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ITV a ferro e fogo

Os crescentes protestos anti-China no Vietname são uma dura lembrança de quão facil e rapidamente as tensões geopolíticas podem entrar em erupção e interromper as cadeias de fornecimento. Com efeito, em menos de uma semana, as manifestações pacíficas contra a implantação de uma plataforma de petróleo chinesa em águas disputadas perto das Ilhas Paracel no Mar da China do Sul transformaram-se em protestos violentos. Quinzefábricas de vestuário e calçado de propriedade estrangeira na província de Binh Duong, no sul do país, foram incendiadas e muitas outras atacadas ou forçadas a suspender a produção. Estima-se que cerca de 20 mil trabalhadores fizeram parte dos protestos, muitos dos quais centrados em torno dos Parques Industriais Vietname-Singapura em Binh Duong. E desde então a violência alastrou-se para a província central de Ha Tinh. Embora as empresas chinesas sejam aparentemente os alvos visados, os manifestantes também confundiram fábricas de Taiwan e da Coreia do Sul como sendo de propriedade chinesa, com muitos prejuízos relatados nos seus edifícios de escritórios e instalações industriais. As empresas taiwanesas Thong Dung Footwear e Kingmaker Footwear, as chinesas Far Eastern Apparel Company e Texhong Textile, fornecedoras da Li & Fung, e a empresa Yue Yuen Industrial Holdings, fabricante de calçado listada na bolsa de valores de Hong Kong, foram forçadas a interromper temporariamente a produção no Vietname. O gigante do sportswear Nike referiu ter apoiado medidas de algumas fábricas para interromper a produção no Vietname, expressando a sua preocupação com os incidentes ocorridos no país. A Federação Têxtil de Taiwan (TTF) está a apelar ao governo vietnamita para «colocar um fim à desordem o mais rapidamente possível», advertindo que alguns investidores têxteis taiwaneses «estão a pensar cessar a sua expansão no Vietname ou deslocar as suas instalações para outros países a fim de evitar mais prejuízos». As empresas têxteis taiwanesas estão entre os maiores investidores no Vietname, o segundo maior mercado das exportações têxteis de Taiwan. De acordo com as estatísticas aduaneiras, o Taiwan exportou produtos têxteis no valor de 1,9 mil milhões de dólares para o Vietname em 2013, representando 16% das exportações têxteis do país. A associação dos Distribuidores e Retalhistas de Calçado da América (FDRA), que no início deste ano destacou a preocupação de que a escalada das tensões locais em torno do Mar da China do Sul poderiam afetar as importações de calçado e vestuário para os EUA, revelou não acreditar que os protestos e estragos nas fábricas sejam um evento isolado. A FDRA também salientou o papel desempenhado pelo governo vietnamita, que contribuiu para a exaltação dos ânimos com a emissão de fotografias e vídeos de um navio da Guarda Costeira chinesa a abalroar e a usar canhões de água contra um navio vietnamita. E os jornalistas dos média controlados pelo Estado foram autorizados a cobrir as manifestações resultantes. Os sectores têxtil, vestuário e calçado do Vietname têm registado uma trajetória ascendente nos últimos anos e os riscos de uma retração nos investimentos ou uma quebra das encomendas por parte dos clientes são as principais preocupações. Até agora, o Vietname beneficiou com o facto de produtores e compradores diversificarem as suas cadeias de aprovisionamento, deslocando alguma produção da China – os investidores estão também a antecipar os benefícios esperados com a proposta da Parceria Trans-Pacífico (TPP), um acordo comercial que envolve diversos países, incluindo o Canadá e os EUA. O Vietname também ajustou os seus objetivos no sentido de tornar-se um dos cinco principais países produtores e exportadores de têxteis e vestuário até 2020, com uma meta de exportação na ordem dos 20 a 22 mil milhões de dólares. Este objetivo parece estar no bom caminho, com as exportações de têxteis e vestuário do Vietname a aumentarem 19% para os 20,4 mil milhões de dólares em 2013 – superando pela primeira vez a marca dos 20 mil milhões de dólares. O sector é também a maior fonte de divisas estrangeiras do país. Apesar das dificuldades continuadas nos principais mercados de consumo, as exportações para os EUA aumentaram 14%, com ganhos também na UE (9%), Japão (20%) e Coreia do Sul (43%). O Governo vietnamita criou uma série de incentivos para atrair e incentivar o investimento direto estrangeiro e o Vietname garantiu acordos de livre comércio com uma série de países e regiões, como no âmbito da Asean China Free Trade Area (ACFTA), mas também com a Austrália, Nova Zelândia, Índia, Japão e Coreia do Sul.