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Indústria tem de pensar a economia circular

O repto foi lançado ao longo da manhã de hoje, por vários intervenientes, da Riopele à designer Anne Prahl, na conferência Famalicão Circular – Novas Fronteiras para a Indústria. Do design à cadeia produtiva, englobando ainda o fim de vida dos produtos, o futuro sustentável do sector tem de começar a ser discutido já.

Albertina Reis e Isabel Domingues

Reciclar, reutilizar, inovar, partilhar – estes foram quatro dos verbos mais usados durante a manhã de hoje na conferência Famalicão Circular, promovida pelo município de Vila Nova de Famalicão.

«Entendo que a partilha deve fazer parte do léxico da economia. A partilha, a entreajuda, a transmissão de conhecimentos, o conhecimento da experiência, é algo que deve ser partilhado, deve ser comum, deve ser acessível para que cada um possa depois desenvolver a sua tarefa», afirmou, na abertura, Paulo Cunha, presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão. «Se há áreas em que, como diz o provérbio português, “o segredo é a alma do negócio”, também há áreas, e esta é uma delas, em que o networking, a partilha, a interação, a cooperação, são a alma do sucesso de um negócio», acrescentou.

Paulo Cunha

As questões da sustentabilidade deixaram, há muito, de ser uma tendência para se transformarem numa realidade a que as empresas em geral, e em particular as da indústria têxtil e vestuário, não podem escapar, tendo de a integrar no seu dia a dia e no seu modelo de negócios.

«Há já startups que querem ser sustentáveis e pensar a economia circular desde o início», explicou Anne Prahl, especialista em design circular que tem no currículo o trabalho para marcas de renome como Nike, Speedo, Puma e Marks & Spencer. Mas, avançou durante a sua apresentação, «é fundamental educar os designers que estão na indústria. Os designers que trabalham na indústria não têm tempo para se educarem na sustentabilidade. É importante dar ferramentas aos designers para que possam tomar melhores decisões», afirmou.

Caminhos para a sustentabilidade no design

As possibilidades para um design mais sustentáveis são diversas e podem ser complementadas, como explicou Anne Prahl durante a sua intervenção, onde deu inúmeros exemplos de inovações alicerçadas neste conceito que estão a chegar ao mercado. É o caso, dentro das matérias-primas, da utilização dos desperdícios têxteis pré-consumo, de têxteis de base biológica, como os resíduos de ananás que são transformados em fibras, ou de materiais criados em laboratório, como a seda sintética de aranha. O tingimento e os acabamentos têxteis têm igualmente merecido atenção, nomeadamente uma solução apresentada por investigadores italianos que usa açúcares derivados de resíduos da indústria agroalimentar, nomeadamente da produção de sumos de fruta, num acabamento que é aplicado em têxteis sintéticos para evitar a libertação de microfibras durante as lavagens.

Anne Prahl

O design pode ainda intervir na durabilidade dos produtos – especialmente no caso dos artigos customizados pelo consumidor, que ganham valor emocional que, habitualmente, faz com que sejam mantidos mais tempo – e na redução dos resíduos, neste caso graças a tecnologias como as chamadas malhas 3D (wholegarment) e, no futuro, a impressão 3D. Anne Prahl mencionou ainda os novos modelos de negócio, incluindo o aluguer de peças de vestuário, e o design pensado para a recuperação dos recursos, quando os produtos chegam ao fim de vida – neste caso, há já a possibilidade de inserir nas peças de vestuário uma espécie de “cartão de identificação” eletrónico onde constam a composição da peça e a sua história, permitindo tomar a decisão de reutilizar ou de reciclar.

Mas numa indústria que quer, naturalmente, vender, como pode o design circular ser integrado? À pergunta de Paulo Pereira, da AAC Têxteis, secundado por Mafalda Pinto, CEO da Scoop, Anne Prahl foi perentória: «as marcas estão a encontrar formas de se ligarem ao consumidor, não apenas através da venda de vestuário. Tem a ver com vender experiências, não só produtos. Os produtores terão de fazer o mesmo. Têm de perceber o que é que isto significa para vocês. As coisas estão a mudar e têm de começar a pensar que mudanças é que isso vai trazer para vocês». A designer britânica acredita ainda que «é uma boa altura para começarem a trabalhar juntos. É preciso que a indústria tome a iniciativa para se preparar para o futuro: criem grupos de trabalho, convidem designers… As respostas não existem hoje, mas é preciso começar a pensar».

Para Portugal, de resto, Anne Prahl considera que há vantagens que podem advir desta preocupação com a sustentabilidade e a economia circular. Em resposta à questão levantada por Isabel Furtado, administradora da TMG Automotive, sobre as importações asiáticas, mais baratas, a designer afirmou que «há uma grande tendência de regresso da produção a países de proximidade como Portugal» e, como tal, «há uma grande oportunidade para Portugal pensar neste conceito como um todo», abrangendo toda a cadeia produtiva, não só a reciclagem mas também a oferta de acabamentos e tingimentos mais “amigos” do planeta.

O verde Riopele

É nessa perspetiva que a Riopele tem vindo a trabalhar desde 1927, com o “verde” a estar entranhado no modelo de negócios da empresa. «Até o nosso logótipo é verde», afirmou, em jeito de brincadeira, Albertina Reis, diretora de I&D.

Além da inovação necessária a uma empresa que faz questão de estar na vanguarda da moda, relacionada com estruturas, cores e padrões, a Riopele tem feito fortes investimentos em I&D. O primeiro projeto, com um custo associado de 765 mil euros, foi o Nanosmart (ver Nanosmart deu novos trunfos à Riopele), que incluía quatro subprojetos focados em áreas como os acabamentos, para permitirem tratar mais facilmente as peças de vestuário e diminuir a eletricidade estática, mas também na área tecnológica, com uma solução que permitia recarregar uma bateria de um telemóvel, por exemplo. Mas, como afirmou diversas vezes a diretora de I&D da Riopele, «trabalhamos para obter resultados» e o projeto deu origem às marcas Power by Riopele e Çeramica Clean. Um projeto mais recente, o R4Textiles, que usa desperdícios da indústria têxtil e da indústria agroalimentar para criar novos têxteis, deu, por sua vez, origem à marca Tenowa. O projeto, com um investimento de um milhão de euros que terminou no ano passado (ver A condecoração da Riopele), representa já 500 mil euros de volume de negócios. «Representa apenas 2% [do volume de negócios da Riopele], mas é muito gratificante, porque estamos a ver os resultados», afirmou Albertina Reis, adiantando que «a nossa expectativa é atingir, em 2022, 7% daquilo que é o nosso volume de negócios». O percurso, contudo, «não é fácil. É preciso uma estratégia comercial diferente, é preciso muito trabalho de sensibilização», sublinhou a diretora de I&D.

Os investimentos da Riopele na economia circular vão além dos projetos de inovação, estando também presentes na adoção de tecnologias mais “amigas do ambiente” no processo produtivo e nas instalações fabris. «Para uma empresa ser sustentável, tem de preservar os recursos naturais. E a Riopele preocupa-se com isso», apontou Isabel Domingues, gestora de serviços integrados, qualidade, ambiente e segurança da Riopele. A empresa, que consome 3 mil metros cúbicos de água por dia, tem 27 captações, uma estação de tratamento de águas e faz a recuperação de águas pluviais, o que lhe permite ter uma dependência da rede pública de apenas 2%. «O nosso projeto, iniciado em 2000, de recuperação de efluentes atingiu em finais de 2017 6,1 milhões de metros cúbicos de água – significa que foi água que não fomos buscar à natureza. Em termos de poupança para a empresa, representou cerca de 2 milhões de euros», indicou Isabel Domingues.

Em termos energéticos, a empresa, que consome 8% do seu volume de negócios em energia, substituiu as lâmpadas tradicionais por LEDs, está a usar veículos de apoio elétricos, como empilhadores, e sistemas de controlo automático do ar condicionado. «Um dos projetos que está quase a arrancar é a instalação de uma central fotovoltaica numa das nossas unidades de fiação. Foi instalada recentemente e vai arrancar em dias. É um projeto de cerca de um milhão de euros e vai permitir satisfazer o consumo dessa unidade em cerca de 12%», revelou a gestora de serviços integrados, qualidade, ambiente e segurança da Riopele. Além disso, adiantou Isabel Domingues, até ao final de 2019 a empresa vai concretizar um investimento na ordem dos 10 milhões de euros para atualizar o seu parque de máquinas com as mais recentes tecnologias.

Em busca de sinergias

A Riopele está ainda aberta a colaborações com pequenas e médias empresas (PMEs), abrindo as portas no sentido das simbioses industriais, explanadas por António Lorena, consultor sénior da 3Drivers.

«Esta iniciativa da Câmara Municipal de Famalicão vem abrir possibilidades [de colaboração nesta área] para as pequenas e médias empresas», acredita José Alexandre Oliveira, presidente do conselho de administração da Riopele. A empresa famalicense tem sido contactada por empresas mais pequenas e «nós analisamos os contactos e chegamos à conclusão que está aqui uma ideia fantástica». Contudo, sublinhou José Alexandre Oliveira, há falta de apoios. «Hoje as associações têxteis não têm essa preocupação que estamos aqui a falar», considera, apelando, por isso, ao suporte do poder local. «Pedia à Câmara Municipal de Famalicão que, como concelho, tivéssemos essa preocupação. E pode ser que isso provoque o interesse de outras câmaras e aí depois podemos cooperar todos. (…) Na Alemanha e em Itália, as autarquias servem para ajudar as empresas. Em Portugal, o Ministro da Economia diz que vai ajudar as empresas, mas é mais do mesmo. Por isso, ou isto desce a uma situação regional e começamos a ter o apoio perto, os resultados a serem conhecidos pela região e nesse seguimento vamos avançando pelo país, ou se estivermos a pensar que vamos fazer uma política global, não vai funcionar», apontou.

Mas, acima de tudo, «é fundamental as empresas começarem a pensar nisto», referiu o presidente do conselho de administração da Riopele. Até porque, indicou, os desafios que as empresas vão enfrentar – António Lorena apontou, por exemplo, que em 2024 as empresas serão obrigadas a recolher os produtos em fim de vida – estão já a surgir. «Neste momento, na Riopele, já estamos a ser solicitados para recolher os produtos acabados. E isso vai ter critérios extremamente complicados para as grandes, as médias e as pequenas empresas», desvendou José Alexandre Oliveira.

Na plateia, Graça Fonseca, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), deixou, contudo, uma boa notícia para o sector. «Estamos a coordenar a elaboração de uma agenda regional para a economia circular», anunciou, deixando o apelo a que «todos os que estão no sector e tenham ideias e sugestões que as façam chegar. (…) É uma oportunidade muito importante que não devemos perder», concluiu.