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Incontinência com os dias contados

Para substituir os produtos habituais usados na incontinência, vocacionados para recolher e conter a urina, uma equipa de investigadores e designers está a desenvolver um dispositivo wearable que avisa a pessoa de que precisa de ir à casa de banho.

Esta solução foi apresentada por Gözde Berk, professora assistente da universidade americana UCDavis, na iTechStyle Summit e consiste num têxtil eletrónico, em forma de cinto, que funciona como um monitor que avisa a pessoa sobre a altura de ir à casa de banho.

«Não posso falar muito da tecnologia porque estamos num processo de proteção da propriedade intelectual, mas o conceito é um dispositivo na região da bexiga, não invasivo, que monitoriza o volume da bexiga e que comunica com uma pulseira que avisa o utilizador, através de vibração, sobre a altura de ir à casa de banho», explicou Gözde Berk.

De acordo com a investigadora, as estatísticas da National Associaton for Incontinence mostram que, em todo o mundo, há 200 milhões de pessoas que sofrem de incontinência, prevendo-se que o valor do mercado de produtos vocacionados para solucionar os efeitos desta condição atinja os 24,5 mil milhões de dólares em 2022. «Atualmente há dois grandes grupos de dispositivos para a incontinência: uns para recolher e conter urina, como fraldas ou pensos higiénicos, e outros para evitar a incontinência, como algálias», apontou.

Andrea Zille, Anabela Carvalho, Sandra Ventura, Gozde Berk e Carla Silva

A utilização de fraldas acarreta alguns problemas, nomeadamente a irritabilidade da pele pelo contacto frequente com as mesmas, mas também dificuldades em deitá-las ao lixo em casas de banho públicas. Há ainda uma questão ambiental e de sustentabilidade, uma vez que são descartáveis e não recicláveis, acabando em aterros. Já as algálias «exigem a intervenção de profissionais de saúde», indicou Gözde Berk.

Desafios a ultrapassar

Antes de avançar para o desenvolvimento do dispositivo wearable, a equipa responsável – o projeto resulta de um trabalho colaborativo – realizou um estudo junto de pessoas dependentes de fraldas e outros produtos absorventes e concluiu que as mesmas tinham problemas de autoestima, evitavam algumas atividades e procuravam limitar o tempo que passavam no exterior com receio de fugas.

O novo dispositivo, que foi testado em animais antes da realização dos testes com humanos, teve em conta tudo isso e no design observou um conjunto de critérios, nomeadamente «físicos, cognitivos, emocionais, sociais e tecnológicos», enumerou a professora assistente da UCDavis.

Em termos físicos, foram tidos em conta a usabilidade, o conforto e o ajuste. «O wearable tem sido um desafio para este projeto», confessou Gözde Berk. «Percebemos que tínhamos de nos afastar de uma abordagem tradicional porque o contacto constante dos elétrodos com a pele era um problema e começamos a testar abordagens diferentes», revelou. Já em termos cognitivos era importante que o dispositivo fosse acessível, intuitivo e fácil de usar, enquanto em termos emocionais foi sobretudo trabalhada a estética, em termos sociais a privacidade e, ao nível tecnológico, a fiabilidade, «para evitar idas desnecessárias à casa de banho ou leituras pouco precisas do volume da bexiga antes de haver uma fuga, devido a diferentes formas humanas».

Para Gözde Berk, «compreender o utilizador e desenhar o produto a ser usado num longo prazo é o grande desafio».