Início Notícias Mercados

ITV do Haiti sobrevive ao mau tempo

A destruição provocada pelo Furacão Matthew no Haiti não terá afetado as exportações de têxteis e vestuário do Haiti, que deverão mesmo aumentar 10% este ano. O país, contudo, enfrenta outros desafios, nomeadamente a concorrência de países asiáticos e da América Central.

Este ano, as exportações de têxteis e vestuário do Haiti deverão aumentar 10%, para quase 550 milhões de dólares (cerca de 500,3 milhões de euros), deixando o sector praticamente incólume à passagem do Furacão Matthew, uma vez que a maior parte das fábricas estão localizadas fora da zona de impacto. «A maior parte das fábricas de vestuário estão localizadas em Port-au-Prince e no norte do país, que não foram afetados», explica Fernando Capellan, presidente e proprietário da empresa de confeção Grupo M, em declarações ao just-style.com. «Isto não vai afetar as exportações, que vão, de facto, continuar a crescer fortemente», acrescentou.

O furacão Matthew atingiu a parte mais ocidental da ilha, sobretudo as áreas Jeremies e Les Cayes, que são zonas dedicadas à produção agrícola, apesar de haver nessas regiões pequenos produtores têxteis, essencialmente voltados para o mercado local. «As principais empresas têxteis que trabalham para os EUA estão no Norte, nos parques industriais de Caracol e Codevi», onde se situam as unidades operadas pelo Grupo M e pela sul-coreana Sae-A Trading, uma das maiores produtoras de têxteis, referiu Escipion Oliveira, subdiretor-executivo na Caribbean Export Development Agency.

Segundo Oliveira, o impacto completo do furacão, que matou quase 400 pessoas, deslocou 175 mil pessoas e despoletou um surto de cólera, ainda está a ser avaliado, mas a indústria de vestuário, que representa 90% das exportações, parece ter ficado intacta.

A tragédia, contudo, vem no pior momento para o sector têxtil e vestuário das Caraíbas, que tem sentido a pressão da concorrência asiática e da eliminação das taxas de importação dos EUA para alguns países rivais, o que tem levado a uma redução do tamanho da indústria. O Haiti é o segundo maior produtor de vestuário da região de 15 países das Caraíbas, a seguir à República Dominicana e à frente da Jamaica, que ocupa a terceira posição, de acordo com Escipion Oliveira.

As inundações surgem também poucos anos depois da indústria de confeção no Haiti ter sido dizimada no terramoto de 2010, que matou 300 mil pessoas e parou a produção, que demorou meses até dar os primeiros sinais de retoma (ver Produção de vestuário arrasada no Haiti). Apesar dos programas HOPE e HELP dos EUA para aumentar os benefícios comerciais para o Haiti, as exportações têm-se mantido abaixo do objetivo de mil milhões de dólares por ano.

No entanto, Capellan apontou que têm registado um aumento anual de 10% a 12% nos últimos anos, resumindo 2015 como «um bom ano».

Parcerias para ganhar força

Fernando Capellan anunciou ainda que o Grupo M fez recentemente uma joint-venture 50%/50% com a produtora Brandix, do Sri Lanka, para impulsionar a produção de têxteis sintéticos e de activewear para os clientes americanos, incluindo a Under Armour, a Levi’s, a Gap e a Polo Ralph Lauren. O projeto começou a produção a 1 de outubro e irá ajudar a aumentar as vendas do Grupo M em até 20%, para 180 milhões de dólares, no próximo ano, explicou Capellan. Surge numa altura em que outros países da América Latina – nomeadamente as Honduras e o El Salvador (ver El Salvador entra na corrida) – estão a tentar aumentar a produção de sintéticos e de outros têxteis técnicos para conquistar mais negócios com players da fast fashion nos EUA.

«Vamos começar a fazer muitos produtos sintéticos e aumentar postos de trabalho», indicou o presidente do Grupo M, que emprega já cerca de 11 mil pessoas entre as fábricas na República Dominicana e no norte do Haiti.

A joint-venture com o Brandix pretende aproveitar os benefícios do HELP (Haiti Economic Lift Program), que permite que os produtores de vestuário do Haiti importem matérias-primas de uma lista mais abrangente de países.

A parceria deve ajudar o Grupo M a transformar a sua cadeia de aprovisionamento para fazer 70% a 80% de vestuário sintético, em comparação com 30% a 35% agora, até 2020, e aumentar a rapidez a chegar ao mercado, para impulsionar a sua competitividade, afirma Capellan.

O Grupo M vai fazer um grande investimento para transformar a sua fábrica de malhas em algodão para fazer mais sintéticos. Como parte de uma nova experiência, o Brandix vai importar fio sintético a partir das suas instalações, muitas das quais estão localizadas no Bangladesh, Sri Lanka e no sul da Índia.

Capellan referiu que o Grupo M tem também planos para expandir significativamente o parque industrial Codevi para arrendar espaços para mais produtores de vestuário, duplicando o número de empresas inquilinas para 20 em três anos.

As vantagens do sourcing no Haiti incluem a crescente integração com a República Dominicana, onde as empresas fazem muitos dos inputs, incluindo linhas, etiquetas e tecidos, que enviam para o Haiti para serem usados na confeção. No caso do Grupo M, muitos dos produtos em denim são confecionados no Haiti com matérias-primas da República Dominicana, voltando novamente para este último para os processos lavagem e acabamento.

O Haiti planeia também integrar ainda mais a sua cadeia de aprovisionamento com a República Dominicana para aumentar o seu sector têxtil, numa altura em que está a sentir uma maior concorrência, não só da Ásia como da América Central, explicou Fernando Capellan.

Questionado sobre se as marcas americanas estão nervosas com as crescentes vulnerabilidades relacionadas com a meteorologia, como inundações e tempestades (que se somam a riscos com uma elevada taxa de crime e más infraestruturas) no país mais pobre das Américas, Capellan contrapôs que «as Caraíbas inteiras têm este problema. Mas se está num edifício bem protegido com os métodos de construção certos, não há nada de que ter medo».