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ITV coreana no limbo

Com a tensão mundial a continuar a aumentar devido ao programa nuclear da Coreia do Norte, as consequências já se alargaram ao complexo industrial inter-coreano Kaesong, onde o trabalho nas unidades de produção de têxteis e vestuário da área parou depois de 53 mil norte-coreanos terem faltado ao trabalho. O parque industrial na cidade fronteiriça da Coreia do Norte de Kaesong alberga 123 empresas sul coreanas que empregam norte-coreanos como funcionários na área da laboração. Lee Yeon-Du, porta-voz do Ministério da Unificação da Coreia do Sul, revela que «as empresas ligadas ao têxtil – produtoras de tecidos e vestuário – representam 60% dos negócios». Noeul Kang, diretor-adjunto da divisão de administração geral do Ministério, indica que quando as operações foram suspensas, 122 das empresas do complexo listadas num relatório de 2011 do Serviço de Investigação do Congresso do Congresso dos EUA ainda estavam a trabalhar nas atividades de produção mencionadas no relatório. Esta lista de 122 empresas, incluindo vários produtores de calçado assim como de têxteis e vestuário, foi elaborada com base nos dados de fevereiro de 2011 do Ministério. «Desde então, mais uma empresa – a Ohryun Kaeseong Company, que produz vestuário – iniciou as operações no complexo. Por isso, atualmente estão lá 123 empresas», acrescenta Kang. Suspensão das operações Desde o dia 9 de abril, quando a Coreia do Norte retirou os seus trabalhadores e não autorizou os serviços programados de transporte por autocarro para os transportar para o complexo, «as operações de produção no parque industrial pararam», afirma Lee. «O fornecimento de matérias-primas para a zona também ficou num impasse» depois da Coreia do Norte ter anunciado a 3 de abril que não deixaria entrar pessoal e materiais da Coreia do Sul no complexo porque «alimentava as tensões ao longo da zona desmilitarizada que separa as Coreias», acrescenta Lee. «As empresas do complexo usam matérias-primas transportadas do Sul», explica. Embora a Coreia do Norte tenha proibido os trabalhadores da Coreia do Sul de entrar no parque industrial desde 3 de abril, continua a permitir que os sul-coreanos no complexo regressem a casa, no Sul. Após a suspensão das operações, muitos cidadãos sul-coreanos «não queriam deixar as empresas em Kaesong rapidamente e dirigir-se para o Sul porque não poderiam voltar a entrar no complexo», refere Lee. Atualmente, «há 296 sul-coreanos e um chinês que ficaram no complexo, com 110 locais e um estrangeiro a terem viajado para o Sul a partir daí. Antes das operações terem sido interrompidas, havia normalmente 400 a 500 trabalhadores estrangeiros [de fora da Coreia do Norte] no parque todos os dias», aponta o porta-voz do Ministério da Unificação da Coreia do Sul. Futuro em dúvida Um responsável da Associação de Empresas Sul-Coreanas no Complexo Industrial de Kaesong diz que «os envios de vestuário acabado e outros produtos do complexo foram descontinuados». O responsável, que pediu anonimato, é um funcionário de uma empresa de produção de vestuário do parque. Segundo indica, devido à proibição de viajar da Coreia do Sul para o complexo, os camiões de carga não podem vir do Sul para carregar as encomendas e entregá-las. E acrescenta que é impossível prever quando é que a situação poderá ser resolvida e permitir que os envios sejam retomados. Apesar do crescente ceticismo em relação ao destino do último símbolo de cooperação económica entre as Coreias, as empresas do parque não estão preocupadas com a possibilidade de Pyongyang poder desmantelá-las ou confiscar os seus bens, refere o mesmo responsável. Por isso não planearam medidas para proteger as suas posições no pior dos cenários, acrescenta. Outro trabalhador de uma das empresas do complexo, que também pediu anonimato, concorda que as empresas consideram esse cenário irrealista e que a Coreia do Norte não tomará posições tão drásticas. «As empresas acreditam que as leis em ambas as Coreias que estabeleceram o complexo industrial de Kaesong – leis que Seul e Pyongyang acordaram em conjunto – asseguram a proteção dos seus investimentos assim como a continuação da existência das empresas», justifica. Em todo o caso, de acordo com Lee, as empresas podem recuperar até 90% dos investimentos caso se tenham prevenido em relação ao risco financeiro, com a assinatura do seguro de cooperação económica inter-Coreias. Mas um responsável da Federação das Indústrias Têxteis da Coreia [do Sul] sublinha que 90% é bastante menos do que as empresas querem como compensação. «Essa soma não é suficiente para eles criarem outro negócio noutro local e é muito menor do que receberiam se o complexo estivesse a funcionar», aponta. «Tudo o que as empresas podem fazer é esperar que os governos da Coreia do Norte e do Sul cheguem a uma solução para a situação», conclui.