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Indústria no furacão das mudanças climáticas

As questões ambientais são o maior risco ao desenvolvimento global, segundo o Fórum Económico Mundial. As empresas têm, por isso, de repensar a forma como fazem negócio, nomeadamente na cadeia de aprovisionamento, para mitigar os efeitos das alterações climatéricas e continuar a prosperar.

O relatório Global Risks Report 2019 do Fórum Económico Mundial identificou os eventos climatéricos extremos, a falha na mitigação e adaptação às mudanças climáticas e os desastres naturais como os três principais riscos ao desenvolvimento mundial na próxima década.

Os negócios precisam, por isso, de tomar medidas para minimizar os aspetos críticos das mudanças climáticas, aponta o WGSN. Reduzir o volume dos recursos usados vai exigir às empresas o repensar de muitos aspetos do seu dia a dia. A análise da cadeia de aprovisionamento e das estratégias de sourcing e o planeamento preditivo face a uma meteorologia menos consistente e previsível estão a subir na lista de prioridades dos executivos.

«As empresas têm de começar a preparar-se agora para mitigar os riscos, pois alguns mercados estão já a sentir os impactos destas mudanças, sobretudo à volta da poluição atmosférica e disponibilidade de água», refere o gabinete de tendências.

Utilização de água

A escassez de água está a colocar uma crescente pressão nos procedimentos operacionais, design de produto e gestão da cadeia de aprovisionamento. À medida que a água se torna uma commodity cada vez mais preciosa, os negócios terão de adaptar a formulação dos seus produtos e processos de fabrico para minimizar a utilização de água.

Mundialmente, 2,8 mil milhões de pessoas já têm acesso reduzido a água e este número deverá crescer dramaticamente. Num estudo de 2017, o Water Resources Group estima que, em 2030, a procura por água exceda a oferta em 40%.

Estratégias vocacionadas para o consumidor são igualmente importantes. As marcas de vestuário devem encorajar os consumidores a lavarem a sua roupa com menos regularidade e os negócios na área de grande consumo devem rever os seus produtos para assegurar que gastam menos água.

Na Cidade do Cabo, a Unilever reformulou o detergente para lavar roupa à mão de forma a reduzir a quantidade de enxaguamento para metade.

Oportunidades no ar

De acordo com as Nações Unidas, a poluição atmosférica é a causa de uma em cada nove mortes e contribui para esperanças médias de vida mais curtas e níveis mais baixos de inteligência. Um estudo de 2016 da OCDE concluiu que os impactos da poluição do ar incluem menor produtividade laboral, maiores gastos com saúde e perdas de colheitas, com o seu peso no PIB mundial a poder aumentar de 0,3% para 1% em 2060.

No entanto, o aumento da poluição traz consigo oportunidades para os que forem capazes de mitigar os seus piores efeitos. «Melhore o valor da marca ao permitir práticas de cadeia de aprovisionamento como a agricultura restauradora, uma técnica de cultivo usada para sequestrar carbono e melhorar a qualidade do ar», sugere o WGSN.

As pessoas vão procurar assumir o seu próprio bem-estar, com o mercado de monitores pessoais, máscaras e filtros de ar a dever crescer nos próximos anos. O mercado de monitores de qualidade do ar deverá aumentar de 3,5 mil milhões em 2018 para 6 mil milhões de dólares em 2025, segundo o relatório Global Market Insights de 2019.

Alguns centros comerciais chineses têm já purificadores de ar e ecrãs que mostram os níveis de poluição. Para os pais que temem o impacto da poluição do ar na saúde dos filhos, estes espaços estão a tornar-se verdadeiros recreios onde as crianças podem brincar em segurança.

Cadeia de aprovisionamento em risco

Os números crescentes de fenómenos atmosféricos irão colocar mais pressão nas cadeias de aprovisionamento, aumentando a incerteza e a magnitude das interrupções. As empresas devem criar uma equipa de gestão de disrupção dentro das cadeias de fornecimento. Uma compreensão clara de que fontes de transporte alternativas podem ser usadas se as opções primárias forem eliminadas será crítico para o negócio.

Os retalhistas com lojas em corredores de furacões devem assegurar que têm acesso fácil a artigos que as pessoas precisam antes e depois de emergências deste tipo. Isso inclui as lojas de bricolagem terem stocks de necessidades como baterias, lanternas, lonas e camas insufláveis, enquanto as lojas de vestuário e alimentação devem assegurar que têm disponíveis roupas para a chuva e alimentos não perecíveis.

As marcas têm de trabalhar com cadeias de aprovisionamento mais longas para minimizar a disrupção relacionada com problemas climatéricos. Durante as inundações graves na Tailândia em 2011, mais de 14.500 empresas que dependiam dos fornecedores locais tiveram problemas de abastecimento.

Novas estratégias de sourcing

As zonas climáticas mundiais estão a mudar, o que altera onde e como os produtos vão ser fabricados. À medida que o recuo do gelo no Ártico gera notícias, as linhas no mapa onde o trigo vai ser cultivado vão crescer e as fronteiras dos trópicos vão ser redesenhadas.

Um estudo de 2017 do Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas da Universidade do Maryland concluiu que o Deserto do Saara cresceu 10% desde 1920, enquanto investigadores da Universidade de Columbia descobriram que o meridiano climático (que divide o árido oeste e a zona leste mais húmida dos EUA) se moveu 140 milhas para leste desde 1980. «As empresas devem criar estratégias que ajudem a manter a disponibilidade dos produtos», indica o WGSN.

Uma das matérias-primas em risco é o algodão. As previsões mais conservadoras apontam que as colheitas de algodão baixem 30% a 46% até 2100. Fazer alterações para que seja mais resistente ao calor é crítico, juntamente com práticas de sementeira direta que reduzem a quantidade de água necessária, ao mesmo tempo que melhoram a rentabilidade da colheita.

Levi’s

De acordo com a Levi’s, cerca de 100 milhões de agricultores de algodão enfrentam restrições em termos de terra arável e escassez de água. No documento Estratégia para a Ação Climática 2025, publicado em julho de 2018, a marca delineou como está a reduzir o impacto das mudanças climáticas a trabalhar com fornecedores que ajudam a reduzir a utilização de eletricidade e água. Está também a trabalhar com os agricultores para aumentar a resiliência ao clima e com a Better Cotton Initiative.

Além disso, aconselha o WGSN, «as marcas devem procurar inovações em fibras recicladas para assegurar que o tecido não vai para aterro», sublinhando que «estratégias circulares que se afastam de fibras virgens serão essenciais para o futuro da indústria de vestuário».

Coleções para todas as estações

Arket

As mudanças nos padrões do clima e a sua maior instabilidade significam que prever a entrega do produto certo para a estação certa será cada vez mais difícil. Em climas mais frescos e chuvosos, as marcas devem procurar estratégias que incorporem a utilização inteligente de camadas, como a levada a cabo pela Arket e marcas de outdoor, que oferecem partes de fora que podem ser combinadas com forros interiores de diferentes espessuras para se adequar a diferentes tipos de condições meteorológicas.

Os retalhistas devem procurar emular as estratégias usadas por retalhistas online mundiais como a Asos, que opera numa base menos voltada para as estações, com pelo menos alguns produtos disponíveis para a maior parte das condições atmosféricas.

Investir nas previsões

As ferramentas de business intelligence estão a emergir, o que vai dar aos retalhistas e marcas mais poder para serem mais proativos no que diz respeito ao tempo.

A IBM afirma que um aumento de 1% na precisão das previsões meteorológicas traz 10 milhões de dólares em receitas em cada mil milhões de dólares em vendas. «Também sabemos, do trabalho que temos feito com os retalhistas nos EUA e na Europa, que incluir dados meteorológicos em previsões de procura para categorias de produtos sazonais aumenta a precisão da previsão em 20% ou mais», destaca Paul Walsh, diretor de estratégia meteorológica para o consumidor na IBM.