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ITV asiática luta por melhores condições

Os fabricantes dos seis países que produzem a maior parte do vestuário mundial criaram uma frente comum para negociar melhores condições junto das marcas de moda ocidentais, cujos pedidos cancelados impactaram os trabalhadores asiáticos no início da pandemia.

[©Voa Cambodia]

«Queremo-nos unir para resolver os problemas que enfrentamos. Não se trata de definir um preço mínimo para as encomendas. Trata-se de prática empresarial ética», explica Miran Ali, porta-voz da STAR Network de fornecedores asiáticos.

A iniciativa anunciada recentemente tem como objetivo dar aos fabricantes asiáticos «uma voz mais forte» na definição de pagamentos e prazos de entrega junto das marcas ocidentais.

A frente comum é composta por nove associações de seis países, como a China, Bangladesh, Vietname, Paquistão, Mianmar e Camboja, que, em conjunto, representam 60% das exportações de vestuário a nível mundial, destaca Miran Ali. Os produtores de outros países têm também a liberdade de se juntarem a este movimento, avança a Reuters.

Além de quererem adotar uma posição mais firme nas negociações com as marcas ocidentais, os fabricantes asiáticos pretendem ainda impulsionar o sector, significativamente afetado pela pandemia, o que agravou a insegurança generalizada em relação ao emprego e aos salários baixos.

«Estamos a juntar-nos para criar condições padrão. Ninguém tem a obrigação de cumprir estes termos, mas esperamos que seja uma diretriz para todos os compradores e fornecedores», sulinha Ali.

No início de 2020, as empresas de moda cancelaram cerca de mil milhões de dólares em pedidos com a chegada do Covid-19, que obrigou lojas de vários pontos do globo a encerrar portas, contribuindo para perdas salariais que podem ter atingido os 5,8 mil milhões de dólares (4,76 mil milhões de euros), indica a Clean Clothes Campaign.

Resistir à pressão

À medida que os pedidos retomaram no segundo semestre de 2020, as marcas ocidentais começaram, de acordo com os analistas, a exigir reduções nos preços assim como atrasos nos pagamentos aos fornecedores, que estavam já numa situação difícil, aceitando, por isso, qualquer tipo de encomenda.

[©Reuters]
Segundo Miran Ali, ao formar esta frente conjunta, as empresas estarão mais aptas para resistir a esse tipo de pressão. «Não existe uma plataforma que distinga um comprador de práticas antiéticas regionais. Por exemplo, um comprador não pode simplesmente colocar um pedido no Sul da Ásia, deixando-nos com a responsabilidade e, em seguida, decidir fazer os seus pedidos noutra região. Isso é imoral», afiança.

Cerca de 60 milhões de pessoas trabalham na indústria de vestuário asiática que, de acordo com os especialistas do sector, passam agora a estar em risco, com a queda nas vendas que deixou os trabalhadores expostos a situações de exploração, já que as empresas procuram reduzir os preços para ganharem os poucos contratos que vão surgindo.

Os defensores desta causa apelaram aos fabricantes para que apliquem esta iniciativa com vista a melhorar as condições dos trabalhadores e não apenas para aumentar os próprios lucros.

«Esperamos que a iniciativa inclua um itinerário claro de como as melhores negociações com as marcas levam a salários mais altos e a condições de trabalho mais seguras para os trabalhadores», adianta Meg Lewis, chefe de campanhas da Labor Behind the Label, uma organização sem fins lucrativos sediada na Grã-Bretanha.