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Indústria mostra a sua raça

No coração do Portugal Fashion desde a sua estreia, em 1995, a indústria e as suas marcas confirmaram um lugar no centro da moda e, pela primeira vez desde março de 2007, voltaram a ter a honra de encerrar uma edição do evento, mostrando que a criatividade pode coabitar na perfeição com a produção em ambiente industrial.

Bem conhecidas em Portugal e, na maior parte dos casos, igualmente nos mercados externos, a indústria de vestuário esteve de pedra e cal na última edição do Portugal Fashion, lado a lado com a moda de autor (ver Crónica de um inverno anunciado), sendo inclusivamente protagonistas do encerramento do evento, algo que não acontecia há quase uma década.

O bom momento da indústria de vestuário, refletido nas exportações do sector (ver 2016 arranca em força) não será indiferente, mas é sobretudo pela diferenciação que as marcas da indústria se têm vindo a distinguir.

No desfile coletivo da recente edição do Portugal Fashion participaram a Mad Dragon Seeker, a Concreto e a Cheyenne. “No Middle” foi a primeira coleção a subir à passerelle, desenhada em parceria por Alexandrine Cadilhe e Daniel Simões para a MDS. Inspirada em culturas centenárias para ser reinterpretada no futuro com novas tecnologias e novos materiais, as propostas para o outono-inverno 2016/2017 contaram com malhas grossas, em camisolas, casacos com aplicação de pelo e com jeans para elas e para eles. «Houve uma evolução no sentido de matérias-primas mais nobres. Temos trabalhado maiores percentagens de lã, por exemplo, e estamos a trabalhar com sedas, que também vem de encontro ao target que queremos atingir – o casual chic», explica Daniel Simões.

Na Cheyenne, o jeanswear característico da marca teve a companhia de looks mais sofisticados, como vestidos e jumpsuits com renda e veludo, com o preto e o azul-noite a dominarem, enquanto na Concreto as malhas foram “rainhas e senhoras”. A marca, que no ano passado trocou de mãos (ver Valérius compra Concreto), mostrou malhas mais finas do que o habitual, com jacquards onde habitaram animais e plantas selvagens. «O título que dei à coleção foi “Selva de Prata”. É composta por jacquards, que são uma grande tendência, e temos vestidos compridos com imagens de folhas e flores, onde aparece também o tigre, borboletas e até um mocho», aponta Hélder Baptista. Segundo o designer, a marca preserva o seu ADN, com as malhas mais finas a serem uma tendência, provocada também pelas alterações climáticas. «O fator clima influencia muito o têxtil do dia a dia. Tivemos um inverno quente, o globo está a aquecer, portanto vamos ter de fazer malhas mais finas», considera. «Mas depois para os dias mais frios temos capas grossas, para não dizerem que a Concreto deixou de ter a mesma identidade», refere, sublinhando que para esta coleção «olhei para a Concreto e tentei fazer um trabalho um bocadinho diferente também para dizer “mudamos mas estamos cá”».

Regressada ao Portugal Fashion, Ana Sousa quis igualmente dizer presente. «Foi uma presença muito pensada, muito trabalhada ao pormenor», refere a designer da marca que carrega o seu nome. «Achei que era importante primeiro fazer a internacionalização. Neste momento a marca Ana Sousa está em mais de 20 países, com 310 clientes internacionais e isso, para mim, é muito bom. Esta é a altura ideal para poder estar aqui», aponta. Ligada à empresa Flor da Moda, a marca propôs uma mulher intemporal, urbana e feminina para a passerelle, encarnada durante o desfile pela atriz Diana Chaves, pela apresentadora Andreia Rodrigues e pela nutricionista Andreia Santos. «A mulher Ana Sousa tem um gosto muito elegante, com muito requinte, é uma mulher que sabe vestir, que sabe estar, que sabe lutar pela vida – no fundo, uma mulher lutadora», resume a designer.

A Dielmar seria a primeira do trio de marcas da indústria a encerrar esta 38.ª edição do Portugal Fashion, com uma coleção ao nível do melhor da alfaiataria e com um novo talento a alimentar a criatividade (ver Sangue novo na Dielmar), que também não ficou por mãos alheias na Lion of Porches. O ambiente rock dos anos 70 em Londres serviu de inspiração a Júlio Torcato, Natércia Margarido e Josefina Borges para as propostas de homem, senhora e criança. «É a raiz da cultura britânica: a cultura britânica é música, é moda, é underground. E o ADN da Lion é precisamente essa cultura. Obviamente que temos aqui uma apresentação mais familiar, mas é uma família sempre moderna», sublinha Júlio Torcato. Os motivos tradicionais – como os losangos, os tartans e o padrão escocês – mantiveram-se transversalmente, mas a silhueta feminina surpreendeu. «É uma silhueta muito diferente da coleção anterior», admite Natércia Margarido. As botas subidas, bem acima do joelho, combinaram-se com casacos cintados, minissaias e calças à boca de sino. «É pegar numa silhueta antiga e torná-la completamente atual», explica a designer.

A fechar, a Vicri lembrou os tempos boémios, com looks formais trabalhados de forma mais descontraída. «A imagem do fato completo não está agora muito bem vista e então tentamos quebrar um bocadinho essa barreira. Obviamente que continuamos a fazer fatos clássicos mas no dia a dia cada vez menos homens vestem o fato tradicional. Temos que nos ajustar aos tempos», reconhece Jorge Ferreira, responsável criativo da Vicri, sobre a nova coleção da marca da Riopele. Com forte ligação à indústria, os materiais estiveram em grande destaque na marca, com muitas texturas e jacquards. «Todos os materiais são muito ricos, como sempre», destaca Jorge Ferreira. Um bom cartão de visita para os mercados internacionais onde está presente, numa lista que continua a somar novos destinos. «Acabámos agora de entrar no mercado russo. Vamos ver como é que corre», anuncia o designer.