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Incubadora digital

A comemorar o 30º aniversário, o evento tecnológico SXSW Interactive esteve, este ano, mais focado em grandes questões, como a política, privacidade e bem social, enquanto a realidade virtual triunfou como o novo mainstream.

O SXSW Interactive sempre teve uma quota de participantes que acredita que a tecnologia é capaz de melhorar a vida das pessoas. E, na sua mais recente edição, este elemento coincidiu com uma conversa cultural mais vasta, que transformou o certame que congrega tecnologia de ponta e criatividade digital numa plataforma global para os líderes mundiais entregarem esta mensagem às comunidades tecnológicas e empresariais.

A conferência subordinada à tecnologia abriu com Casey Gerald, fundadora da MBAs Across America, a pedir mais preocupação com o bem social dentro da comunidade interativa. O presidente Obama fez um discurso histórico no qual desafiou os revolucionários tecnológicos a trabalharem com o governo, e não contra ele, deixando claro que cada cidadão tem um papel a desempenhar para tornar a América (e o mundo) melhor.

Os líderes do retalho, moda e lifestyle reforçaram a mensagem do bem social, apresentando a sua crença no consumo consciente. Kendra Scott, por exemplo, explicou por que motivo a filantropia é um dos pilares do seu modelo de negócios, apontando iniciativas da empresa de joalharia, como envolver os pacientes com cancro no processo de design para a Color Bar, bem como a sua paixão para incentivar o empreendedorismo feminino (outro tema forte que transitou da conferência do ano passado).

Marketing em tempo real

À medida que a Internet continua a infiltrar-se numa gama variada de indústrias, o foco da SXSW foi sobre como os retalhistas poderão fazer uso dos dados nos serviços prestados. A VP de marketing móvel da Samsung, Alanna Cotton, destacou três áreas-chave: segmentação mais inteligente do consumidor, envolvimento a nível da surpresa e satisfação e utilidade em tempo real.

Com as marcas a começarem a aproveitar estes dados em tempo real, a oportunidade para personalização aumenta. «Quando temos dados que estão a alimentar experiências, podemos torná-los personalizados», afirmou Thom Gruhler, CVP de aplicações e serviços da Microsoft.

O “Moment Marketing” desempenha um grande papel nisto, como explicou a responsável de conteúdo e ativação do Facebook, Ann Mack. «As pessoas estão a consumir os próprios momentos e os dos outros em massa, a cada momento, a cada dia. Se entendermos a magnitude, motivação e sentido desses momentos podemos estar à altura», sustentou. Mack trouxe o exemplo do telefone perdido, observando os 51,2 milhões de interações nos EUA a cada mês em torno de telemóveis perdidos e colocando a pergunta «como se pode transformar um momento de transtorno e frustração num de surpresa e alegria?».

IA: Ameaça ou oportunidade?

Ainda que algumas estatísticas soem alarmantes – 47% dos empregos nos EUA são considerados vulneráveis ​​a substituição por robots –, os especialistas acreditam que a Inteligência Artificial vai ser implementada para ajudar os seres humanos e não para os atrapalhar.

As máquinas deverão assumir postos de trabalho essenciais – em fábricas e nos serviços, bem como em cuidados a idosos –, mas o impacto mais imediato da IA na maioria dos cidadãos será ao nível da conveniência personalizada. Dag Kittlass, cofundador do Siri, da Apple, desenvolveu a Viv, uma IA descrita como um “cérebro global”.

Kittlass explicou que a inteligência artificial significa que cada objeto ou serviço com o qual a pessoa interage saberá o que ela procura. «A IA estará na nuvem, como uma utilidade. Não há limite teórico para o número de coisas que o utilizador pode ensinar-lhe», acrescentou Doug Lenat da Cycorp, descrevendo o potencial da colaboração humana com a IA.

Vídeo: O streaming é o novo scrolling

«Se uma imagem vale mais do que mil palavras, um vídeo provavelmente vale um milhão», afirmou Jim Underwood, presidente global de estratégia de entretenimento no Facebook. Underwood observou que mais de 100 milhões de horas de vídeo são vistas na plataforma todos os dias. O seu sentimento foi partilhado por várias empresas na SXSW, uma vez que o consumo e criação de conteúdo de vídeo se tornou um assunto da conferência. Em relação ao móvel, o vídeo é um jogo completamente diferente «a maioria do tempo gasto em dispositivos é nos feeds. Há algo chamado de “teste dos três segundos”; dentro dos primeiros segundos queremos que alguém saiba por que motivo aquilo é pessoalmente relevante».

Doug Neil, EVP de marketing digital da Universal Pictures, falou do desafio de, para esse período, se produzirem impactantes (e concisos) trailers de filmes – especialmente porque as redes sociais retiram intencionalmente o áudio ao conteúdo de vídeo nos feeds. «O som vende um filme e nós queremos que seja uma parte dele. O Facebook não vai fazer isso porque muitas pessoas consultam os seus telemóveis em reuniões e o som iria perturbá-las», advogou Neil.

Isto representa uma oportunidade para as marcas para criarem vídeos atraentes com sobreposições informativas e legendagem, que visem capturar o espectador com estimulação visual, se o áudio estiver desativado.

O buzz habitual em torno dos wearables foi praticamente inexistente na SXSW deste ano, sinalizando que a tecnologia está em transição da novidade das aplicações para o desenvolvimento mais robusto do produto.

Realidade virtual: o próximo passo da moda

Dando continuidade a um dos principais temas do ano passado, a realidade virtual (RV) deixou a sua marca como assunto com mais tópicos na SXSW. A empresa de social media analytics Sysomos relatou que a RV foi o termo com mais buzz no Twitter, agregando mais de 102,4 milhões de interações.

A intersecção da moda e da realidade virtual é um novo desafio para marcas e retalhistas, com a diretora criativa da One Third Blue, Angela Haddad, a assumir-se pioneira na produção imersiva a 360 ​​graus. «A moda tem sido bastante lenta a abraçar tecnologias emergentes; nós estamos a ver que, com a RV é um pouco diferente – há muito potencial em incluir os seguidores em experiências que podem ser memoráveis», destacou Haddad. Anarghya Vardhana da Maveron acrescentou que «não adotar a realidade virtual hoje seria como não ter adotado o móvel há uns anos».

Propriedades calmantes

Não obstante, no meio de tanta informação, na SXSW houve tempo para ouvir vozes que propunham a ligação da tecnologia a experiências calmantes. Andy Puddicombe, fundador da app de meditação “Headspace” – 3 milhões de utilizadores regulares em mais de 150 países – levou centenas a participarem de uma sessão de meditação de 10 minutos.

O designer Tom Metcalfe falou sobre projetos de tecnologia tranquilizantes como a Rain Cloud, um medidor de tempo que não exige nada do utilizador. «Não grita por atenção, o utilizador vê-a quando precisa», enquanto os visitantes da instalação do designer holandês Simon Heijdens, “The Silent Room”, puderam mergulhar no completo vazio auditivo durante 60 segundos de cada vez.