equivale a quase 3 biliões de garrafas de plástico por ano.

Charlotte McCurdy, designer e investigadora durante a sua formação na Escola de Design de Rhode Island, parece ter encontrado uma solução mais radical que ultrapassa os limites da reciclagem e da reutilização, desenvolvendo um material produzido a partir de algas que esteticamente se assemelha ao plástico. A grande surpresa desta inovação prende-se com a sua capacidade de absorção de dióxido de carbono, combatendo ativamente as alterações climáticas.

As algas absorvem naturalmente o dióxido de carbono presente na atmosfera e são posteriormente unidas através da aplicação de calor e derramadas em moldes à medida. Uma vez solidificado, o plástico das algas é coberto com uma fina camada de cera para melhorar a sua resistência à água. «Desenvolvi uma cera impermeabilizante totalmente à base de plantas porque tudo aquilo que está disponível no mercado ou as fórmulas publicadas recorrem a petróleo, dependendo de parafina, ou não são veganas e provêm de cera de abelha», explica a estudante à revista de arquitetura e design Dezeen.

Denominando o projeto por “Depois da Luz Solar Antiga”, a designer descreve o material como «luz solar do presente», na medida em que o petróleo usado para produzir plástico convencional é «luz solar antiga» ou carbono produzido através da fotossíntese processada há milhões de anos. Para a sua tese de pós-graduação, a designer criou um casaco impermeável translúcido com este material que resiste eficientemente às tempestades.

«Todas as linhas e fechos que unem os diversos elementos do casaco são também livres de carbono fóssil», reforça a designer, acrescentando que o «processo é totalmente elétrico e o próprio estúdio [onde projeta, costura e monta o casaco] funciona a energia renovável».  Além disso, McCurdy salienta que as algas que estão na base do projeto não são alimentadas com milho ou açúcar para acelerar o seu crescimento – em vez disso, seleciona algas que existem em abundância. «Três quartos da superfície da terra são oceano», esclarece. «Se queremos quebrar a nossa dependência por combustíveis fósseis, a absorção de carbono pelas algas e a sua transformação em materiais duradouros representa uma oportunidade que não podemos ignorar», acrescenta.

Sem fins lucrativos

Apesar da solução revolucionária que representa esta inovação, Charlotte McCurdy não planeia comercializar o seu design, nem fazer parcerias com marcas para o desenvolvimento de materiais que absorvem o carbono. A ideia é expandir as noções que estão na base do projeto, incentivar a discussão aberta e despertar um comportamento ativo por parte de empresas e consumidores, no sentido da sustentabilidade. «É criar um espaço onde possamos continuar a lutar e negociar, num fórum mais público, com o tipo de resultados e impactos que queremos provocar com os nossos comportamentos coletivos nas alterações climáticas», regista a estudante.

Segundo a designer, o casaco impermeável funciona apenas como um símbolo de que as ferramentas e tecnologias de que necessitamos para combater a crise climática já estão disponíveis. «O casaco permite vestir um futuro onde não há dependência de combustíveis fósseis», sublinha. «Precisamos de visões de futuros desejáveis em direção aos quais trabalhar, para catalisar a ação, e não de histórias apocalípticas sobre a forma como estamos condenados a falhar. Eu acredito que esta perceção é um dos papéis que o design tem de desempenhar nos desafios que enfrentamos enquanto sociedade», evidencia.

Antes da sua pós-graduação em design industrial na Escola de Design de Rhode Island, McCurdy estudou desenvolvimento internacional e economia na Universidade de Yale e trabalhou como consultora de sustentabilidade no mundo empresarial. «Pude assistir à motivação das empresas, mas fiquei muito frustrada por sentir que as estava a ajudar a codificar definições de sustentabilidade que já estavam desatualizadas», relembra. Deste modo, «o design tornou-se o conjunto de ferramentas de que precisava para continuar esta missão», confirma a designer.

«Ao apresentar-me e falar sobre a luz solar antiga, ou então sobre materiais em vez de energia, talvez haja pessoas que escutem um pouco mais e que não se oponham politicamente a fazer progressos relativamente às alterações climáticas», argumenta a estudante. Recentemente, Charlotte McCurdy tornou-se a quarta vencedora do prémio Linda Tischler Memorial da Fast Company, que homenageia um designer emergente todos os anos, desde 2016.

O casaco impermeável está atualmente em exposição no museu Cooper Hewitt Smithsonian Design e já venceu o prémio de 2019 na categoria Experimental, da Innovation by Design da Fast Company.