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ITV da Tunísia em dificuldades

A indústria têxtil e vestuário tunisina está a alertar para um enorme prejuízo comercial e humanitário devido ao cancelamento de encomendas e interrupções na produção resultante da atual crise do novo coronavírus, numa altura em que se dedica à produção de máscaras sociais.

De acordo com o vice-presidente da Fédération Tunisienne du Textile et de l’Habillement (FTTH), Nafaa Ennaifer, a indústria têxtil e vestuário do país, um importante mercado de aprovisionamento, enfrenta dificuldades graves.

«O grande problema é a liquidez porque os clientes cancelaram encomendas [entre estações]», revelou ao just-style.com, adiantando que os produtores compraram matérias-primas dispendiosas que podem não ser usadas. «Por exemplo, uma empresa detida por italianos que fornece vestuário em malha para a Hugo Boss e a Replay desembolsou 9 milhões de euros em fio», exemplificou.

Ennaifer está ainda profundamente preocupado com a mão de obra da indústria. «Há uma questão real de responsabilidade social para com os nossos trabalhadores. Atualmente, apenas lhes podemos pagar o salário de março – depois disso, estão efetivamente desempregados», indicou.

No dia 19 de abril, o presidente do país, Elèys Fakhfakh, anunciou o prolongamento do confinamento até 3 de maio. E o Ministro da Saúde da Tunísia, Abdellatif Mekki tinha já afirmado anteriormente que o confinamento pode continuar no resto do ano. Isto levantou preocupações na FTTH em relação à retenção de mão de obra qualificada.

Atualmente, tal como acontece em Portugal, algumas empresas da indústria converteram a sua produção para fazer máscaras sociais. Segundo Hosni Boufaden, presidente da FTTH, as máscaras estão a ser produzidas com as matérias-primas disponíveis no mercado local, serão reutilizáveis e laváveis até 20 vezes. Já o preço será fixado pelo Ministério da Indústria, não contemplando margem de lucro nem para os produtores, nem para os retalhistas, noticia o Tunisie-Tribune.

E depois da pandemia?

O vice-presidente da FTTH expressou receio em relação ao comércio após a pandemia. «Não sabemos como o mercado se vai comportar ou como os nossos clientes se irão comportar no final do confinamento. Não sabemos se seremos capazes de comprar a crédito e como iremos pagar aos nossos trabalhadores. Embora seja compreensível que as empresas se estejam a focar nas necessidades dos seus trabalhadores locais, os retalhistas de vestuário têm de aceitar que se escolheram um modelo de negócio que depende do trabalho de milhões de trabalhadores de vestuário no estrangeiro, então essas pessoas são também seus trabalhadores», explicou ao just-style.com.

Nafaa Ennaifer

«Respeito o problema, mas também tenho um problema. É o nosso problema. É um problema do planeta inteiro, é um problema de toda a indústria», realçou. «Falamos de responsabilidade, parceria, cooperação, colaboração. Para onde foram essas palavras agora?», questionou Nafaa Ennaifer.

A indústria têxtil e vestuário é o segundo maior sector de exportação da Tunísia, a seguir à eletrónica, representando uma quota de 22% do total. O país conta com cerca de 1.600 empresas nesta indústria, que empregam 160 mil pessoas, de acordo com o site Afrik 21,  que exportaram em 2019, segundo os dados da Agence de Promotion de l’Industrie er de l’Innovation, 7,68 mil milhões de dinares tunisinos, equivalente a 2,43 mil milhões de euros.

Governo toma medidas

O Governo e o Banco Central da Tunísia anunciaram medidas de emergência para apoiar os negócios, como a redução das taxas de juro, o adiamento do pagamento de impostos e o apoio aos bancos para emprestarem com a moratória de pagamentos.

Foi anunciado um fundo de 2,5 mil milhões de dinares tunisinos (cerca de 791,2 milhões de euros) e fundos adicionais, incluindo um fundo de 400 milhões de dólares (cerca de 368,3 milhões de euros) do Fundo Monetário Internacional (FMI), para ajudar a Tunísia, o seu povo e negócios a sobreviver à crise causada pelo Covid-19.

Mas o Governo também assumiu uma linha de ação musculada nas operações, com o Primeiro-Ministro Elèys Fakhfakh a fechar as fábricas de vestuário a 21 de março. Apenas as que têm licenças especiais para produzir vestuário de proteção, como máscaras e batas cirúrgicas, continuam em laboração. Um confinamento inicial de duas semanas para todos os tunisinos começou no dia seguinte e ainda se prolonga.

Ezzedine Saidane

O economista tunisino Ezzedine Saidane afiançou ao just-style.com que os fundos e medidas propostas não são suficientes. «É preciso adiar os pagamentos em termos de empréstimos, impostos e contas de eletricidade e é preciso ter a certeza que as empresas podem aceder a empréstimos adicionais para manterem o seu negócio a funcionar», elucidou.

A pandemia do novo coronavírus está a impactar os países produtores de vestuário em todo o mundo, com as marcas e retalhistas a retirarem encomendas e a interromperem os envios devido à queda das vendas e encerramento das lojas.

Os exportadores indianos afirmam que o confinamento terá pouco impacto, uma vez que as encomendas tinham já sido canceladas, enquanto as fábricas no México e na América Central estão a encerrar por imposição governamental. Os produtores no Bangladesh já pediram apoio financeiro.