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Interface de olhos postos no futuro

Reunidos ontem na Alfândega do Porto para a apresentação do Programa Interface, membros do governo, investigadores, empreendedores e empresários olharam em conjunto para o futuro da indústria nacional – que passa por olhar para o espaço, para o solo, para o pavimento e, sobretudo, em frente.

A economia circular, a eficiência energética e a digitalização da indústria são algumas das áreas que, nos próximos anos, concentrarão as atenções de todos os que se reuniram ontem no centro de congressos da Alfândega do Porto para a sessão pública do Programa Interface, no âmbito do Programa Nacional de Reformas, evento acompanhado pelo Portugal Têxtil.

Entre os dois painéis da sessão – o primeiro dedicado aos projetos mobilizadores, demonstradores e em copromoção e o segundo aos Centros Interface – intervieram o ministro da economia, Manuel Caldeira Cabral, e o primeiro-ministro, António Costa, que se deslocaram a Norte para mostrar os novos caminhos para a competitividade.

António Costa

Durante a apresentação das novas medidas do Programa Interface, cujo objetivo é, nas palavras do primeiro-ministro, «a valorização dos produtos portugueses, através da inovação, do aumento da produtividade, da criação de valor e da incorporação de tecnologia nos processos produtivos das empresas», António Costa sublinhou que «perante a falta de recursos do país, os fundos comunitários são a chave para a capacitação de investimento».

Focando a importância da eficiência energética, economia circular e digitalização da indústria, o ministro da economia, Manuel Caldeira Cabral, revelou aos presentes as novas medidas do Programa Interface. Designadamente, os 180 milhões de euros para as empresas, através dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI), cuja linha será lançada até ao final do ano. Está também prevista uma linha que disponibilizará mais 50 milhões de euros, através do Fundo de Inovação, Tecnologia e Economia Circular (FITEC).

«A inovação tem sido algo central para este governo», afirmou Manuel Caldeira Cabral. «Hoje não se pode ignorar o enorme potencial e as enormes mudanças que advêm da digitalização da indústria. Na economia circular, há também muitos desafios que são importantes e se devem levar para dentro da esfera das empresas», explicou.

Voltando aos números – e depois da referência aos dados do INE, que divulgou na terça-feira que a economia portuguesa cresceu 2,5% no terceiro trimestre de 2017 face ao mesmo período do ano passado e depois de ter crescido 3% no trimestre anterior –, António Costa, antecipou a nova meta de execução de fundos comunitários destinados a apoiar o investimento empresarial.

«A meta que colocámos para 2017 era ir aos mil milhões de euros de fundos comunitários destinados a apoiar a inovação e o investimento empresarial. Esta meta, felizmente, foi já alcançada em setembro e temos previsto que, até ao final do ano, as empresas portuguesas conseguirão absorver um total de 1.250 milhões de euros de investimento na sua modernização e na sua inovação. É por isso que, para o ano, temos uma meta ainda mais ambiciosa, agora já não nos mil milhões, mas duplicarmos e termos no próximo ano a capacidade de executar dois mil milhões de fundos destinados a apoiar o investimento empresarial», garantiu.

Fernando Sousa

Inovação à portuguesa

À margem das boas-novas do executivo, a assistência da sessão pública do Programa Interface pôde ainda conhecer alguns dos projetos mobilizadores, demonstradores e em copromoção da frente de inovação nacional.

Fernando Sousa apresentou o projeto Produtech e incentivou os presentes a olharem para o futuro da indústria, que passa pela cooperação, internacionalização e inovação.

O Produtech – Pólo das Tecnologias de Produção – é, nas palavras de Fernando Sousa, «uma resposta integrada para o desenvolvimento e edificação de novos sistemas de produção, assentes em tecnologias de produção avançadas, que permitam equipar a indústria transformadora para os desafios da 4.ª revolução industrial».

Francisco Cunha

Já a apresentação de Francisco Cunha do primeiro satélite português levou, por momentos, a Alfândega do Porto ao espaço.

O Infante é o primeiro satélite português totalmente desenvolvido e construído no país (por um consórcio de 20 entidades), com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2020.

O satélite, que pesa entre 25 e 30 quilogramas, tem componentes impressos em 3D e painéis solares desdobráveis e assinalará, ainda, «a democratização do acesso ao espaço», sublinhou Francisco Cunha.

Vasco Pimenta

Mais próximos da terra estão os drones do projeto CloudMapper, da SpinWorks, apresentado pelo CEO Vasco Pimenta.

A plataforma de voo (utilizada na chamada viticultura de precisão) pode sobrevoar «até 200 hectares por hora». Já o software de processamento de imagem permite processar dados capturados (fotografias) e transformá-los em dados com interesse alargado (ortofotomapas, mapas digitais de elevação de terreno, cartografia de alta resolução, etc.).

Paula Roque fechou ainda mais o foco, olhando para o chão. Isto é, para os pavimentos cerâmicos, com a apresentação do projeto Revifeel Plus, da Revigrés com copromoção do CeNTI.

Paula Roque

«Quisemos alterar o paradigma da cerâmica», afirmou enquanto apresentava os sistemas Warmup (pavimento cerâmico que preserva o calor, criando um ambiente acolhedor), Cooldown (pavimento cerâmico que reflete a radiação solar e evita o sobreaquecimento.) e Heatsystem (pavimento cerâmico com sistema elétrico de aquecimento integrado).

Desafios à inovação

No segundo painel foram conhecidos três Centros de Interface nacionais – o sectorial Citeve e os transectoriais Inegi (Instituto de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial) e WavEC Offshore Renewables, em intervenções moderadas por Nuno Lúcio, da Agência Nacional da Inovação.

Braz Costa

Mais do que conhecer as respetivas valências dos centros que, na opinião de Nuno Lúcio «são essenciais para a competitividade do país», as intervenções de Braz Costa (Citeve), Alcibíades Guedes (Inegi) e António Sarmento (WavEC) focaram os desafios destas entidades privadas, com missão pública.

«Os Centros de Interface são, de facto, muito importantes, sem desprimor de nenhum outro tipo», realçou Braz Costa, destacando que «como qualquer empresa precisa de inovar para ter novos produtos, nós temos de investir em investigação para ter novos serviços».

António Sarmento

António Sarmento concordou, alertando para outra «importante» questão neste âmbito, a necessidade de se subirem os salários aos quadros qualificados desses mesmos centros, «para que estes não fujam do país». «Sem salários elevados também não conseguimos ter empresas competitivas», apontou.

Com o tempo da sessão pública do Programa Interface a esgotar-se, Alcibíades Guedes focou ainda a dificuldade que algumas empresas têm, sobretudo as PME’s, em colocar no mercado os seus produtos inovadores.

Alcibíades Guedes

«No Inegi temos a experiência de muitos projetos que chegaram a bom porto, em teoria o projeto foi perfeito, fez-se mesmo a pré-industrialização, mas o produto não está no mercado», reconheceu. O motivo? «Essas empresas têm dificuldades em comercializar, em encontrar canais de distribuição em criar, até, novos modelos de negócio», observou sobre um dos desafios da inovação nacional.