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Indústria têxtil na Índia – Parte II

Após a apresentação da primeira parte do artigo do Just-style.com, este segundo artigo é dedicado à indústria têxtil indiana, apontando as oportunidades que se deparam às empresas fabricantes daquele país, que em conjunto com as marcas, fornecedores e investidores, devem criar parcerias sólidas com toda a fileira desta indústria. À medida que a capacidade de produção da Índia aumenta, os retalhistas, marcas e importadores podem – e devem – explorar as oportunidades concretas, mais adaptadas ao seu tipo de negócio. Um conselho simples seria apenas “ir além do óbvio”, já que não devem ficar limitados à imagem dos produtos tradicionalmente fabricados na Índia. Assim, os clientes deverão incentivar os seus fornecedores neste país a mostrar-lhes aquilo que têm de mais recente e inovador em termos de produtos, tecidos, etc., durante os seus encontros, uma vez que a estrutura da cadeia produtiva indiana será certamente propícia ao aparecimento de novos produtos, matérias-primas e técnicas de fabrico. Actualmente, um grande número de clientes da Europa e dos Estados Unidos compra artigos têxteis e vestuário na Índia, sendo perto de 70% das exportações totais de vestuário precisamente para os Estados Unidos e União Europeia. Ao mesmo tempo que estas empresas aumentam o seu volume de compras à Índia, outros clientes estão empenhados em reforçar a sua presença neste país, através de parcerias e acordos directos ou indirectos com os fabricantes locais. E à medida que o fim das quotas se avizinha cada vez mais, os exportadores indianos estão a apostar em mercados sem restrições de quotas, incluindo a Austrália, Japão, Ásia Ocidental, África do Sul e América Latina. Além disso, a Índia possui uma das maiores economias do mundo, que é também uma das que regista uma maior expansão. Nos últimos anos, este país tem registado um crescimento do rendimento médio anual per capita superior a 6%, o que tem vindo a melhorar a prosperidade geral da sua população. O mercado de consumo tem igualmente vindo a expandir-se, aspecto que tem sido estimulado por diversos factores favoráveis, como a racionalização dos impostos, a redução das taxas de importação, e um segmento jovem com forte apetência para o consumo em pleno crescimento. Na Índia, marcam já presença grandes marcas internacionais, como a Benetton, Lacoste, Levi Strauss, Lacoste, Dockers, Lee, Wrangler, Nike, Reebok, Adidas, Zegna, e Marks & Spencer, sendo ainda de realçar o forte crescimento do comércio retalhista, que deverá passar de uma quota de mercado actual de 0,8% para os 5% em 2005, isto num mercado total de 170 mil milhões de dólares. No entanto, como muitas empresas descobriram nos últimos dez anos, estas oportunidades devem ser devidamente enquadradas. Assim, antes de começar a imaginar um mercado potencial com mil milhões de clientes para a sua marca, deve fazer-se uma avaliação completa, pois dependendo do seu produto e do respectivo preço, o seu mercado poderá resumir-se a meio milhão de consumidores, em seis cidades, ou 20 milhões, espalhados por 25 cidades. Poucas empresas, como por exemplo a Unilever, podem realmente ambicionar chegar aos 500, ou mais, milhões de consumidores indianos. A lição a extrair é que, tal como o mercado consumidor é mensurável e tem vindo a crescer, é igualmente importante que as empresas façam uma avaliação estruturada do verdadeiro potencial dos seus produtos, antes de começarem a criar falsas expectativas. À medida que esta indústria cresce, aumentam também as oportunidades para os seus fornecedores, o que inclui os produtores de matérias-primas (fibras, fios, tecidos, acabamentos) e os fabricantes de maquinaria têxtil. A Índia parece ser assim uma competitiva e lucrativa plataforma global, o que leva os fornecedores de materiais e equipamentos para a indústria têxtil e do vestuário a apostar neste país como um mercado com grande potencial. Ao mesmo tempo, as taxas de importação dos materiais industriais têm sido reduzidas, e provavelmente diminuirão ainda mais. Por exemplo, até há poucos anos a taxa de importação sobre o equipamento de manufacturação era de 25%, e hoje foi reduzido para 5%. O governo da Índia tem tentado manter o equilíbrio entre os interesses dos fabricantes de tecidos nacionais, que pretendem evitar a concorrência, e os fabricantes de vestuário, que querem naturalmente ter livre acesso a uma grande variedade de tecidos oriundos de várias fontes. No entanto, a tendência natural será a de assistirmos a uma significativa redução dos impostos de importação de tecidos e outras matérias-primas, à medida que a indústria do vestuário vai crescendo e os fabricantes de materiais indianos aperfeiçoem as suas capacidades produtivas. As oportunidades concretas para os fornecedores desta indústria incluem a lã, as fibras artificiais (em especial os tecidos funcionais, como os tecidos de protecção), os têxteis industriais, os geo-têxteis, os produtos para aplicações médicas, os acessórios e os acabamentos. Existem também oportunidades para os fornecedores de produtos e artigos terciários, como as etiquetas, software, hardware, cada vez mais necessários dada a crescente standardização e níveis de qualidade exigidos aos produtos têxteis. Trata-se igualmente de um sector em que os clientes (retalhistas e marcas) constituem uma força dinamizadora, uma vez que exigem constantes aperfeiçoamentos das fábricas suas fornecedoras. Outra área em clara expansão são os serviços, sendo de realçar as grandes oportunidades para os prestadores dos vários tipos de serviços, que se registam uma forte procura por parte dos industriais indianos, como os logísticos, técnicos, consultoria, legais e financeiros. O investimento directo estrangeiro (IDE) está numa tendência ascendente, e tem evoluído assim desde há alguns anos. As políticas governamentais relativas ao investimento estrangeiro têm sido razoavelmente transparentes, embora este processo nem sempre tenha sido fácil. A Índia possui um sistema politico-legal fortemente estruturado e multifacetado do ponto de vista administrativo, que é de certa forma familiar na sua natureza para os investidores europeus e americanos. O IDE na indústria têxtil e do vestuário foi recentemente liberalizado, e tem vindo a ganhar impulso. Esta indústria é uma área vital para o governo indiano, que vê as empresas estrangeiras mais como potenciais parceiros na expansão e reforço das capacidades produtivas das fábricas indianas, do que como concorrentes dessas mesmas empresas. Apesar do investimento directo estrangeiro no comércio retalhista permaneça fechado na Índia, as empresas têm adoptado formas e estruturas alternativas, através das quais podem abordar os consumidores deste país, de que são exemplos a Levi Strauss, Marks & Spencer, Adidas, Nike e Reebok, na área dos produtos de moda. Assim, um número considerável de empresas e marcas operam presentemente na Índia, recorrendo a joint ventures, alianças estratégicas e outras formas de parceria. Tal como acontece em cada novo mercado ou base de fornecimento, as empresas devem estudar cuidadosamente o respectivo ambiente, o que se torna especialmente importante no caso da Índia, devido à sua diversidade e dimensão. Grande parte dos problemas que as empresas enfrentaram quando entraram na Índia deriva precisamente de uma má interpretação da informação recolhida durante as etapas anteriores. As falhas típicas incluem erros nas estimativas do volume do mercado, políticas de preços e estruturas de distribuição. Um último conselho seria: “acredite nos seus esforços – a paciência compensa”. A Índia deve ser vista como um importante e rentável mercado a longo-prazo e uma base de fornecimento sustentável, e não como uma oportunidade que se deve apanhar de uma só vez!