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Integração vertical dá vantagem na pandemia

Os desafios atuais do coronavírus têm sido também um momento de aprendizagem para a indústria têxtil e vestuário. Entre as lições estão a vantagem competitiva de ser vertical ou controlar a própria produção, como confirmam empresas como a Kantoor Brands, a Gildan Activewear, Unifi e Hansbrands.

Gildan Activewear [©Gildan]

As empresas que são verticais ou que têm um controlo substancial das suas operações de produção parecem ter tido vantagem face às outras, segundo avança, com base no depoimento de algumas empresas, o Sourcing Journal. Mas alguns estão a questionar a longevidade da sua transição para a produção de equipamentos de proteção individual (EPI), algo que foi valioso não só em termos do esforço público para combater a pandemia, mas também no preenchimento de falhas na produção resultantes do encerramento do retalho e da escassez da procura do consumidor.

Rustin Welton, diretor financeiro da Kontoor Brands – que detém as marcas Wrangler, Lee e Rock & Republic –, revelou, numa conferência com os analistas para discutir os resultados do terceiro trimestre, nos quais o lucro líquido aumentou 319% para 60,79 milhões de dólares (51,2 milhões de euros), que gerir os inventários exigiu um forte alinhamento com os seus parceiros de negócio sobre a procura esperada.

«A nossa produção própria dá-nos uma vantagem competitiva completamente diferente», afirmou. «Somos capazes de responder à mudança da procura para escalar a produção e minimizar questões de serviço para os nossos parceiros», salientou Welton.

Kontoor Brands [©Kontoor Brands]
Scott Baxter, presidente e CEO da Kontoor, assinalou que tem a ver com reforçar o foco da empresa. «Continuamos a aproveitar a nossa produção própria aqui no Hemisfério Ocidental para servir os nossos principais clientes com escala e rapidez, aumentando a vantagem competitiva no mercado», assegurou. «As nossas capacidades avançadas de produção permitiram-nos alinhar agressivamente a produção com a procura e, com os níveis de inventário inferiores em 20% no trimestre, estamos bem posicionados para a segunda metade de 2020 e, mais importante, para 2021. Acreditamos que isso tem sido, e vai continuar a ser, uma vantagem distinta em relação a muita da nossa concorrência no mercado», acrescentou.

Flexibilidade para gerir a produção

Glenn J. Chamandy, presidente e CEO da Gildan Activewear, considera que a força da empresa é ser uma produtora integrada verticalmente. «Quando vemos a nossa performance neste trimestre e como trouxemos de volta a nossa produção, é mesmo uma função da força da nossa própria equipa de produção», defendeu em relação às vendas da empresa nos três meses até setembro, que quase triplicaram em comparação com o segundo trimestre, com uma melhoria na margem bruta. «Retomamos a capacidade para um nível de 75% porque estamos a focar-nos em ter a certeza que continuamos a libertar liquidez e a descer os nossos inventários. Por isso, temos toda a flexibilidade para decidir quão rapidamente queremos subir. E se tivermos de reduzir, podemos fazer isso de forma relativamente fácil também. Vamos gerir o que ocorre no mercado. Temos capacidade disponível para continuar a crescer até ao nível de 100% pré-Covid», explicou Chamandy.

Gildan Activewear [©Gildan]
O presidente e CEO da Gildan Activewear indicou ainda que está a instalar capacidade na América Central e a continuar a crescer e a planear a expansão no Bangladesh até ao segundo trimestre de 2022.

«Penso que estamos numa posição muito boa, em termos de produção, para continuar a apoiar o crescimento das vendas e estamos também numa posição em que, caso as vendas esmoreçam, podemos suportar isso de forma relativamente fácil na posição que temos hoje», garantiu. «Com a falta de viagens, a conveniência de comprar neste hemisfério, penso eu, vai ser uma grande mais-valia para nós e também a rapidez de um prazo de cinco semanas em vez de cinco meses é enorme», lembrou, referindo-se ao tempo médio de envio da América Central e da Ásia, respetivamente, para os EUA.

Produção de EPI acalma

O CEO da Unifi, Edmund Ingle, desvendou que, no início do terceiro trimestre, a operação da empresa em El Salvador, na América Central, recomeçou e que está agora a operar na sua total capacidade.

«É interessante perceber que, à medida que aumentamos as nossas operações, vimos um crescimento adicional nas conversões e opções de marca para o produto pré-marca na região, a cadeia de aprovisionamento que predominantemente alimenta o mercado americano», elucidou.

Unifi [©Unifi]
Ingle destacou que a empresa está a ver mais produção de vestuário no Brasil e que a Unifi é competitiva com os seus fios porque os seus custos locais são mais baratos do que foram no passado. «Vemos uma oportunidade de talvez expandir a nossa quota de mercado [aí] a longo prazo», realçou.

A Unifi Inc. reportou que as vendas líquidas no primeiro trimestre terminado a 27 de setembro caíram 21% em termos anuais, para 141,5 milhões de dólares, mas aumentaram 64% em comparação com o trimestre anterior.

Ingle adiantou que a recuperação de todos os segmentos de negócio tem estado ligeiramente acima das expectativas, com os mercados automóvel, de vestuário e da indústria a estarem entre 15% e 25% abaixo dos níveis pré-pandemia.

«Embora continuemos a fornecer soluções para o mercado de equipamentos de proteção pessoal, ou EPI, como é conhecido, os nossos volumes estão a um nível inferior do que no princípio do ano civil e esperamos que o volume de negócios resultante deste mercado final vá diminuir à medida que a pandemia acalme», antecipou numa conferência com os analistas.

Já o CEO da Hanesbrands, Steve Bratspies, confidenciou que a empresa está a analisar a segmentação da sua cadeia de aprovisionamento para acelerar o time to market e responder às necessidades das suas diferentes marcas e negócios.

Hanesbrands [©Hanesbrands]
«Penso que temos de olhar para a nossa cadeia de aprovisionamento no futuro e realmente perceber como é que a alinhamos para ter a certeza que apoia todos os nossos principais negócios à medida que avançamos», observou. «Foi construída tendo por base um modelo e foi incrivelmente bem sucedida nisso e provou a sua capacidade de ser flexível em certa medida. Mas penso que estamos a desafiar a sua flexibilidade atualmente, à medida que construímos o nosso negócio D2C [direto ao consumidor] em diferentes partes em todo o mundo», justificou.

A Hanesbrands também adaptou a sua produção para fazer EPI e lançou a sua própria linha de máscaras no verão. «Da forma como estamos posicionados e ponderando isso, estamos a considerar os EPI uma espécie de oportunidade de curto prazo para 2020 e não como um grande negócio para nós no futuro», reconheceu Bratspies. «Mas isso pode mudar e temos de ver à medida que as coisas progridem no mercado», admitiu.