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ITV da Roménia em queda

Os dias em que a indústria têxtil e vestuário romena estava na vanguarda em todo o Bloco Oriental já lá vão. Agora, no ano que festeja o 30.º aniversário da revolução que derrubou o regime comunista, o quadro não é tão feliz, com a queda do emprego, da produção e das exportações, face a uma subida do défice e importações do sector.

Sob a presidência de Nicolae Ceaușescu, entre 1965 e 1989, a indústria têxtil e vestuário (ITV) da Roménia conheceu numa fase de prosperidade. Apresentando a segunda maior capacidade produtiva têxtil de todos os países das regiões da Europa Central, Oriental e sudeste asiático, que compunham o Bloco Oriental, dirigido pela URSS, chegou a empregar, no último ano da ditadura comunista, mais de 800 mil trabalhadores.

Contudo, após a revolução de 1989 que derrubou o regime comunista, várias empresas foram privatizadas, a ITV substituiu a produção em massa pelas pequenas quantidades de elevada qualidade e as exportações começaram a dirigir-se para os países ocidentais. De facto, desde 2007 – altura em que a Roménia se juntou à União Europeia – que a produtora de vestuário Faberrom (propriedade pública durante a era comunista) prioriza os clientes do luxo, tendo reduzido a mão de obra de 20 mil trabalhadores para 200, assim como a produção, que caiu de 7.000 para 350 peças diárias.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística da Roménia (INSSE, na sigla original), atualmente, a ITV do país emprega apenas cerca de 148 mil trabalhadores e perto de 135 mil postos de trabalho foram perdidos durante os 10 anos que se seguiram à adesão à UE, devido ao aumento da concorrência internacional, à crise financeira e aos impostos crescentes, que desencorajaram o investimento externo.

Não obstante, Mihai Pasculescu, presidente da Fepaius, a federação da indústria têxtil, vestuário e couro romena, aponta que o sector primário – fiação, tecelagem e acabamentos – teve poucas oportunidades para se recentrar em nichos de mercado, dada a escassez de capital e condições restritivas de crédito. «Se tivéssemos de identificar uma área problemática, seria o sector primário, enquanto a tricotagem retilínea e a confeção de vestuário, calçado e couro são áreas já consolidadas», afirma.

Apesar disso, os dados da Euratex (Confederação de Vestuário e Têxteis Europeia) indicam que a indústria têxtil romena registou um melhor desempenho do que a do vestuário no ano passado: as exportações têxteis aumentaram 11,9%, assim como as importações 6,6%, enquanto as exportações de vestuário diminuíram 4,5% face a um crescimento exponencial das importações de 20,5%.

Importações pesam

Segundo o sindicato global IndustriAll, os salários praticados na ITV romena estão perto do mínimo nacional de 440 euros por mês. No entanto, embora o governo tenha aumentado o salário mínimo nos últimos anos, os trabalhadores sofreram uma forte pressão em 2017, quando as contribuições para a segurança social passaram a sair do seu bolso, deixando-os com um salário líquido mensal que agora ronda os 250 a 300 euros mensais.

Deste modo, a Roménia tem vindo a tornar-se progressivamente menos competitiva a nível internacional, começando a ser substituída por outros países do Leste da Europa, como a Bulgária, Moldávia, Ucrânia e Geórgia, onde os custos de produção são menores. Com efeito, desde 2016 que a balança comercial de artigos têxteis, vestuário e couro romena é negativa – no ano passado, as importações chegaram aos 7,12 mil milhões de euros, mais 1,2 milhões de euros do que as exportações.

A diretora da Fepaius, Lavinia Cristea, justifica este défice pela procura de materiais importados por parte dos fabricantes de tecidos romenos, que os integram no seu processo de produção. Além disso, também os retalhistas estrangeiros exercem um forte peso sobre as importações romenas, representando 97% do consumo de moda do país, de acordo com a empresa de estudos de mercado MKOR Consulting. De facto, só na área metropolitana de Bucareste, os melhores locais de comércio são ocupados pelas gigantes internacionais Inditex, H&M e C&A. Em 2018, a Zara Bucareste atingiu um volume de negócios de 487 milhões de euros, um crescimento de 7% face ao ano anterior, e cada loja da marca na Roménia obteve um lucro bruto de 550 mil euros, 5,5 vezes superior aos resultantes das mesmas lojas na Alemanha.

Por consequência, a Roménia começa a sentir os efeitos de uma imagem decadente que a associa a uma diminuição contínua da sua rentabilidade.

Vantagens compensam desafios?

Apesar das dificuldades que possam pesar sobre a atratividade comercial da Roménia, os produtores de vestuário do país possuem algumas vantagens que os diferenciam de outros fornecedores, nomeadamente a combinação de um elevado know-how com um conhecimento extenso e profundo das necessidades das marcas.

Andrei Pena, diretor da revista Dialog Textil, está otimista em relação ao futuro a curto prazo da Roménia, que defende que o sector do vestuário está em fase de progressão, substituindo as marcas baratas por aquelas que privilegiam a qualidade. Pena garante também que algumas empresas internacionais dão uma clara preferência à Roménia, como é o caso da marca Moncler que fortaleceu a sua presença no país com a compra de uma fábrica em Bacau, através da subsidiária Industries Yield.

Contudo, apesar do crescimento significativo do PIB, a Roménia continua a debater-se com uma longa lista de problemas que afetam a ITV: envelhecimento da população, emigração de mão de obra especializada, diminuição da competitividade pelo preço, corrupção persistente e imprevisibilidade do ambiente negocial. A isto acresce a deterioração do índice de Facilidade em Fazer Negócios, no qual o país desceu da 35.ª posição para a 52.ª, entre 2015 e 2018.

Por outro lado, a MKOR Consulting prevê uma queda contínua da produção e exportações no sector da moda – estima-se que, no final do ano, a produção atinja os 3,47 mil milhões de euros, uma descida anual de 3%, enquanto as exportações devem situar-se nos 3,38 milhões de euros, o que significa menos 1,5% do que no ano anterior.