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Inglaterra mais reactiva

O governo do Reino Unido apresentou em Junho as linhas mestras de uma nova política de apoio à competitividade da indústria têxtil e do vestuário. Face ao declínio da indústria local, o Departamento do Comércio e Indústria britânico encomendou um relatório ao Grupo de Estratégia Têxtil e Vestuário (GETV), formado por um conjunto de representantes das associações patronais, sindicais e das instituições académicas. O relatório apresenta um diagnóstico à situação competitiva da ITV britânica, concluindo com um conjunto de 55 recomendações para a melhoria da competitividade desta indústria no Reino Unido. Em resposta ao relatório, o governo lançou um plano de doze pontos para apoiar a adaptação e melhoria da indústria de forma a ser capaz de responder aos desafios que se lhe colocam.

O eixo central do plano reside na criação de um sistema de resposta rápida, sistema esse que deverá ser estudado pelos membros do GETV. Os doze pontos do plano incluem assim o apoio a novas iniciativas de ligação entre produtores e retalhistas, de forma a aumentar a eficiência e flexibilidade, o apoio às empresas exportadoras, nomeadamente através da presença em feiras, a criação de um centro de excelência produtiva na Universidade de Heriot-Watt e apoios governamentais ao nível do design e da investigação têxtil.

O apoio do governo britânico à ITV aparece no seguimento de um conjunto de problemas estruturais e conjunturais vividos pela indústria no Reino Unido. Factores como a apreciação da libra, os problemas vividos pelos principais retalhistas britânicos, como a Marks & Spencer e o aparecimento de novos concorrentes na distribuição, com estratégias de “discounting”, levaram a forte perdas das principais empresas têxteis e de vestuário do Reino Unido. Esta redução na capacidade concorrencial da ITV é aliás demonstrada pela evolução dos termos de troca dos produtos têxteis e do vestuário.

Desde 1988 que se assiste a uma forte tendência para o declínio dos termos de troca, especialmente no caso dos têxteis, o que indicia que o “gap” entre a qualidade e o valor acrescentado dos produtos exportados e dos produtos importados é cada vez é cada vez mais reduzido. No período entre 1988 e 1998, as exportações britânicas de têxteis e vestuário cresceram apenas 124,5% face a um crescimento de 196,1% nas importações, atingido-se um défice comercial de 1,7 mil milhões de contos em 1998. Contudo, apesar da fase negativa que a ITV britânica atravessa, o relatório do Grupo de Estratégia Têxtil e Vestuário inspira algum optimismo. Segundo os especialistas do Reino Unido, existe um conjunto de pontos fortes na indústria britânica que, se devidamente potenciados, poderão permitir uma recuperação da sua competitividade.

Assim, a intervenção na ITV deverá essencialmente passar por quatro eixos: design e inovação no produto, marketing, velocidade de resposta e investimento em equipamento. O diagnóstico do grupo de especialistas aponta para alguns problemas nestes quatro eixos, problemas esses para os quais são apontadas algumas vias para solucioná-los.

Relativamente às questões ligadas ao design, o relatório aponta para a existência de um pool alargado de designers que é necessário aliciar no sentido da colaboração com a indústria. Ao nível do marketing, o problema reside na tradição inglesa de trabalhar com private labels dos distribuidores, o que obriga a que as empresas têxteis, face ao declínio dos principais retalhistas do Reino Unido, invistam na aprendizagem do marketing, quer de consumo, quer industrial. Quanto à rapidez de resposta, a aposta do sector no Reino Unido terá que passar necessariamente por uma interligação mais forte entre indústria e distribuição, interligação essa que permitirá uma maior rapidez na circulação de informação para montante desde o consumidor, passando pelos produtores e chegando aos fabricantes de fibras e de componentes para a indústria. Finalmente, relativamente ao investimento em equipamento, o grupo de especialistas destaca o reduzido valor do investimento, quando comparado com outras economias avançadas, apontando para a necessidade da introdução de novas tecnologias na indústria e para mais investigação e desenvolvimento nos meios académicos.

Os 12 mandamentos

1 – Apoio ao desenvolvimento de uma iniciativa da cadeia de produção, estabelecendo uma relação mais próxima entre produtores e distribuidores. O objectivo é o de melhorar a eficiência e flexibilidade da cadeia, tornando a indústria mais competitiva. O governo irá trabalhar com os principais actores da indústria nesta iniciativa.

2 – Extensão do apoio a exportadores. O governo britânico propõe a reformulação da política que permite o apoio apenas a três presenças de expositores britânicos em feiras internacionais, e garantirá mais apoios, através da British Trade International, à promoção das exportações dos produtos britânicos.

3 – O governo irá apoiar o estabelecimento de um centro de excelência produtiva em têxteis na Universidade de Heriot-Watt, encorajando a exploração comercial da investigação em têxteis, incluindo a colaboração entre centros de investigação, organizações sectoriais e empresas, o apoio ao desenvolvimento e exploração de inovações em têxteis técnicos e a investigação no domínio dos novos materiais para a indústria automóvel.

4 – Encorajamento à permanência dos melhores designers e estilistas nacionais no Reino Unido e ao desenvolvimento do seu talento em parceria com a indústria têxtil e do vestuário.

5 – Estudo de novas regulamentações no âmbito dos concursos públicos e das decisões de compra por parte de organismos oficiais de forma a criar condições mais favoráveis à ITV britânica, dentro das obrigações legais a que o Reino Unido se comprometeu, quer ao nível da União Europeia, quer ao nível da OMC.

6 – O governo irá trabalhar com o British Fashion Council no sentido de desenvolver, quer as competências dos jovens designers, quer uma consciência para a necessidade da aposta no design por parte das empresas. Os projectos apoiados abarcam a presença de jovens designers na London Fashion Week e a realização de workshops por parte do departamento da Indústria para formação dos designers nas questões da ITV.

7 – Apoio a projectos têxteis, no âmbito do programa de formação de engenheiros técnicos, de forma a aumentar o nível de qualificações técnicas na indústria, desenvolvendo clusters e redes entre PME’S. Estudo de novas áreas de formação em conjunto com os organismos de formação em têxteis e vestuário.

8 – Maior divulgação das oportunidades disponíveis no âmbito dos vários programas de estágios financiados pelo estado.

9 – Fomento à participação das empresas têxteis, especialmente das PME, na iniciativa para a sociedade de informação, nomeadamente no desenvolvimento de projectos ligados ao comércio electrónico.

10 – Apoio mais rápido e personalizado por parte do departamento de Emprego nos casos de perda de postos de trabalho.

11 – Desenvolvimento de programas especiais para a resolução dos problemas causados pela perda de postos de trabalho ao nível regional.

12 – Parceria do governo e industria no sentido da identificação das prioridades sectoriais, que serão alvo de atenção por parte dos programas de requalificação do serviço nacional de Emprego.