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Inovação marca pontos

Os novos materiais e aplicações preencheram o segundo dia da iTechStyle Summit. O projeto do SGL Group para conferir características de retardamento de chama a fibras acrílicas, um dispositivo para a incontinência urinária ou uma proteção de colchão para evitar escaras da Têxteis Penedo foram alguns dos desenvolvimentos apresentados.

Andrea Zille, Anabela Carvalho, Sandra Ventura, Gozde Berk e CarlaSilva

Performance e conforto são, segundo David Shah, os conceitos que estão, e vão continuar, a marcar o mundo da moda. «Ninguém usa fatos, exceto em Portugal», brincou o consultor, que apontou o desporto, o bem-estar, a afirmação feminina, a inclusividade, o outdoor, a neutralidade de género, o rap, o denim e o streetwear como tendências a ter em conta.

David Shah

«O streetwear é o novo luxo. A nova geração está a chegar e são diferentes», sublinhou, dando como exemplo o sucesso de marcas como a Canada Goose, a Supreme e a Off-White e a ascensão no universo da moda de pessoas como Virgil Abloh, diretor artístico de moda masculina da Louis Vuitton e fundador da Off-White, e Rihanna, que «será a nova Coco Chanel», garantiu David Shah.

Da fibra aos acabamentos

Estes conceitos estiveram mais ou menos presentes durante as apresentações de novos materiais e aplicações que ocuparam o segundo dia da iTechStyle Summit, depois do primeiro dia ter sido dedicado à sustentabilidade e à indústria 4.0. Bruno Pereira mostrou como a SGL Composites, a ex-Fisipe, está a trabalhar em fibras acrílicas retardantes de chama. Os primeiros testes foram positivos, estando agora em desenvolvimentos novos processos que permitam que estas fibras possam ser tingidas.

Bruno Pereira

Para começar, a empresa foi responsável pela trança da Rapunzel para um espetáculo de Filipe La Féria. Contudo, «ainda não conseguimos produzir à escala industrial», assinalou o diretor de mercado e produto de fibras acrílicas, adiantando que estão a procurar vias alternativas, nomeadamente a polimerização e a utilização de aditivos no xarope antes da extrusão das fibras. «Neste momento, com a utilização de apenas um aditivo, esperamos ter resultados à escala industrial», explicou.

Afonso Londero
Lúcia Cardoso

No tingimento e acabamentos, Afonso Londero, diretor técnico na brasileira TNS Nanotecnologia, apresentou um novo acabamento antimicrobiano que recorre aos taninos encapsulados. A sua eficiência no combate à concentração de bactérias deverá permitir reduzir a lavagem do vestuário por parte dos consumidores o que «pode reduzir para metade o consumo de água e, como tal, reduzir a libertação de microplásticos», destacou.

A Tanatex também se concentrou nos tratamentos antibacterianos para os têxteis, enquanto a CHT Switzerland optou por apresentar a gama de corantes reativos Bezaktiv Go, que garantiu serem eficientes e amigos do ambiente. Segundo Lúcia Cardoso, area sales manager da empresa suíça, esta gama de corantes permite lavar a baixa temperatura (40ºC) e minimizar o consumo de água, energia e sal. Além disso, «a percentagem de corante hidrolisado no final é reduzida, facilitando a lavagem», acrescentou.

Andrea Zille, investigador do 2C2T da Universidade do Minho, abordou a utilização de tratamentos por plasma para tecidos sintéticos para combater a libertação de nanopartículas no têxtil e proteger a pele.

René Hermse, Lúcia Cardoso, Aharon Gedanken, Ivo Safarik e Lars Montelius

Já Aharon Gedanken, professor de química na Universidade Bar-Ilan, em Israel, trouxe ao Porto o projeto SONO, no qual foi desenvolvida uma técnica de revestimento que usa ondas ultrassónicas para embeber as substâncias na superfície do material. Para tratamento antibacteriano, inicialmente usou nanopartículas de prata, mas depois optou por nanopartículas de óxido de zinco. «Mata mesmo as bactérias resistentes», afirmou o professor. A tecnologia sonoquímica está a ser inclusivamente usada para têxteis para o sector da saúde.

Evolução na saúde

A saúde foi, de resto, uma das áreas abordadas nos novos produtos apresentados. Ivo Safarik, investigador sénior na Academia de Ciências da República Checa, mostrou os desenvolvimentos em nanotêxteis responsivos magneticamente, enquanto Gözde Berk apresentou um dispositivo para a incontinência urinária. «É um têxtil eletrónico que avisa a pessoa sobre a altura de ir à casa de banho», explicou a professora assistente da UCDavis.

Sandra Ventura

A Têxteis Penedo, por seu lado, está a desenvolver o ActiveRest, uma proteção de colchão pensada para prevenir as úlceras de pressão em acamados e pessoas em cadeira de rodas. O protótipo, desenvolvido em parceria com a Comfort Keepers, o Citeve, o CeNTI e o IPCA. inclui sensores que monitorizam aumentos de pressão e os comunicam a uma app e atuadores integrados numa esponja que permitem libertar a pressão. «Quando se põe o atuador a funcionar, verifica-se um alívio imediato nas zonas adjacentes», indicou Sandra Ventura, diretora de inovação na empresa. «Estamos a obter bons resultados», desvendou. Ao Portugal Têxtil, a diretora de inovação adiantou que o projeto, que termina em cerca de seis meses, deverá chegar ao mercado. «O protótipo intermédio que apresentei já é um protótipo funcional, que funciona numa cadeira. Agora é fazer o scale-up», assegurou.

Automóvel mais confortável

Durante este segundo dia foi ainda revelado o Confinseat, um projeto de desenvolvimento de pele artificial que está a ser promovido pela TMG Automotive. «Existe um grande problema na pele artificial: o conforto térmico», destacou Gonçalo Silveira, engenheiro de produto da TMG Automotive. «Para aumentar o conforto térmico de uma pele artificial existem quatro fatores a ter em conta», referiu, enumerando a respirabilidade, a gestão de humidade, a temperatura superficial e condutividade térmica».

Anabela Carvalho e Gonçalo Silveira

Ainda no primeiro ano, este projeto já identificou aditivos e materiais para refletir os raios infravermelhos e dissipar o calor, descreveu Anabela Carvalho, investigadora do CeNTI. «Estes desenvolvimentos, apesar de iniciais, já estão a demonstrar resultados bastante promissores. Conseguimos perceber que é possível prever o desempenho térmico dos materiais através do uso de ferramentas matemáticas e de certa forma conseguimos corroborar os resultados que temos das leituras dos ensaios que fazemos, o que nos permite também otimizar esse modelo matemático para ser cada vez mais aproximado ao real», concluiu a investigadora.