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ITV chinesa compra mais maquinaria

Apesar das notícias que dão conta de uma menor relevância da China como fornecedora de têxteis e vestuário, o país continua a dominar a indústria mundial, com novos dados a mostrarem que o Império do Meio foi, em 2018, o maior investidor em tecnologia para fiação, texturização, tecelagem e tricotagem.

As tendências nos investimentos em fiação, tecelagem e tricotagem são um indicador relevante das futuras fontes de produção têxtil, contribuindo para perceber em que países os equipamentos novos e modernos podem melhorar a eficiência e a qualidade, reduzir os custos e permitir uma produção mais amiga do ambiente.

É esse o objetivo do estudo anual Estatísticas de Envios Internacionais de Maquinaria Têxtil, promovido pela International Textile Manufacturers Federation (ITMF), cuja conferência anual terá lugar no Porto de 20 a 22 de outubro.

Os números mais recentes, relativos a 2018 e compilados em cooperação com mais de 200 construtores de maquinaria têxtil, mostram um domínio indiscutível da China em praticamente todas as áreas, da fiação aos acabamentos.

Fiação

As entregas mundiais de fusos de fibra curta e rotores open-end subiram 1,5% e 13%, respetivamente, em termos anuais em 2018. Mas o crescimento foi consideravelmente mais lento do que o período anterior, entre 2016 e 2017, quando os envios de novos fusos de fibra curta subiram 21%, os de fibra longa aumentaram 46% e os de rotores open-end cresceram 24%.

O número total de fusos de fibra curta aumentou em cerca de 126 mil unidades, para 8,66 milhões. Os envios aumentaram pelo segundo ano consecutivo, mas a tendência mundial é de abrandamento.

A maior parte dos fusos de fibra curta (92%) foram enviados para a Ásia e Oceânia, embora a entrega tenha baixado 2%. Os seis maiores investidores no segmento de fibra curta foram a China, a Índia, o Uzbequistão, o Vietname, o Bangladesh e a Indonésia. Os destinos mais dinâmicos, contudo, foram a Coreia do Sul (+834%), a Turquia (+306%), o Vietname (+290%) e o Egito (+285%).

Os envios de fusos de fibra longa (lã) baixaram de 165 mil em 2017 para cerca de 120 mil em 2018, sobretudo devido a uma queda para a Ásia e Oceânia, onde o número de unidades entregues caiu 48 mil. Esta região continuou a ser o destino mais forte para este tipo de maquinaria, mas as entregas na China e no Irão baixaram 60%. Ainda assim, os maiores investidores foram a Turquia, o Irão, a China, Itália e Vietname.

De acordo com o estudo, 721 mil rotores open-end foram enviados para todo o mundo no ano passado. Isso representa um aumento de 83 mil unidades face a 2017. 91% dos envios foram para a Ásia e Oceânia, onde a quota de entregas subiu 20%, para 658 mil rotores. A China, a maior investidora em rotores open-end, aumentou as suas compras em 7% em 2018, enquanto as entregas para a Tailândia, Malásia e Egito triplicaram.

Texturização

O número de fusos de texturização enviados no ano passado subiu 50%. Em contrapartida, os envios de fusos de fibras longas caíram 27%. Os envios mundiais de fusos de texturização com aquecedor simples (usado sobretudo para filamentos de poliamida) aumentaram 48%, de quase 15.500 em 2017 para 22.800 em 2018. Com uma quota de 91%, a região da Ásia e Oceânia foi o destino mais forte – a China e o Japão foram os principais investidores neste segmento, com uma quota de 68% e 11%, respetivamente.

Na categoria de fusos de texturização com aquecedor duplo (principalmente empregue em filamentos de poliéster), a tendência positiva continua, com os envios mundiais a subirem 50% em termos anuais, para cerca de 490 mil fusos. A quota da Ásia aumentou para 93%. A China continua a ser o maior investidor, representando 68% de todos os envios.

Tecelagem e tricotagem

As entregas de teares sem lançadeira aumentaram 39%, para 133.500 unidades, as de máquinas de malha circular desceram 4% e as de máquinas eletrónicas de malha retilínea diminuíram 20%.

Em 2018, os envios mundiais de teares a jato de ar subiram 21%, para 32.750, e os teares a jato de água registaram um crescimento de 91%, para 69.240. Mas as entregas de teares de pinças/projétil baixaram 5%, para 31.560.

O principal destino dos teares sem lançadeira em 2018 foi a Ásia e Oceânia, com 93% de todas as entregas. 92% dos teares a jato de água, 83% dos teares de pinças/projétil e 99% de todos os teares a jato de ar tiveram como destino a mesma região. Os principais investidores foram a China e a Índia em todas as três categorias. As entregas de teares nos dois países acumularam 81% de todas as entregas. A Turquia e o Bangladesh também tiveram um papel importante no segmento de teares de pinças/projétil, com um valor combinado de 18% dos envios mundiais.

Já as entregas mundiais de máquinas de malha circular baixaram 4%, para 26.300 unidades em 2018 – com a Ásia e Oceânia a ser novamente a região que mais investiu na categoria, com 85% de todos os teares de malha circular a serem enviados para a região. Com 48% das entregas mundiais, a China foi a maior investidora. A Índia e o Vietname surgem em segundo e terceiro lugar, com 2.680 e 1.440 unidades, respetivamente.

As entregas de teares de malhas retilíneas também baixaram, descendo 20%, para cerca de 160 mil unidades. A Ásia e Oceânia foram o principal destino, com uma quota de 95% dos envios mundiais. A China destaca-se como principal investidor, com uma quota de 86% dos envios totais, apesar de uma queda nos investimentos de 154.850 unidades para 122.550 unidades.

Acabamentos

No segmento de acabamentos, o total de máquinas enviadas para todo o mundo na categoria de produção contínua de tecidos baixou 0,5%, enquanto as classificadas como “descontínuas” desceram 1,5% em termos anuais.

No segmento de produção em contínuo, os envios subiram para a lavandaria (+58%), gasagem (+20%), secagem (+9%), ramulagem (+3%) e sanforização (+1%). As entregas noutros subsegmentos diminuíram.

Nos processos em descontínuo, os envios de máquinas de secagem a jato de ar subiram 16% e as entregas de máquinas de tingimento por esgotamento diminuíram 7%.

Domínio absoluto

O país não é apenas o maior produtor de fibras e tecidos – representando mais de metade (54,8%) da produção mundial em 2017, como é também o maior exportador, com envios que atingiram, nesse ano, 109,9 mil milhões de dólares (cerca de 99,6 mil milhões de euros), equivalente a uma quota de 37,1% do total mundial.

A China também exportou vestuário no valor de 158,4 mil milhões de dólares em 2017, o que lhe dá uma quota mundial de 34,9% – e a maior quota de mercado junto dos três maiores importadores: EUA, UE e Japão.

Grande parte desta força deve-se ao tamanho da sua base de aprovisionamento, diferentes capacidades, níveis de qualidade e variedade de produtos – e a complementaridade da cadeia de aprovisionamento, da matéria-prima aos tecidos, passando pelo tingimento, acabamentos e produtos finais.

O crescimento tem sido também ajudado pelo investimento em unidades produtivas têxteis onde o equipamento moderno está a melhorar a eficiência e a qualidade, ao mesmo tempo que está a baixar os custos de produção – permitindo às fábricas chinesas compensar a pressão de leis ambientais cada vez mais exigentes.

Mas há também, aponta o just-style.com, mudanças subtis a acontecer na competitividade das exportações de vestuário da China – uma tendência exacerbada pelas tensões comerciais em curso com os EUA e preocupações com a possibilidade de taxas adicionais sobre as importações de têxteis e vestuário. Ao mesmo tempo, a quota da China nas exportações mundiais de têxteis está a crescer, alimentada por uma crescente procura de muitos países exportadores de vestuário na Ásia.

Em termos de valor, 47% das importações têxteis do Bangladesh foram provenientes da China em 2017, em comparação com 39% em 2005. Tendências semelhantes foram registadas no Camboja (de 30% para 65%), Vietname (de 23% para 50%), Paquistão (de 32% para 71%), Malásia (de 25% para 54%), Indonésia (de 28% para 46%), Filipinas (de 19% para 41%) e Sri Lanka (de 15% para 39%).

Isto deve-se, em parte, à emergência de mais padrões regionais no comércio mundial de têxteis e vestuário e das redes de produção, com uma análise do just-style.com a destacar que quase 80% das importações têxteis na Ásia são provenientes da região em 2017.

«Com os salários relativamente mais baixos, os países menos desenvolvidos tipicamente têm os processos de produção de vestuário mais intensivos em termos de mão de obra», explica Sheng Lu, professor associado no Departamento de Estudos de Moda e Vestuário da Universidade do Delaware. «Além disso, vários acordos regionais de comércio livre – como o ASEAN-China e o ASEAN-Japão – também ajudaram através da eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias», acrescenta.

Investimentos na Ásia

As mudanças nas estratégias de sourcing de marcas e retalhistas de moda, numa altura em que estão a mudar as encomendas para diversificar as suas bases de aprovisionamento, têm igualmente um papel preponderante. Um estudo recente concluiu que 83% das empresas americanas de moda planeiam reduzir o seu sourcing da China nos próximos dois anos devido a preocupações com a ameaça de novas taxas – com os principais beneficiários a serem outros fornecedores na Ásia.

Mas muito do investimento têxtil em todo o mundo está a ser financiado por empresas chinesas – que estão a liderar no que diz respeito a expandir a produção e o processamento de matérias-primas no estrangeiro. Este investimento ajuda a assegurar um aprovisionamento estável, permitindo também que tenham acesso a custos energéticos e de mão de obra mais baixos e beneficiem de regras de origem preferenciais dentro dos acordos de comércio livre.

O papel da China nas cadeias de aprovisionamento está a mudar igualmente de outras formas. O país está a emergir como um dos maiores mercados de consumo mundiais – e a maioria das peças de vestuário compradas na China são confecionadas na China, com tecidos ou malhas feitos na China. O que significa que grande parte do investimento atual e futuro em maquinaria têxtil deverá focar-se em responder à procura dos seus próprios consumidores – e pode levar a concorrência da capacidade de exportação exigida pelas marcas e retalhistas ocidentais e outros fornecedores asiáticos.