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Inovação pinta-se de verde

Com a economia circular a tornar-se um conceito, e um negócio, incontornável, a plataforma Fibrenamics Green quer ser o ponto de encontro de empresas, criativos e de toda a cadeia de valor necessária para transformar resíduos industriais em novos produtos com valor para o mercado.

Os números avançados por Inês Costa, especialista em economia circular no Ministério do Ambiente não deixaram dúvidas entre os participantes no Innovation Open Day, promovido pela plataforma Fibrenamics Green e que teve lugar ontem, dia 29 de março, na Universidade do Minho.

«Todo o [nosso] desenvolvimento assenta somente num único modelo linear: nós extraímos, processamentos, produzimos e vendemos, consumimos e, finalmente, descartamos produtos», apontou Inês Costa, numa intervenção por Skype. «Bem ou mal, este tipo de desenvolvimento até hoje teve o seu sucesso, devemos a ele muito. E isso pode ser constatado, por exemplo, quando olhamos para o PIB per capita a nível mundial – a tendência tem sido crescente», referiu, citando ainda as previsões de que a população mundial atinja 9 mil milhões de pessoas em 2050 e que, até 2030, haja 2 a 3 milhões de pessoas na classe média. «Isto são boas notícias para quem vende. Mas a verdade é que este raciocínio assenta no pressuposto, errado, de que os recursos disponibilizados pela nossa biosfera são infinitos ou pelo menos podem durar para lá de algumas gerações e que provavelmente a tecnologia até dará conta do recado, seja por via de uma eficiência crescente ou mesmo pela reciclagem», explicou a especialista em economia circular.

Contudo, sublinhou Inês Costa, já extraímos do planeta cerca de 62 mil milhões de toneladas por ano para alimentar a economia mundial e apenas conseguimos reutilizar 7% destes materiais e, no que diz respeito ao plástico produzido, apenas 14% é valorizado, com o restante a ser enviado para aterro ou a acabar no oceano. «Na UE, são 16 toneladas de material per capita que consumimos por ano», referiu. Uma exploração que está a levar à escassez de matérias-primas, que inevitavelmente se sente no preço, com a especialista a destacar ainda que «para matérias críticas sobre as quais assentam, por exemplo, tecnologias da indústria 4.0, muitas delas já poderão desaparecer até 2030».

É neste cenário que entra o conceito de economia circular, que Inês Costa definiu como «um modelo económico que restaura materiais e produtos, completamente energizado por fontes renováveis de energia, que mantém a utilidade e o valor a nível máximo através da sua circulação pelo maior tempo possível. Isto gera importantes impactos económicos, sociais, ecológicos, além de uma melhor qualidade e produtividade dos recursos».

O conceito está atualmente no centro das preocupações políticas, tanto internacionalmente como ao nível do governo português, como referiu Inês Costa, destacando medidas como a disponibilização de linhas de crédito internacionais e, na realidade nacional, a coligação para o crescimento verde, a fiscalidade verde e a estratégia de compras públicas ecológicas. Aliás, o governo português lançou mesmo um portal online, batizado eco.nomia, onde apresenta oportunidades e também modelos de economia circular, onde constam já bons exemplos da indústria têxtil, vestuário e moda, como as malhas da Vilartex, obtidas a partir de plástico recolhido no oceano, ou os ténis Jindo da Berg, com cortiça, que venceram o Ispo Award Winner (ver Um mundo de inovações).

Fibrenamics Green online

Foi a pensar neste conceito que nasceu a plataforma Fibrenamics Green, uma iniciativa da Plataforma Internacional Fibrenamics da Universidade do Minho, em parceria com o Centro para a Valorização de Resíduos (CVR), que tem como objetivo desenvolver produtos com a reutilização de resíduos mas que primem pela inovação e incorporem conhecimento e design. A plataforma, apresentada publicamente a 2 de novembro, desenvolveu já a primeira parte do trabalho, nomeadamente com a recolha dos resíduos e o desenvolvimento de modelos demonstradores, tendo como base resíduos minerais, fibrosos, plásticos e de madeira, e três tecnologias: infusão por vácuo, moldação por compressão e produção de não-tecidos. Informação que está, a partir de agora, disponível na plataforma online Fibrenamics Green, onde é possível ainda ver as empresas associadas ao projeto. «Cada vez mais, e em especial nesta ótica dos resíduos, o trabalho tem de ser feito em rede. É difícil para uma empresa sozinha assimilar todos estes processos de inovação e conseguir chegar ao mercado com um produto inovador feito totalmente dentro de portas», afirmou, na sua intervenção, Carlos Almeida, coordenador de marketing da Fibrenamics. Da área têxtil encontram-se já como parceiros as empresas Acatel, Cortadoria Nacional de Pêlo, ERT, Gabritex, Jacoli, MoreTextile e Mundotêxtil, que se juntam a várias outras de áreas como resíduos, transportes, design e engenharia e distribuição, mas o objetivo é ir mais longe. «Espero que na próxima vez já sejam o dobro ou o triplo», afirmou Carlos Almeida, adiantando que as empresas podem entrar nesta “rede” através do preenchimento do formulário que se encontra online.

Depois da plataforma online e dos modelos demonstradores, o próximo desafio já está lançado e pretende a integração dos criativos, com o Green Think Tank. «Queremos trazer todos os agentes de valorização do resíduo para a plataforma», afirmou Raul Fangueiro, coordenador da Plataforma Internacional Fibrenamics, que lidera o projeto. A meta é «juntar a comunidade criativa para encontrar novos caminhos e soluções», explicou Tiago Sousa, designer de produto na Fibrenamics Green.

David Bota, designer e professor no IADE e na Elisava Barcelona, deixou já o conselho aos designers e criativos que se queiram juntar ao projeto. «Sinto que não podemos limitar estes materiais a características que reconhecemos de outros», afirmou, acrescentando que, em relação aos modelos demonstradores, «gostava que estes materiais não servissem apenas como revestimento» e apelou a que os designers analisem as características e até a produção, para sugerir alterações que possam trazer valor.  «O desafio do designer é colaborar na construção de alguma coisa, não é só fazer “cenas fixes”. É preciso mudar o modelo. O design tem de ser algo mais do que o capricho de um designer», sublinhou.

As primeiras ideias foram já lançadas, durante o desafio promovido no Innovation Open Day, em que a assistência de dividiu em grupos mais pequenos para estudar possíveis utilizações dos modelos demostradores. A utilização de fibras têxteis em acessórios, como óculos e marmitas, ou no revestimento de uma sala de espetáculos, com funções técnicas mas também decorativas, foram duas das sugestões deixadas pelos participantes.