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ITV argentina aposta na exportação

O crescimento das vendas externas, de 13%, no primeiro no primeiro mês do ano, depois de uma quebra de 60% em 2020, deu um novo ânimo à indústria têxtil e vestuário da Argentina, mas foi sol de pouca dura face à baixa de 4% em fevereiro. Fomentar as exportações continua, no entanto, a ser a grande batalha do sector.

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Quando os envios de vestuário da Argentina subiram 13% em janeiro, após uma contração de 60% no ano passado, criaram esperança de um novo ciclo, positivo, para a indústria da moda no país sul-americano.

O enfraquecimento do peso e o aumento da procura por parte dos principais parceiros do bloco comercial – Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia – impulsionaram as exportações da Argentina. Ao mesmo tempo, os produtores locais respiraram de alívio com a revalorização do yuan da China, que vinha a fragilizar as importações subvalorizadas de vestuário, prejudicando os fornecedores do país há anos.

O ganho em janeiro foi, todavia, acontecimento único. Em fevereiro, as vendas externas caíram 4% e devem estabilizar em março, segundo Francisco Roca, economista-chefe da Cámara Industrial Argentina de la Indumentaria (CIAI), citado pelo Sourcing Journal.

À medida que os mercados a nível global se recuperam do Covid-19 e o peso continua a desvalorizar, Francisco Roca espera que as exportações evidenciem uma uma «retoma modesta» este ano, de 1% a 2%, ao longo deste ano, longe contudo dos ganhos registados antes da pandemia atingir a terceira maior economia da América Latina.

O aumento do financiamento estatal pode alavancar as exportações, afirma o economista-chefe da CIAI. Bueno Aires anunciou, recentemente, que vai injetar 26 milhões de dólares (21,5 milhões de euros) nas pequenas e médias empresas do sector, com o objetivo de impulsionar as exportações, principalmente para a China, que foi identificada como um «mercado promissor» para as marcas de moda argentinas de gama alta.

«A componente de financiamento do Governo é muito importante com muitas linhas de crédito diferentes», explica Roca, que revela que o Estado eliminou algumas taxas de exportação no ano passado, incluindo o direito aduaneiro com um ad valorem de 7% a 8%. «Precisamos de diversificar as nossas exportações. Podemos vender o nosso luxo para a China. Existe uma classe média-alta que tem poder de compra e procura a variedade e a inovação no design que as nossas marcas podem oferecer», acrescenta.

Marcas como a Gaucho-Buenos Aires, Juana de Arco ou Jazmin Chebar, que já exportam para o Japão, devem beneficiar de maior exposição na China, segundo o economista-chefe da CIAI. Nem todas as empresas, no entanto, estão de olhos postos neste mercado que mostra sinais de retoma.

A Derwill, sediada em Buenos Aires tem os olhos postos na Europa e nos EUA. A empresa familiar investiu recentemente cinco milhões de dólares para duplicar a produção e aumentar os envios para marcas como Nike e Adidas, revela o fundador e proprietário Marcelo Lopez, que destaca que a maior parte do financiamento para construir a nova fábrica para duplicar a produção anual para 13 milhões de pares de meias desportivas veio sobretudo de capitais próprios e não dos cofres do Estado.

«De 5 milhões a seis milhões de dólares exportados no ano passado, quando a fábrica era bem menor, vamos exportar 12 milhões de dólares», adianta Marcelo Lopez, acrescentando que as novas instalações, que ficam perto de Buenos Aires, foram equipadas com 200 teares, essencialmente da italiana Lonati. «Estas máquinas incorporam a mais recente tecnologia para acabamentos e tipos de meias que a Nike nos pede, que são mais sofisticados e alinhados com as últimas tendências», explica o empresário.

A Derwill, que soma também a Under Armou e a New Balance na carteira de clientes, espera que a procura pelas suas meias unissexo e infantis cresça este ano, principalmente dos parceiros da Argentina no Mercosul, mas também do Chile.

Um esforço maior

Marcelo Lopez defende que as empresas devem fazer um esforço maior para adaptar os produtos aos compradores estrangeiros e não contar somente com os apoios do Estado. «A ajuda do Governo pode não ser suficiente, dependendo do mercado em que está e dos preços dos seus produtos, mas se conseguirmos que todos se foquem na exportação, há negócios para serem conquistamos e teremos a força de trabalho criativa para ganhar novos mercados», acredita.

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Aumentar as exportações também vai ajudar a Argentina a obter os fundos tão necessários para fazer investimentos que podem ajudar a criar empregos, pelo menos na fileira têxtil, onde diminuíram cerca de 50% em 2020.

Apesar do Ministro da Economia, Martin Guzaman, ter anunciado, em março, que o PIB iria recuperar mais rápido do que o esperado, para um crescimento de, pelo menos, 7%, depois de uma queda de 10% em 2020, os dirigentes sindicais não se mostram tão otimistas com as perspetivas do sector.

«Com uma percentagem muito pequena de vacinas a chegar, ainda estamos atolados em Covid-19», garante Monica Basterrechea, responsável do Satadya, um sindicato que representa mães e pais costureiros na cidade costeira de Mar del Plata. «Os trabalhadores estão com dificuldades e o emprego não recuperou muito», sublinha.

O consumo local de moda continua anémico, com oito milhões de argentinos no limiar da pobreza e a lutar contra a inflação elevada e a rápida depreciação da moeda, aponta Monica Basterrechea. «É verdade que o Governo está a ser mais diligente em relação ao [aumento] das exportações, mas acho que estamos a tentar fazer mais do que podemos. As nossas fronteiras com o Brasil estão fechadas e desconhecemos em que medida vamos ser afetados pelas novas variantes do vírus», conclui.