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ITV da América Latina em risco

Com as fábricas a fecharem, quer por ordem governamental, quer por falta de encomendas, a indústria têxtil e vestuário da América Latina e os seus trabalhadores estão a lutar para se manter no negócio.

Nicarágua

Quase 50 mil trabalhadores em El Salvador, 26 mil nas Honduras e 6.000 na Nicarágua foram despedidos sem qualquer regalia, segundo a federação de sindicatos de El Sanvador Feasies, que está a apelar ao apoio dos Governos e das marcas internacionais para contribuírem para uma solução.

«Estamos a receber chamadas de ajuda todos os dias, de pessoas que não têm comida. São famílias, mães solteiras com dois ou três filhos para alimentar, por isso é muito difícil», revela Marta Saldana, secretária-geral da federação sindical, ao just-style.com.

Nem todos estão desamparados, com 23 mil dos cerca de 80 mil desempregados a receberem de empresas como a Gildan e a Fruit of Loom 65% dos salários enquanto estão em casa.

Na Nicarágua, foram despedidos cerca de 35 mil trabalhadores, embora 74 mil ainda estejam empregados em fábricas que produzem para gigantes como a Amazon e a Wal-Mart, com as encomendas a não terem sido gravemente afetadas. Outros estão a fazer máscaras e diferentes equipamentos de proteção individual, que são exportados para os EUA ou ficam nos respetivos países para utilização local.

A Guatemala, que tem os preços médios mais elevados na América Central, continuou a fazer vestuário numa capacidade reduzida, sobretudo também por causa da Amazon e da Wal-Mart. Há, contudo, fábricas que começam a parar, de acordo com o just-style.com. Segundo Alejandro Ceballos, presidente da Vestex – Asociación de la Industria del Vestuario y Textiles, há cerca de 60 mil postos de trabalho em risco, prevendo-se ainda uma queda das exportações.

Peru regressa ao ativo

No Peru, estão a ser desenvolvidos esforços para manter centenas de milhares de postos de trabalho. Mais de 200 empresas retomaram as atividades no dia 11 de maio, após quase dois meses de paralisação devido ao Covid-19, numa altura em que as autoridades tentam reativar a economia nacional.

Peru

«Temos 208 empresas habilitadas nas áreas têxtil e de vestuário, comércio eletrónico e restaurantes. Isso significa que (…) essas 208 empresas estariam em condições de oferecer os seus serviços», afirma a Ministra da Produção, Rocío Barrios, citada pelo jornal brasileiro Correio.

A ordem de confinamento em vigor no Peru proíbe toda atividade comercial, exceto nas áreas essenciais, como alimentação, farmácias e bancos, mas o Governo lançou um plano de recuperação económica em três fases entre maio e agosto.

A indústria têxtil e vestuário do Peru cresceu nos últimos anos e, por isso, segundo Vicente Castro, secretário-geral da Federación de Trabajadores en Tejidos del Perú (FTTP), possui liquidez suficiente para proteger os trabalhadores por mais alguns meses, até a economia recuperar a normalidade. «No ano passado crescemos 5%, muito mais do que estávamos à espera», afiança ao just-style.com. «A indústria beneficiou muito da chegada de novas marcas internacionais, como a Nautica», aponta. Algumas das maiores produtoras de vestuário do Peru (Creditex, Textil del Valle e Nuevo Mundo) tal como muitas das suas homólogas à escala mundial, passaram a fabricar equipamentos médicos como máscaras e outros artigos de proteção pessoal para compensar as perdas, adianta o secretário-geral da FTTP. Os produtores e os retalhistas de vestuário estão ainda a pedir ajuda financeira ao Governo, através de uma linha de crédito de 8,9 mil milhões de dólares (8,18 mil milhões de euros), destinada a apoiar várias indústrias. «Ainda não sabemos quanto vamos pedir nem quanto nos podem dar», admite Raul Ortiz, responsável da missão têxtil da associação das indústrias nacionais. O sector está também a exigir a aprovação de novas medidas de preço de referência para evitar que as importações asiáticas subvalorizadas continuem a prejudicar os rendimentos da indústria. «Também queremos que as pessoas comecem a consumir mais “made in Peru” e menos “made in USA”», explica. «Tudo o que diga respeito ao vestuário deve provir de marcas peruanas nesta emergência e isso também inclui roupas hospitalares, máscaras e uniformes das forças armadas que patrulham as cidades durante o isolamento», considera Ortiz.

Haiti proíbe exportações de máscaras

Já no Haiti, a indústria têxtil voltou mais cedo ao trabalho, numa altura em que o Governo prometeu distribuir 20 milhões de máscaras pela população. O Executivo, no entanto, culpa o sector por não ter sido capaz de dar resposta e está agora a proibir a exportação até que cada fábrica entregue ao Governo pelo menos 500 mil máscaras a um preço pré-determinado.

Haiti

«Vamos apenas dar autorização à exportação se eles nos entregarem entre 500 mil e um milhão [de máscaras]. Quem não conseguir cumprir este número não terá autorização», anunciou o Primeiro-Ministro do país, Joseph Jouthe, numa entrevista à rádio Magik 9, acrescentando que o presidente da Association des Industries d’Haiti pediu autorização para que algumas fábricas do país possam exportar máscaras. «É uma aberração. Primeiro, nunca foram capazes de entregar as máscaras que prometeram que iam produzir. Segundo, não posso dar autorização para exportar máscaras quando esse não era o acordo que tínhamos», assume Joseph Jouthe.

Não obstante, há uma empresa, cuja identidade não foi revelada, que tem já autorização para exportar máscaras.