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Inditex acelera rumo ao futuro

A pioneira da fast fashion quer tornar-se ainda mais rápida e, para isso, está a apostar em tecnologia. Além de parcerias criadas com especialistas como a Intel e Fetch Robotics, a Inditex tem uma unidade de inovação que está a trabalhar em inteligência de localização com o objetivo de integrar completamente os stocks físicos e online.

A Inditex, a maior retalhista do mundo de vestuário e detentora da cadeia de lojas Zara, enfrenta a crescente concorrência de players online como a Boohoo.com e a Missguided. Os seus rivais estão a fazer chegar a roupa mais rapidamente – por vezes em apenas uma semana desde o design ao ponto de venda –, atualizando diariamente os seus sites com centenas de novos artigos.

Numa tentativa de se manter na vanguarda, a empresa espanhola está a desenvolver novas tecnologias, estabelendo parcerias com empresas de tecnologia e contratando talentos recrutados em start-ups, noticia a agência Reuters.

O sucesso ou fracasso destes esforços pode ajudar a determinar se a Inditex se pode adaptar ao ambiente em mudança no retalho de vestuário, onde a Amazon deverá ultrapassar a Macy’s como principal retalhista de moda nos EUA.

Em termos mais abrangentes, poderá, em último caso, determinar se o modelo de combinar as vendas online com uma grande rede de lojas físicas tem capacidade para, efetivamente, prevalecer no mercado massificado de moda, onde umas calças clássicas estão à venda por cerca de 30 euros e os vestidos de lantejoulas custam menos de 50 euros.

A Inditex tem uma unidade de inovação, liderada pelo ex-engenheiro de telecomunicações Alejandro Ferrer e por David Alayon, fundador de uma start-up, mas até agora pouco se sabia sobre o seu trabalho.

À Reuters, a retalhista espanhola explicou que unidade está a testar formas de melhorar a gestão de stocks, tendo feito uma parceria com a americana Fetch Robotics para testar robôs para trabalhar no inventário de stock. Formou também uma parceria com a produtora de chips Intel para criar dispositivos que possam rapidamente medir o volume de vestuário em caixas.

A unidade testa tecnologias que fazem o máximo com um ativo que os novos rivais não têm: lojas físicas. A Inditex afirma que está a centrar-se em áreas como “inteligência de localização”, tecnologia de ultrassons usada para seguir o tráfego em lojas, assim como assistentes virtuais para ajudar os consumidores.

A inteligência de localização permite às apps mudarem para o modo “em loja” quando um consumidor entra numa loja, para que o consumidor possa localizar produtos e receber ofertas.

Uma fonte conhecedora do assunto revelou que a Inditex tem também desenvolvido parcerias com empresas de tecnologia como a Jetlore, que usa inteligência artificial para prever o comportamento do consumidor, e com a start-up espanhola de “big data” El Arte de Medir.

Executivos da Inditex, que são conhecidos por falarem pouco e raramente concederem entrevistas, confirmaram as ligações com essas empresas mas indicaram que os projetos estão ainda em fase de testes. A gigante espanhola não dá mais detalhes, justificando que é informação comercialmente sensível.

Não há segredos

A Inditex foi pioneira no conceito de fast fashion nos anos 80. Foi a primeira a desenvolver um método para rapidamente responder às mudanças de tendências, usando cadeias de aprovisionamento ágeis com base no aprovisionamento de proximidade à sede – onde Portugal, e as empresas portuguesas, foram instrumentais – para acelerar o tempo de chegada ao mercado, do design às lojas, em cerca de três semanas.

Hoje, o modelo da Inditex continua a basear-se no aprovisionamento próximo da sua sede na Galiza, para que as encomendas possam ser rapidamente enviadas para a sua rede de mais de 7.000 lojas em todo o mundo. Os seus fornecedores estão sobretudo em Espanha, Portugal, Turquia e Marrocos, em vez dos tradicionais centros de produção asiáticos.

Mas a entrada de cada vez mais players online no mercado, sem a sobrecarga das lojas físicas, está a trazer a produção para mais perto da distribuição e a permitir uma renovação constante dos produtos (ver Inditex teoriza sobre retalho).

A Boohoo.com, fundada em Manchester em 2006, opera num modelo de “teste e repetições”, onde produz pequenas séries e aumenta a produção das peças que vendem melhor. Mais de metade dos seus produtos é feita no Reino Unido.

A retalhista online, cujas vendas duplicaram no ano passado, garante conseguir prazos curtos de até duas semanas. A Missguided, igualmente sediada em Manchester, revela que o tempo de chegada ao mercado pode mesmo ser de apenas uma semana.

Já a especialista em comércio eletrónico Asos, igualmente britânica, tem muitas fábricas na Europa continental, mas está a tentar aumentar a produção no Reino Unido para melhorar os tempos de entrega, que atualmente variam entre quatro e seis semanas.

«No que diz respeito ao vestuário, não há segredos», reconhece Felipe Caro, professor de gestão na UCLA Anderson School of Management que escreveu um estudo de caso sobre a Zara. «Para reduzir os prazos de entrega, não há outra forma que não a produção local», admite.

A Inditex está a tentar integrar as vendas online com a sua rede de lojas físicas, focando-se em lojas grandes e atrativas onde os consumidores podem experimentar as peças para as comprar depois nos seus computadores ou smartphones.

Em fevereiro, a empresa espanhola contratou Sergio Alvarez, cofundador da Carto, uma start-up focada na inteligência de localização, para trabalhar no negócio online.

A Inditex tem ainda trabalhado com a sua fornecedora de alarmes, a Tyco, para incorporar pequenos microchips em etiquetas de segurança com a indicação do modelo e tamanho da peça de vestuário, permitindo, dessa forma, que a empresa a localize em qualquer ponto da cadeia de aprovisionamento.

Quando a retalhista espanhola tornou públicos os resultados do primeiro trimestre (ver Euro não trava Inditex), o CEO da Inditex, Pablo Isla, disse aos analistas que o controlo rigoroso do stock através da etiquetagem significa que mais artigos de vestuário podem ser vendidos a preço inteiro, uma vez que os artigos em stock numa loja podem também ser vendidos online. «É a integração completa entre os stocks das lojas e online», sublinhou.