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Inditex paga salários a 100% em Espanha

A gigante espanhola de moda, que detém a cadeia de retalho Zara, vai pagar, aos cerca de 48 mil trabalhadores em Espanha, os salários completos até 15 de abril. A medida abrange, para já, os funcionários das unidades de produção próprias e os afetos às lojas.

«São a única empresa que não fez lay-off de trabalhadores», afirma Angeles Rodriguez, coordenadora para o retalho do sindicato Comisiones Obreras, que tem estado presente nas reuniões relacionadas com o novo coronavírus na Inditex. «Todos os outros, incluindo o El Corte Inglés, apresentaram ERTEs [Expediente de Regulación Temporal de Empleo]» ou lay-offs temporários em massa em Espanha.

Angeles Rodriguez, citada pelo just-style.com, revela que a Inditex vai pagar aos trabalhadores espanhóis 100% dos seus salários até 15 de abril, altura em que vai reavaliar a medida. «Compreendemos que eles vão também garantir os salários europeus até essa altura e provavelmente irão fazer o mesmo a nível mundial, porque quando eles fazem alguma coisa, fazem para todos [em todo o mundo]», assegura a responsável sindical.

No início de março, o grupo de retalho fundado por Amancio Ortega anunciou o encerramento temporário de 3.785 lojas em 39 países devido à pandemia de COVID-19, o que iria afetar em 287 milhões de euros o seu inventário.

Mais de uma dezena de fábricas

As mortes em Espanha provocadas pelo novo coronavírus subiram, esta manhã [1 de abril], para 8.464, estando infetadas 95.923 pessoas, segundo as estatísticas do Worldometer, tornando o país no terceiro mais afetado pelo novo coronavírus, a seguir aos EUA e a Itália, tendo já superado a China. O Governo espanhol, contudo, antecipa estar próximo do pico, antevendo-se um abrandamento da transmissão do COVID-19.

Amancio Ortega

A Inditex, que detém a Zara, a Pull & Bear e a Uterqüe, entre outras insígnias, opera 13 unidades produtivas de vestuário em Espanha, que empregam cerca de 23 mil pessoas. A GlobalData estima que 57% das fábricas da Inditex estejam localizadas próximas da sua sede, em Arteixo.

Todos estes trabalhadores vão receber algum pagamento mesmo depois de 15 de abril, três dias após a data para a qual, atualmente, está previsto o fim do confinamento no país, recentemente alargado até 12 de abril, segundo noticia o El Confidencial, acrescentando que os trabalhadores de retalho, que representam cerca de 25 mil pessoas, serão colocados em lay-off após essa data, com a empresa a comprometer-se a completar os restantes 30% do salário desses funcionários.

Resposta às necessidades

O fundador da Inditex, um dos homens mais ricos do mundo, também tem sido elogiado nas redes sociais e até pelos bombeiros na Galiza, que assinalaram com as sirenes das ambulâncias a doação de 800 mil máscaras cirúrgicas e 75 mil batas de proteção por parte de Amancio Ortega, que se juntou assim a outras ofertas, nomeadamente de multinacionais, que têm ajudado a responder a falta de equipamentos de proteção individual em Espanha.

Ao mesmo tempo, a Inditex reestruturou o seu centro produtivo em Arteixo para passar a produzir máscaras, batas e luvas. A necessidade é enorme, segundo Cristina Estevez, coordenadora para o retalho no sindicato UGT, que avança que cerca de 2 milhões de pessoas que trabalham na área da saúde precisam neste momento de vestuário de proteção.

«Estamos a trabalhar com o Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo para ver que empresas podem oferecer matérias-primas para fabricar vestuário e equipamentos [para a área da saúde]», admite Cristina Estevez. «Há uma enorme onda de solidariedade e até os trabalhadores que foram dispensados [em lay-off] estão a procurar formas de fazer máscaras ou criar grupos para fazer vestuário médico», reconhece.

Perspetivas negras

A coordenadora para o retalho no sindicato UGT adianta que o governo espanhol apresentou como medida a possibilidade de pagar até 70% dos salários dos trabalhadores em lay-off, com os patrões a oferecerem-se para contribuir com os restantes 30%. Os subsídios do Estado deverão manter-se durante seis meses, mas a maior parte dos retalhistas já indicou que não será capaz de cumprir com a sua parte depois do fim de março – duas semanas depois do Estado de Emergência ter sido declarado no país.

Cristina Estevez assevera que cerca de 230 mil trabalhadores podem ser deixados sem qualquer ajuda à medida que a economia espanhola entra em recessão provocada pelo impacto do novo coronavírus. «Há muitos comerciantes de pequena e média dimensão que não conseguem a contribuição de 30% e irão enfrentar grandes dificuldades», garante a sindicalista.

Apesar destas informações, não é ainda clara a posição da Inditex no que diz respeito aos trabalhadores das fábricas que a fornecem fora de Espanha.

Até ao momento, a H&M será o único grupo de retalho a já ter anunciado que irá pagar aos seus fornecedores pelas encomendas que cancelou, caso os produtos estejam em produção ou já tenham sido produzidos.

Há também cada vez mais pressão para que a indústria da moda repense a forma como faz negócio, numa altura em que os fornecedores, que geralmente produzem com margens muito pequenas e têm menos acesso a capital do que os seus clientes, a serem já muito afetadas.