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ITV da Tunísia aposta nas áreas rurais

As empresas têxteis e de vestuário tunisinas querem deslocalizar a produção dos centros industriais tradicionais do país para regiões mais rurais e remotas a fim de reduzir custos, mas esbarram na complexidade da burocracia governamental e no incumprimento de incentivos prometidos pelo próprio governo.

[©Unplash]

A produção de têxteis e vestuário na Tunísia está atualmente focada nas cidades costeiras de Monastir e Sfax para beneficiar de menores custos e maior oferta de mão-de-obra.

Tarek Haj Ben Ali, fundador e CEO do produtor de vestuário de trabalho Walkman Group, sediado em Sousse, no norte de Monastir, regozija-se com os incentivos do governo «para abrir novas fábricas nas regiões menos desenvolvidas da Tunísia». Entre os apoios estatais estão a isenção de impostos e tarifas e, sobretudo, o pagamento das contribuições dos trabalhadores para a segurança social.

A Sartex, por exemplo, abriu duas fábricas no interior do país. Uma das novas unidades fabris da produtora de denim, que fornece grandes marcas europeias, está localizada em Tozeur, perto do Sahara tunisino, e emprega 800 trabalhadores, enquanto a outra situa-se próximo da cidade sagrada de Kairouan, no interior da Tunísia, e tem 400 funcionários.

Sourcing de proximidade

A possibilidade das empresas tunisinas acederem a custos laborais mais baixos nessas áreas é importante, uma vez que a pandemia atingiu severamente a indústria têxtil e vestuário do país. «O sector têxtil e vestuário conta com 1.600 empresas que empregam aproximadamente 160 mil pessoas, mas na sequência do Covid-19 assistimos ao encerramento de cerca de 60 empresas e à demissão de quatro mil trabalhadores», explica Haj Ali ao just-style.com.

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No entanto, com o fim da pandemia à vista, o CEO do Walkman Group afirma que há «um interesse renovado por parte dos clientes [europeus] no sourcing de proximidade, e a rapidez de resposta e capacidade de produzir pequenas encomendas são pontos fortes da Tunísia, portanto, há muitas oportunidades a aproveitar».

Além disso, as empresas tunisianas também tentam satisfazer a procura por produtos sustentáveis, investindo na minimização do impacto ambiental da produção, na responsabilidade social e na economia circular/reciclagem têxtil – tudo alinhado com a criação de fábricas menores erigidas em áreas de maior desemprego, como o interior da Tunísia.

Processos burocráticos

Apesar da ajuda do governo, instalar novas fábricas em áreas não industriais tem-se revelado tarefa árdua. Haithem Bouaglia, membro executivo da FTTH (Fédération Tunisienne du Textile et de l’Habillement) garante que «os principais problemas residem na falta de clareza da lei e dos regulamentos, assim como na complexidade dos processos burocráticos».

O diretor-geral da Tunicotex, produtora de vestuário em Nabeul, no litoral próximo da capital Túnis, acrescenta que há regulamentação desnecessária, complexa e associada aos documentos em papel. Haj Ali, por sua vez, refere que embora os funcionários governamentais estejam dispostos a intervir e resolver problemas, as novas fábricas têm enfrentado dificuldades financeiras. «O verdadeiro problema tem sido o pagamento das taxas da segurança social dos trabalhadores, isso não aconteceu», salienta.

Complicações acrescidas

As empresas que pretendem instalar novas unidades produtivas não podem simplesmente solicitar permissão para construir fábricas e cumprir a legislação. Para edificar uma nova fábrica, a empresa-mãe tem de abrir uma empresa completamente nova para gerir a fábrica, com sistemas de contabilidade e contas bancárias separadas.

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Segundo o CEO do Walkman Group, a instabilidade política agravou a situação. «Tivemos tantos ministros da Indústria diferentes nos últimos anos», reconhece. «Aqueles que tiveram sucesso foram capazes de desenvolver capacidades de inovação e, acima de tudo, diversificação na base de clientes e de mercados», admite.

Já Haithem Bouaglia assegura que a FTTH e os seus membros têm tentado negociar com o governo para aclarar a legislação de forma a facilitar a abertura de novas fábricas. Haj Ali sublinha que o governo precisa de levar esses pedidos a sério, porque os incentivos atuais muitas vezes não são suficientes para permitir que as empresas têxteis e de vestuário aproveitem a força de trabalho desempregada qualificada existente nessas regiões rurais. «Isso requer a implementação de um ecossistema favorável ao investimento e, acima de tudo, uma infraestrutura moderna e eficiente», conclui.