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Indústria de moda protege natureza

Algumas das maiores marcas de moda estão a começar a apostar na inovação para nutrir a natureza. Ajudar os criadores de cabras da Mongólia a produzir caxemira de forma mais eficiente e contar insetos em “parcelas de biodiversidade” plantadas em quintas são alguns exemplos.

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Os investigadores da área da sustentabilidade ambiental acreditam que as empresas estão cada vez mais interessadas em mitigar os danos causados no planeta pelas respetivas operações, dado que os cientistas destacam nitidamente as ameaças às florestas, água, solo, plantas, animais e pessoas.

«Durante décadas temos tentado fazer com que as empresas participem nesta jornada, mas no últimos seis a 12 meses, nunca vi tanto interesse», afirma Eva Zabey, diretora-executiva da Business for Nature, uma coligação que luta por políticas governamentais mais fortes e mais ações corporativas, citada pela Reuters. Pelo menos 400 empresas assinaram o compromisso internacional de proteger a natureza e mais de 1.200 empresas estão já a tomar medidas nesse sentido, acrescenta Eva Zabey.

Dia 24 de agosto, a Grã-Bretanha anunciou a sua entrada num processo de consulta sobre uma potencial nova lei que pode vir a forçar as grandes empresas a clarificar a cadeia de aprovisionamento, multando-as caso utilizassem produtos cultivados em áreas desflorestadas ilegalmente.

Uma análise referente a janeiro, elaborada pelo World Economic Forum, estima que 44 biliões de dólares (cerca de 36,8 biliões de euros) do valor económico anual gerado em todo o mundo, mais de metade do PIB global, depende da natureza e dos seus recursos, nomeadamente a colheita de alimentos polinizados e material genético para medicamentos, exemplifica Cath Tayleur, gestora de programas de negócios e natureza do Cambridge Institute for Sustainability Leadership (CISL). «A principal mensagem é que as empresas não podem continuar a ter impactos negativos e continuar a beneficiar dos aspetos positivos da biodiversidade. A natureza já está num estado perigoso», sublinha.

Um dos principais relatórios de 2019 da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) alertou para o facto de um milhão de espécies animais e vegetais, dos oito milhões, está em vias de extinção, uma problemática causada especialmente pela pesca e pela agricultura industrial.

Estes dados, juntamente com o reconhecimento do papel das florestas na absorção do carbono, que contribui para o aquecimento planetário, estão a pressionar os serviços hídricos, as empresas mineiras, os produtores de alimentos e outras entidades a abordar o impacto ambiental da forma como fornecerem matérias-primas.

Supervisionar recursos

Chris Brown, diretor de sustentabilidade na cadeia de aprovisionamento da rede de supermercados britânicos Asda, revelou que os inquéritos realizados aos consumidores, mostram que mais de 90% dos compradores dão importância ao facto da Walmart ser ecológica. «Somos vistos como administradores dos recursos naturais, dos quais dependemos assim como os nossos clientes», explica. Neste sentido e para ganhar a confiança dos consumidores, a Asda está a transformar a cadeia de aprovisionamento com a venda de peixes certificados pelo Marine Stewardship Council e a aquisição de cacau e de óleo de palma produzidos de forma sustentável.

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Outra das iniciativas colabora com produtores de batatas para plantar lotes de biodiversidade nas terras detidas pela retalhista britânica.

Além disso, a Asda enviou entomologistas para identificar e contar insetos e «ver o que estavam a conceber», adianta Chris Brown que observou que 75% da produção global de alimentos depende de polinizadores como abelhas e vespas, mais uma das razões pelas quais é preciso proteger estas espécies. «Elaborar métricas para medir os progressos no solo e outros benefícios da agricultura ecológica vai ser um desafio importante nos próximos cinco anos», considera o diretor de sustentabilidade, destacando ainda que as empresas enfrentam uma grande quantidade de iniciativas com o objetivo de proteger a natureza, o que torna difícil saber qual apoiar.

As iniciativas abrangem a New York Declaration on Forests, que tem como meta reduzir a desflorestação para metade até 2030, ainda que não esteja perto de a cumprir, e também o New Plastics Economy Global, que defende a reutilização do plástico a pensar na redução do desperdício.

«Há uma grande quantidade de promessas e compromissos dos quais as empresas estão a ser solicitadas para se tornarem signatárias, o que, na minha opinião, é tanto bom quanto frustrante, porque ter um compromisso não significa agir», admite Gemma Cranston, diretora de negócios e natureza do CISL.

Caxemira e algodão

O instituto da Universidade de Cambridge trabalhou com a Asda, o grupo Kering e outras empresas para desenvolver ferramentas práticas, para que as empresas possam gerir os riscos das cadeias de aprovisionamento associados à natureza e passem a ser favoráveis para a natureza ao invés de a prejudicar.

Em julho, o Kering, proprietário da Gucci, Saint Laurent e Balenciaga, entre outras marcas de luxo, publicou uma estratégia de biodiversidade com uma série de metas para atingir um impacto positivo líquido até 2025. Isto inclui regenerar e proteger dois milhões de hectares, cerca de seis vezes a pegada total de terra da cadeia de aprovisionamento nos próximos cinco anos. Metade do objetivo cobre terras em áreas agrícolas onde o grupo francês, que pretende restaurar o terreno através de um fundo de cinco milhões de euros, adquire os materiais.

Quanto ao restante, o conglomerado do luxo espera concretizar as metas com o apoio nas Nações Unidas, para proteger florestas e reduzir as emissões de carbono, melhorando os meios de subsistência locais.

Desde 2014, o Kering tem ajudado os criadores de cabras da Mongólia a aumentar a qualidade e a quantidade de caxemira que obtêm dos animais, ao mesmo tempo que acede aos mercados de carne e laticínios.

De acordo com o grupo francês, o programa permitiu que os responsáveis por estes animais possuíssem um menor número de cabras para não sobrecarregar os pastos e, desta forma, proporcionou um melhor entendimento sobre o potencial papel na proteção da vida selvagem, como antílopes e leopardos das neves.

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«É muito fácil para as pessoas esquecerem-se da ligação da moda e da agricultura, todas as nossas roupas vêm de quintas e florestas administradas», esclarece Katrina ole-MoiYoi, especialista em sourcing sustentável do Kering que acredita que para se conseguir progredir neste aspeto é necessária a colaboração de toda a indústria da moda, porque não se trata de «algo que uma empresa pode fazer sozinha».

«Se as empresas se pudessem juntar em projetos e transformar, por exemplo, a produção de algodão seria uma grande vitória para todos», reconhece.

Eva Zabey afiança que as empresas com as quais a Business for Nature trabalha gostavam de ver as políticas e regulamentações mais claras, para que possam expandir e acelerar os esforços em prol da proteção da natureza.

A Conferência das Nações Unidas, que foi adiada devido à pandemia e onde vai ser estabelecido um novo conjunto de metas de biodiversidade, está já agendada para maio de 2021.