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Indústria de moda precisa de uma «redução acelerada»

Os esforços da indústria de moda para travar o aumento da temperatura média a 1,5 ºC no combate ao aquecimento global não estão a ser suficientes para mitigar em 50 % as mudanças climáticas, revela um novo estudo da Global Fashion Agenda e da Mckinsey.

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O relatório, denominado “Fashion on Climate”, fornece uma análise das atuais emissões de carbono da indústria de moda, o potencial para acelerar a redução de emissões até 2030 e os custos associados às alavancas para reduzir as emissões em toda a cadeia de valor do sector. O documento destaca também os passos a dar que as marcas de moda, fabricantes e consumidores devem priorizar para promover a descarbonização em todo o sector.

A indústria de vestuário e calçado foi responsável por cerca de 2,1 mil milhões de toneladas de emissões de CO2 em 2018, o que correspondeu a cerca de 4% das emissões globais. Na prática, a indústria de moda emite quase a mesma quantidade de CO2 por ano que as emissões conjuntas da economia de França, Alemanha e Reino Unido.

Segundo o estudo, se não forem tomadas as devidas medidas na próxima década, para além das que estão já em vigor, as emissões de CO2 da indústria podem aumentar para cerca de 2,7 mil milhões de toneladas por ano até 2030, o que se traduz numa subida de 2,7% da taxa anual de emissões. De modo a cumprir o aumento de temperatura média de 1,5 ºC nos próximos 10 anos, o sector teria de reduzir as emissões anuais para cerca de 1,1 mil milhões de toneladas, o que é metade do valor atual.

O “Fashion on Climate” sugere que para se conseguir baixar a quantidade de emissões anuais para metade é necessária uma «redução acelerada», que pode ser impulsionada através de ações em três áreas fundamentais das marcas e retalhistas. Baixar as emissões das operações de fabrico, uma vez que 61% da redução acelerada pode ser conseguida com a descarbonização da produção e do processamento de materiais, é um dos passos sugeridos pelo relatório, que defende que as empresas devem fazer a transição de combustíveis fosseis para fontes de energia renováveis. Diminuir as emissões das operações das próprias marcas é outro dos aspetos cruciais mencionados pelo estudo, o que pode ser feito com maior utilização de materiais reciclados na composição dos tecidos. Minimizar as devoluções e abrandar a superprodução podem também contribuir para uma descida de 308 milhões de toneladas de CO2 em 2030. Estimular os comportamentos de consumo sustentáveis é outra medida que se deve converter numa prioridade para os atores da indústria, a partir de uma abordagem mais consciente do mundo da moda, que engloba desde a produção das peças até à venda e também à própria utilização. Os modelos de negócios circulares, como a revenda, o aluguer de vestuário e até mesmo a redução dos processos de lavagem e secagem dos artigos, podem contribuir para uma redução de emissões de 347 milhões de toneladas em 2030.

Custos e circularidade

No que diz respeito aos custos para que as marcas e empresas possam implementar estas medidas, o documento prevê que 55% sejam aplicadas a partir da economia de custos líquidos de toda a indústria, sendo que as restantes vão necessitar de incentivos como a procura do consumidor.

Cerca de 60% da redução requer um capital inicial onde as marcas e os retalhistas vão precisar de colaborar com os atores da cadeia de valor do sector para investir em prol do meio ambiente e da sociedade. Deste modo, cerca de 90% da redução acelerada pode ser aplicada com um custo inferior a cerca de 50 dólares por tonelada de emissões de CO2.

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Apesar do investimento parecer dispendioso, o custo para as marcas e retalhistas que não pensam na pegada ambiental pode ser muito maior, de acordo com Morten Lehmann, CSO da Global Fashion Agenda. «A nossa indústria é muito frágil e não é resistente a choques como o coronavírus. Os investidores querem garantir que os negócios resistem a choques, incluindo a crise climática antes que ela comece realmente a impactar a cadeia de aprovisionamento», afirma Lehmann, no webinar anunciando o lançamento do “Fashion on Climate”, citado pelo just-style.com.

A reputação da marca é outro dos riscos que as empresas não podem correr, tendo em conta que os consumidores estão cada vez mais propensos a cortar relações com as marcas que não seguem um caminho sustentável, explica o diretor de sustentabilidade da Global Fashion Agenda.

Os negócios de revenda, que visam prolongar o ciclo de vida de uma peça de roupa e reduzir a sobrecarga que existe nos aterros, são vistos como parte de um compromisso sustentável pelo que se estão a tornar cada vez mais numa tendência no mercado. «O mundo mudou e os consumidores estão à procura de empresas e marcas mais sustentáveis. São necessárias medidas arrojadas, se a indústria de moda quiser atingir a meta ambiciosa alinhada com a rota dos 1,5 ºC nos próximos 10 anos. A boa notícia para a indústria de moda é que muitas das ações necessárias podem ser feitas com benefícios para a economia», garante Karl-Hendrik Magnus, senior partner da McKinsey & Company.

Apesar da situação sem precedentes causada pela pandemia e das limitações nos recursos das empresas, «a hora de agir é agora», assegura Eva Kruse, CEO da Global Fashion Agenda. «A pandemia mostrou-nos como estamos interligados e como também temos a capacidade de mudar. No entanto, as mudanças reais e duradouras dependem da capacidade da indústria para se unir e poder estar à altura da ocasião, desempenhando um papel de liderança no combate às mudanças climáticas», explica a CEO. «Entendo que para muitos não seja uma tarefa fácil e que todas as empresas têm recursos limitados e é por isso que estou orgulhosa de lançar este relatório, que vai ajudar os líderes da indústria a compreenderem melhor onde podem concentrar esforços enquanto obtêm o maior resultado dos seus investimentos», conclui.