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Indústria têxtil e do vestuário andou a duas velocidades

Os dados disponíveis permitem concluir que a evolução da indústria têxtil e do vestuário terá sido, na sua globalidade, mais positiva em 2000 do que no ano anterior.

 

Apesar dos resultados dos inquéritos de conjuntura serem mais favoráveis no sector do vestuário do que no sector têxtil, este último conseguiu, durante o ano de 2000, apresentar resultados francamente mais positivos do que o anterior.

 

É contudo de referir que, em ambos os sectores, os indicadores de sentimento situaram-se ao longo do ano em níveis superiores aos registados em 1999, ano em que , recorde-se, se verificaram fortes reduções no volume de negócios da indústria, com especial ênfase no sector do vestuário.

 

Tendo em conta a evolução dos custos, nomeadamente de mão de obra e da energia, seria de esperar que estes fossem repercutidos nos preços praticados pelos sectores da indústria têxtil e do vestuário. Contudo, é nítida a maior capacidade que o sector têxtil detém de transmitir aumentos de custos aos seus clientes. Enquanto que em 1999 os empresários do sector têxtil afirmavam na sua maioria que não seria possível aumentar os preços dos seus produtos, em 2000 a situação inverte-se.

 

Face aos aumentos de custos entretanto verificados, os empresários manifestaram em 2000 a sua vontade de aumentar os preços cobrados aos seus clientes, vontade essa que foi efectivamente posta em prática, como é possível detectar pela análise dos preços à saída da fábrica.

No caso do sector do vestuário, esta é uma questão mais complexa. Provavelmente devido a factores estruturais, como a fragmentação do sector e também devido à envolvente concorrencial, a maioria das opiniões neste sector apontava para a impossibilidade de proceder a ajustamentos de preços. Mais uma vez, esta incapacidade de repercutir aumentos de custos sobre os preços é nítida ao analisar-se a evolução dos preços à saída da fábrica, Ora, tendo existido um aumento de custos não repercutido sobre os preços, é bastante provável que se tenha assistido a uma erosão das margens comerciais.

 

 

Volume de negócios

A ITV registou um aumento do volume de negócios de 2%, contrariando a tendência negativa do ano anterior. O têxtil esteve na origem desta evolução, uma vez que teve um acréscimo de 4,5%, contrapondo-se a contínua queda da facturação do vestuário, que diminuiu, em 2000, 3,4%. No entanto, é importante salientar que o volume de negócios do sector do vestuário decresceu, em 1999, aproximadamente, 15,8%. Apesar deste comportamento global positivo, a ITV perde peso na totalidade da indústria transformadora, uma vez que o volume de negócios nesta última aumentou 8,6%.

Em matéria de emprego o ano de 2000 foi uma continuidade de 1999. O número de efectivos na ITV decresceu cerca de 4,6%, fixando-se em 232.971. O  peso relativo do têxtil e do vestuário manteve-se na mesma proporção do ano anterior (45% e 55%, respectivamente). Contudo, a diminuição de efectivos é mais acentuada no sector do vestuário do que no têxtil. Assim, o sector do vestuário registou uma diminuição de 6,1% e o têxtil de 3,3%. A indústria transformadora acompanhou esta tendência de queda mas de forma mais moderada, tendo decrescido 2,2%. O STV continua a manter o seu elevado peso relativo em termos do emprego na indústria transformadora, representando 25% do total de efectivos desta indústria.

 

Remunerações

A diminuição do número de trabalhadores é acompanhada por um aumento médio do valor das remunerações de 0,5%. Esta situação resulta de duas situações opostas. O valor das remunerações no sector têxtil aumentou  1,7%, e no vestuário diminui 1,2%. A indústria transformadora mantém a tendência, tendo aumentado 3,8%.

As remunerações por trabalhador, na continuidade do verificado no ano anterior, apresentam variações idênticas no têxtil e no vestuário. As remunerações por trabalhador na ITV tiveram um acréscimo de 5,4%, relativamente semelhante ao registado na indústria transformadora (+6,1%).

Associado a este acréscimo das remunerações por trabalhador, é visível uma diminuição do número de horas trabalhadas. O sector têxtil  decresceu 4% e o vestuário  diminuiu 7,4%. Em termos globais, a ITV trabalhou menos horas, tendo registado uma diminuição de 5,6%. Comparativamente, esta evolução na ITV é mais acentuada relativamente à indústria transformadora já que nesta, a diminuição é de apenas 3,1%.

 

Custo de Trabalho

Em relação ao custo unitário de trabalho constata-se um contínuo acréscimo desta variável. Na ITV o aumento é de 12,1%, bastante superior à registada na indústria transformadora. Se em 1999 a diferença de variação já era significativa, em 2000 é ainda mais acentuada. Por um lado, face ao aumento registado no ITV, originado, essencialmente, pelo aumento de 15% no vestuário  e, por outro lado, pelo facto da indústria transformadora ter mantido o crescimento do custo unitário do trabalho mas a ritmos decrescentes (2,2%).

 

Produtividade

O volume de negócios por trabalhador registou uma alteração significativa face ao sucedido em 1999.  A ITV aumentou 7%, sendo que o têxtil e o vestuário crescem, respectivamente, 8,1% e 2,9%. É importante salientar a contribuição dada pelo têxtil neste indicador, uma vez que o valor do índice em 2000 é superior ao registado em 1998. A indústria transformadora apresenta um acréscimo de 11,1%.

A produção regista um contínuo decréscimo. Ou seja, a inversão da tendência verificada pelo volume de negócios, não foi acompanhada pelo volume de produção. Este facto, resulta da diminuição da produção no sector têxtil em 2,3% e no  vestuário em 11,9%. Assim, o volume de produção da ITV diminuiu 5,9%. Em termos mensais, o vestuário apresenta no mês de Dezembro uma variação homóloga positiva (esta situação já não ocorria desde Novembro de 1999). Outro aspecto importante diz respeito ao facto da ITV apresentar no período compreendido entre os 2 últimos meses de 2000 e Janeiro de 2001 uma variação homóloga positiva (1,45%), que já não se verificava desde o 2º trimestre de 1998.

 

Capacidade

A utilização da capacidade produtiva instalada sofreu, também, uma redução no sector têxtil para 76% face a 78% em 1999, no vestuário de 85% para 83%. Na globalidade da indústria têxtil e do vestuário fixou-se em 79% que contrasta com o valor de 81% em 1999.

O número médio de semanas de produção assegurada pela carteira de encomendas fixa-se em 8 semanas (face a 8,1 em 1999). Porém, no sector do vestuário assistiu-se a uma redução algo pronunciada deste indicador, que atingiu as 15 semanas em 2000 face a 16,8 semanas em 1999.

 

Preços

Ao nível dos preços praticados regista-se um aumento ligeiro dos preços à saída da fábrica. A tendência de queda ligeira que se registou em 1999, é este ano contrariada quer por um acréscimo dos preços do têxtil quer do vestuário. No entanto, esta situação é essencialmente suportada pelo têxtil (uma vez que no vestuário os preços aumentam a ritmos inferiores aos verificados no ano anterior 0,8% e 0,1%, respectivamente, em 1999 e 2000). Em 1999, os preços  à saída da fábrica (sector têxtil) diminuiram 1,4%, mas em 2000  aumentaram 0,5%. Na base desta evolução estiveram essencialmente os produtos das empresas de fiação (em 1999 os preços tinham diminuído 4,2% e em 2000 aumentaram 0,7%) e fabrico de artigos de malha (em 1999 tinham decrescido 2,8% e em 2000 cresceram 0,5%).  Em relação aos preços no consumidor registam-se ligeiras alterações, mantendo-se a variação dos preços do vestuário a ritmos semelhantes ao do ano anterior (em 2000 é de 0,38%). O último trimestre de 2000 foi aquele em relação ao qual se registaram variações homólogas mais significativas. No entanto, merece referência o facto dos materiais para vestuário terem registado um aumento inferior ao de 1999 (3,1% em 1999 e 1,8% em 2000), assim como, Outros Artigos e Acessórios de Vestuário (3,7% em 1999 e 1,22% em 2000).

Os empréstimos de instituições financeiras às organizações que integram a indústria transformadora aumentaram 20%. Este acréscimo foi extensível à ITV que totalizou um montante de empréstimos de 24.071 milhões de euros. A ITV representa cerca de 17,8% dos empréstimos concedidos à indústria transformadora. É importante salientar que 22% dos empréstimos deste último sector de actividade destinam-se ao investimento.

 

Comércio Internacional

Em relação ao Comércio Internacional é visível uma inversão da tendência registada no ano anterior. Segundo as estimativas do CENESTAP com base nos dados do INE,  as exportações aumentaram 0,24% (decresceram 0,98% em 1999) e as importações também seguiram a mesma tendência, tendo crescido 4,68%  (diminuíram 4,85% em 1999). O total das exportações nacionais de têxteis e vestuário ascendeu assim aos 958 milhões de contos, face a 956 milhões em 1999.

Em termos desagregados as exportações do vestuário decresceram 3,6% e as do têxtil aumentaram 7,1%, sendo estas o suporte do aumento das exportações do sector. Relativamente às importações, tanto o têxtil como o vestuário contribuíram de forma positiva, registando um aumento de 4,3% e 5,5%, respectivamente. As importações de têxteis e vestuário situaram-se nos 640,9 milhões de contos, face a 612 em 1999.

Face a esta conjuntura, a Balança Comercial deteriorou-se em 26,3 milhões de contos , fixando-se em 317,2 milhões de contos. Tal ficou a dever-se, como referimos anteriormente, ao aumento significativo das importações, que se fixaram em 640,9 milhões de contos, e que aumentaram a um ritmo superior ao das exportações, atingindo 958,1 milhões de contos.

As exportações da ITV representam 18,5% (em 1999 representava 20,7%) do total das exportações nacionais e as importações 7,7% do total nacional (em 1999 correspondiam a 8,1%).

No período em análise verificou-se a redução do défice comercial dos produtos têxteis para 80,8 milhões de contos devido, essencialmente, às fibras sintéticas ou artificiais descontínuas e outros artigos têxteis confeccionados.

No vestuário, a redução do superavit para 398 milhões de contos justifica-se, quer pela diminuição das exportações quer pelo aumento das importações.

Face ao exposto, é natural uma menor taxa de cobertura da ITV, que se fixou em 149,5% face a 156% em 1999.