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Indústria da UE assume postura defensiva

Uma recente conferência relacionada com o possível impacto do alargamento da União Europeia na indústria têxtil e de vestuário tornou-se, em vez disso, numa oportunidade para os delegados expressarem as suas preocupações acerca da falta de acesso aos promissores mercados do Terceiro Mundo, do irreprimível aumento das importações da China e das possíveis perdas de postos de trabalho depois de 2004. A 20 de Março de 2003 o Comissário Europeu para as empresas, Erkki Liikanen, organizou uma conferência sobre o possível impacto do alargamento da União Europeia (1 de Maio de 2004) e a abolição de quotas (1 de Janeiro de 2005) na indústria europeia do têxtil e do vestuário. A conferência foi presidida por Luís Filipe Girão, director da unidade têxtil na DG Empresas. Os organizadores tinham a esperança de que a conferência pudesse gerar ideias interessantes sobre a possível contribuição do sector no que diz respeito ao objectivo proposto no Conselho Europeu de Lisboa em 2000. Na altura, era suposto tornar a UE em 2010 na «mais competitiva e dinâmica economia do mundo, baseada no conhecimento». No entanto, a maioria dos 300 delegados preferiram falar sobre os seus receios. O Comissário Liikanen viu-se confrontado com uma série de queixas e observações sobre a falta de acesso aos promissores mercados do Terceiro Mundo, o irreprimível aumento das importações da China, e a potencial perda massiva de postos de trabalho após 2004. Liikanen anotou todos os problemas mencionados, assim como aqueles que deverão ser endereçados aos seus colegas, ao Comissário do Comércio Pascal Lamy e ao Comissário do Trabalho Michel Barnier. Em vez de repetir os usuais “slogans” tecnocráticos, Liikanen afirmou perceber as preocupações manifestadas, tendo referido inclusivé o caso de uma pequena cidade, Finish, onde o maior empregador era um produtor de vestuário de Inverno. A empresa teve de deslocalizar a sua produção para Portugal, deixando a sua própria cidade prejudicada. O alargamento da União Europeia não é, por si só, a maior preocupação dos produtores de têxteis e de vestuário da UE. Membro do Parlamento Europeu, Concepció Ferrer I Casals afirmou claramente que os produtores europeus estão bastante à frente dos desenvolvimentos políticos, no que diz respeito à exploração das várias sinergias com as suas contrapartidas nos países candidatos. Eles também progrediram para além dos processos externos da produção de vestuário. De acordo com o documento “Política Industrial no Alargamento da Europa” realizado pela DG Empresas, o alargamento em 2004 será a maior fonte de oportunidades para as indústrias nos novos estados membro, de forma semelhante. Mas será que vai mesmo? As expectativas para a indústria têxtil e de vestuário em vários países dos estados-membro parecem pouco animadoras. Elzbieta Sankowska , mencionou que o emprego no sector têxtil e de vestuário polaco caiu de 400 mil trabalhadores para 164 mil entre 1995 e 2001. Para já, a deslocalização das fábricas de produção de vestuário polacas para a Bielorússia, Ucrânica e até para a China continua. Alena Narovcova, a especialista em relações internacionais da união dos trabalhadores checos OS-TOK, espera que apesar da reestruturação massiva no passado, que reduziu o número de trabalhadores na indústria têxtil e de vestuário checa de 300 mil em 1990 para menos de 100 mil hoje em dia, as várias fraquezas na indústria checa vão inevitavelmente resultar em mais perdas de postos de trabalho após o acesso à União Europeia. De acordo com uma estatística levada a cabo pela Associação Europeia de Têxtil e Vestuário, a Euratex, o alargamento da União Europeia terá um efeito negativo no balanço do comércio global do sector. O déficit nas fibras vai crescer cerca de 600 milhões de euros e o excedente nos têxteis vai cair de mais de cinco mil milhões de euros para menos de dois mil milhões. O elevado déficit de vestuário da UE vai apenas diminuir ligeiramente. A competitividade internacional da indústria têxtil e de vestuário europeia é inegável. O sector tem um saldo de pagamentos excedente com todas as nações desenvolvidas em todo o mundo. E a sua reputação para a moda, inovação e criatividade são invejadas a nível mundial. A chamada iniciativa LEAPFROG (Leadership for European Apparel Production From Research along Original Guidelines) pretende transformar todo o sector têxtil e de vestuário numa indústria de alta-tecnologia flexível. Assim, a indústria europeia parece temer o ano 2005. Mas o que irá acontecer em 2005? Filiep Libeert, presidente da Euratex, afirmou que: «Seria disparatado prever quantos postos de trabalho se poderão perder na indústria. A nossa indústria está a fazer todos os esforços para manter tanta produção quanto possível, e manter os postos de trabalho na União Europeia». Ake Weyler, director da Associação Sueca de Importações Têxteis, pensa que a indústria têxtil e de vestuário europeia pode perder milhões de postos de trabalho em 2005. Isto comparado com os actuais 2.1 milhões. Ele argumenta que em vez da noção estática do emprego no sector, os interesses do consumidor deveriam centrar-se numa qualquer estratégia para o futuro. Weyler não tem dúvidas de que a posterior globalização da produção de vestuário, impulsionada pela rapidez e pelo preço, existe no interesse do consumidor, enquanto que qualquer forma de proteccionismo ou Eurocentrismo, não o é. Ele acredita que a globalização é também a forma dos retalhistas se desenvolverem. Empresas como a H&M (Suécia) e a Bestseller (Dinamarca) estão no bom caminho, prevê Weyler mas, a Zara (Espanha) terá de corrigir a sua estratégia de localização da produção. O orador mais aplaudido foi o industrial turco Bulent Baser, representante da ITKIB (Istanbul Textile and Clothing Exporters Association). Fez um forte ataque à estratégia de livre acesso no mercado unilateral da União Europeia, às leves declarações e regras alfandegárias de origem da UE, e às práticas chinesas injustas. «A União Europeia deve parar de oferecer presentes aos países do terceiro mundo, à custa da sua própria indústria têxtil e de vestuário e dos novos membros,» explicou. Haluk Ozelçi, director da ITKIB, acrescentou que as futuras diminuições das taxas da União Europeia poderão significar o fim virtual da zona pan europeia. O fiandeiro italiano de malha Ottavio Festa-Bianchet (Lora et Festa SpA), a falar pelo Sistema Moda Itália, fez algumas reflexões sobre os desafios cruciais que a indústria da União Europeia vai enfrentar após 2004, que são a China, os químicos, e os instrumentos de política comercial. No que diz respeito à China, nos primeiros dez meses de 2002, as exportações chinesas de todas as categorias liberalizadas (desde 1 de Janeiro de 2002) cresceram em valor cerca de 0,4 por cento e em termos de volume 161 por cento. «As exportações chinesas bateram certamente “no tecto” enquanto que, e ao mesmo tempo, os seus preços caíam até “bater no chão”. Parece-me que estes preços não podem ser normais, estando muitas vezes próximos do custo da matéria-prima», afirmou Festa-Bianchet. Jean-François Gribomont, director-geral do grupo que integra a indústria do algodão belga Utexbel, com 1200 funcionários, e presidente da Eurocoton, pediu o estabelecimento de uma força de trabalho para controlar as actividades têxteis chinesas. Em relação aos químicos, a Comissão de Químicos da União Europeia White Paper, um precursor para a legislação a s