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Investimento sustentável gera lucro

Caminhar para uma indústria têxtil e vestuário mais sustentável exige novas soluções em sistemas de processamento de resíduos ou tecnologia de reciclagem. Os desafios depois são reaver o investimento e equilibrar o lucro do negócio com a sustentabilidade.

Na conferência Integral Conversation de 2019, organizada pelo Esquel Group, uma produtora de têxteis sediada em Hong Kong, as empresas da indústria de moda exploraram soluções para a preocupação de obter retorno nos investimentos sustentáveis de forma a que as fábricas e a natureza possam coexistir em harmonia, noticia o just-style.com.

O evento teve lugar em Guilin, na região autónoma Guangxi Zhuang e contou, por exemplo, com a presença de executivos da Chargeurs. Em setembro, a empresa francesa lançou uma coleção batizada “Sustainable 50”, que inclui 50 artigos de entretelas fabricados com materiais ecológicos como é o caso do algodão certificado pela Better Cotton Initiative (BCI), têxteis e plásticos de poliéster reciclado e ainda a Bemberg, uma fibra de celulose regenerada do algodão comercializada pela empresa japonesa Asahi Kasei.

«Todos conhecemos os três P’s no mundo do negócio: pessoas, planeta e proveito. Não se consegue ter o último P sem os dois anteriores», afirmou Angela Chan, diretora da divisão PCC Fashion Technologies da empresa francesa. «A coleção “Sustainable 50” é um bom exemplo. A Chargeurs começou a desenvolver entretelas produzidas com materiais sustentáveis em 2012 para clientes como o grupo Kering e a procura por parte de outros clientes começou a emergir, o que fez com que o foco da empresa fosse alargar a gama de produtos», explicou.

Cai Jinqing, presidente da Kering na China contou ao Fortune Global Sustainability Forum em Yunnan que os consumidores mais jovens procuram marcas e produtos mais sustentáveis, salientando que a sustentabilidade deve ser uma parte intrínseca do negócio e não apenas uma forma de comunicação ou responsabilidade social corporativa.

«A sustentabilidade é um investimento a longo prazo. Não é algo que se consegue de um dia para o outro. Portanto, a melhor forma de alcançá-la é trabalhar com fornecedores, clientes, funcionários e todos à volta», assegurou Angela Chan. «Na Chargeurs vemos que os nossos clientes são muito transparentes connosco. Estamos a criar estratégias juntos e a inovar juntos. Penso que é a melhor forma de prosseguir nesta jornada na qual estamos todos a aprender juntos», acrescentou.

A Chargeurs não foi a única empresa a detetar oportunidades de negócio no âmbito da sustentabilidade na Integral Conversation. A Adidas está a desenvolver um projeto experimental para tornar as sapatilhas totalmente recicláveis, segundo François Souchet, líder do programa Make Fashion Circular (MFC) da Ellen MacArthur Foundation, que colaborou com a marca de desporto no projeto.

Adidas, Futurecraft Loop

«O objetivo é criar um par de sapatilhas que possa ser reciclado e depois transformado num novo par de sapatilhas. Em abril, a Adidas fez um pré-lançamento das sapatilhas 100% recicladas Futurecraft Loop. Fabricadas com poliuretano termoplástico (TPU), estas sapatilhas não possuem cola, uma vez que este componente pode conter químicos perigosos para os trabalhadores e o ambiente», revelou François Souchet. No pré-lançamento, a Adidas disponibilizou 400 pares de sapatilhas e deu-os a um grupo de influenciadores digitais a nível global. O objetivo da empresa alemã é projetar um mecanismo que incentive os consumidores a devolver as sapatilhas quando não querem mais. «Até a embalagem das sapatilhas é fabricada com TPU, porque a Adidas quer assegurar que tudo é reciclável. É interessante ver como a Adidas está a reinventar o produto. As sapatilhas geram zero desperdício, mas continuam credíveis e com alto desempenho», apontou. O lançamento oficial da coleção Futurecraft Loop está previsto para 2021.

Pressão do consumidor

Anarug Bajpayee, CEO da Gradiant, com sede em Boston, nos EUA, e em Singapura, acredita que a procura dos consumidores por estilos de vida sustentáveis também pode sustentar as vendas de empresas de bens de consumo na Índia. A fornecedora de soluções para tratamento de águas residuais verificou um crescimento rápido na Índia, um país muito afetado pela poluição.

O sucesso da Patanjali que vende vários produtos como comida, artigos de beleza e vestuário foi mencionado por Anarug Bajpayee. «Cada vez mais jovens consumidores urbanos indianos são atraídos por empresas que preconizam um estilo de vida sustentável», afirmou o CEO da Gradiant, referindo ainda que uma grande parte dos clientes são pequenas e médias empresas de tinturaria na Índia, que procuram soluções em resposta aos regulamentos e à procura da população local.

«Os consumidores indianos preferem pagar mais por vestuário do que ter água da torneira poluída em casa. Agora, qualquer tinturaria na Índia que não possua um sistema de tratamento adequado para águas residuais será encerrada», garantiu.

A Gradiant também criou uma tecnologia de extração química seletiva para permitir que as tinturarias possam reutilizar a água tratada para reduzir os custos. «Então eventualmente, tratar as águas residuais tornou-se económico para as tinturarias». No ano passado, a Gradiant abriu um escritório em Xangai com o objetivo de se expandir na China. «A China está a esforçar-se muito para corrigir as problemáticas ambientais, ainda que o investimento, até ao momento, continue a ser menor comparativamente com os EUA. Penso que a China tem um grande potencial para o nosso negócio», considera Anarug Bajpayee.

Repressão na China

Em janeiro de 2018, a China começou a implementar uma taxa de proteção ambiental com foco nas empresas do sector que geram poluição sonora, aquática e aérea. Em 2017, o Império do Meio lançou uma política que requer que as empresas em 10 sectores, incluindo curtumes e tinturarias, solicitem uma licença de disposição de resíduos, com as entidades que não a possuírem a correr risco de serem encerradas.

Algumas cidades chinesas também querem acabar com as tinturarias e estamparias. Entre elas, está Xiangcheng, um distrito em Suzhou. Por consequência, em 2018, o governo local fechou 63 tinturarias e estamparias.

«A China é um mercado consolidado para nós, especialmente nos sectores de tingimento e estampagem. As empresas chinesas estão habituadas à ideia do tratamento das águas residuais, por isso não precisamos de educar o mercado neste sentido. Mas também significa que enfrentamos muita concorrência», destacou Jason You, diretor-geral da Gradiant na China.

Futuro verde

Para o Esquel Group, a sustentabilidade foi incorporada integralmente no ano passado, visto que, para o grupo, a sustentabilidade não diz respeito apenas aos detalhes ecológicos como a luz solar e o reaproveitamento e reciclagem da água, mas também aos seus funcionários que trabalham cerca de 8 horas por dia em comparação com a imagem estereotipada de uma fábrica de vestuário típica em que longas jornadas de trabalho são consideradas normais. «O lucro não deve ser o único objetivo das empresas. Devemos ser responsabilizados por um futuro sustentável», defendeu Teresa Yang, vice-presidente da Esquel.

Contar com várias empresas para conseguir uma indústria mais sustentável está longe de ser suficiente. Ao perceber a importância de unir esforços em todos os sectores, a Ellen MacArthur Foundation iniciou um projeto “Jeans Redesign”, para reunir empresas produtoras de jeans. Hennes & Mauritz (H&M), Gap Inc e C&A são algumas das participantes.

Segundo François Souchet, o programa Make Fashion Circular e estas empresas estão a desenvolver uma produção conjunta especialmente centrada na durabilidade, nas implicações do material para a saúde, na reciclabilidade e na rastreabilidade. «Se queres mesmo que as pessoas mudem, precisas de facilitar essa mudança, independentemente da situação. O foco do projeto são os jeans porque a produção tem um grande impacto no meio ambiente», afiançou.

A primeira produção confecionada de acordo com as novas diretrizes será lançada em 2020. «Ainda estamos à procura de mais marcas para se juntarem a nós. Isto é só o começo. Com o tempo vamos continuar a caminhar rumo a uma indústria de moda próspera, sustentada nos princípios da economia circular», concluiu François Souchet.

Guess, Outland Denim, Artistic Miliners, Cone Denim e Denim Expert foram os nomes mais recentes a aderir à iniciativa.