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ITV de vento em popa

A indústria têxtil e vestuário do México antecipa um aumento das receitas de 4% em 2015, impulsionado pela recuperação das exportações dos EUA e pelo dinamismo da procura interna.
 

«O dólar está a favorecer as exportações e as vendas locais poderão aumentar entre 3% a 4%», afirma Arturo Vivanco, presidente da filial da associação comercial Canaive, localizada no estado mexicano de Jalisco.

O executivo prevê um aumento de 10% das exportações, para 4,5 mil milhões de dólares por ano, impulsionadas por um forte aumento no primeiro semestre e recuperação da contração de 10% a 15% assinalada em 2014, a par do abrandamento da procura americana. O consumo interno deverá, também, subir 3% a 4%, fixando-se em 21,5 mil milhões de dólares, face a um declínio de 2% no ano passado, impulsionado por um fortalecimento da economia.

A capital do estado de Jalisco é a segunda maior cidade do México, Guadalajara, que se tornou líder na produção de vestuário de valor acrescentado do país, revela Vivanco.

Os crescentes custos de produção e problemas na China e continente asiático continuam a beneficiar o México e a América Latina, com diversas marcas americanas focadas no estabelecimento de novos contratos de terceirização com o país vizinho, onde as expedições de mercadorias podem chegar em 12 horas ao invés de semanas.

Em acréscimo, a valorização do dólar, que subiu para 16 pesos mexicanos no ano passado, «significa que os compradores americanos podem, agora, obter grandes descontos de mercadoria», destaca o empresário, cuja empresa Confecciones Vivanco fabrica calças para a C&A.

A indústria beneficia, também, de um pacote de resgate governamental, introduzido em dezembro último, que permitirá contrabalançar a abundância de merchandising subvalorizado, que ameaçava ferir a produção local. Isso, juntamente com o aumento do emprego, decorrente de uma economia saudável, está a impulsionar a procura local de vestuário por parte do segmento de menores rendimentos, que aufere 200 a 400 dólares por mês.

«Vemos sectores, como a construção civil, transportes, energia e petroquímico a crescerem muito e a criar emprego para as classes trabalhadoras», indica Lucio Nieto, proprietário e diretor-geral do fabricante de vestuário D’Nieto. «Isso está a impulsionar as vendas de vestuário mais básico, como jeans», explica.

Nieto acrescenta que o crescimento económico permanece robusto (excluindo o efeito negativo da queda dos preços do petróleo e de produção), impulsionando as vendas de vestuário no segmento médio-alto, com cadeias como Zara, H&M e outras a ampliarem os seus elevados lucros.

A expansão do crédito de retalho está, também, a alimentar alguns dos ganhos das vendas domésticas anuais, mas pode conduzir à criação de uma bolha nos próximos 12 a 16 meses, adverte Vivanco.

Nieto discorda, no entanto, afirmando que o consumo atual é «natural e decorre de financiamento real».

Made in Mexico
A indústria deve investir no combate ao “malinchismo” (um termo que descreve a obsessão dos mexicanos por produtos estrangeiros, incluindo vestuário), promovendo os benefícios e confiabilidade do vestuário “made in Mexico”.

Para esse fim, Vivanco afirmo que a Canaive Jalisco está a coordenar o lançamento de uma campanha de marketing intitulada “Prefiere lo Nuestro” (Prefere o que é nosso, em português) para desmistificar a perspetiva pejorativa face ao vestuário produzido localmente.

Simultaneamente, o lobby do comércio está a instigar as cadeias de moda internacionais, como Zara, H&M, Forever 21 e C&A, a abastecerem-se localmente, criando postos de trabalho.

Nesse esforço, os executivos da Canaive reunirão, brevemente, com o líder do grupo de comércio a retalho Antad e entidades governamentais para a criação de um regulamento que obrigue essas empresas a produzir 20% do vestuário vendido no México em território doméstico.

«Eles devem compreender que, se não geram postos de trabalho no México, as pessoas não terão um peso para comprar as suas roupas», afirma Vivanco. «Diversas marcas repatriam os lucros para os seus países, enquanto o desemprego permanece elevado no México».

Nova ameaça
No entanto, Vivanco diz que uma nova ameaça emerge no horizonte: as roupas usadas. De acordo com o presidente, o vestuário em segunda mão está a tornar-se cada vez mais prevalente em mercados de rua e os volumes poderão aumentar 20% a 30% este ano.

«Vemos todos os tipos de roupas, incluindo roupas íntimas masculinas e sutiãs e cuecas de mulher», revela Vivanco. «Como pode o Ministério da Saúde permitir que essas roupas sejam vendidas?»

«Queremos que sejam proibidos de forma a proteger os cidadãos de doenças de pele e outras, não apenas a indústria», acrescenta.

A Canaive está, também, a pressionar o governo para aumentar os raids a entidades de crime organizado que transacionam vestuário contrafeito. O sector admitiu a derrota pela sua incapacidade, no ano passado, de diminuir a venda desses artigos para 4 em 10, face aos 6 em 10 atuais.

Vivanco considera que combater a pirataria se tornou praticamente impossível no México, porque grande parte do comércio, que também inclui componentes para automóveis, medicamentos e outros bens, é executado pelo crime organizado e os cartéis de drogas usam-no para lavar dinheiro.

Valor acrescentado
Paralelamente, a cadeia têxtil e de vestuário procura internacionalizar a sua oferta. No entanto, acredita Vivanco, é necessário um plano mais eficiente para transformar o México num fabricante de moda de valor acrescentado, ao invés de um fornecedor menor de vestuário básico para os EUA.

«Fabricamos tecidos de valor acrescentado como jeans, calças cáqui e misturas de algodão e poliéster, mas ainda não temos produção técnica e maior diversificação de tecidos», explica Vivanco, acrescentando que será necessário um amplo investimento para diversificar a base industrial.

Nieto alerta que a indústria deve, também, seguir uma integração profunda. «A Canaive tem de prosseguir uma estratégia nacional mais ambiciosa para integrar a cadeia, do fio à loja», admite. «Alguns segmentos da indústria têm-se consolidado, mas estão a agir como “eu contra o mundo”. Eles não querem estabelecer uma ligação com os outros».

«Tomemos de exemplo a Itália, onde existe uma estratégia nacional de tal forma integrada que mantém a produção, a comercialização e o desenvolvimento de vestuário e processos de qualidade em segredo», aponta Nieto. «Lá, uma tonelada de tecido pode ser comprada por 100 dólares e vendida por 10.000 dólares».

«Esse é o tipo de integração de que necessitamos», resume Nieto.