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ITV em transição para o futuro

O XX Fórum da Indústria Têxtil celebrou o passado mas deixou no ar a necessidade de preparar o futuro. O evento serviu ainda para, na presença do Ministro da Economia, o presidente da ATP deixar duras críticas à atuação do governo, nomeadamente no que diz respeito às alterações à legislação laboral.

Paulo Melo

«Tenho esta sensação de que estamos numa fase de transição», resumiu o economista Daniel Bessa nas conclusões do Fórum da Indústria Têxtil, que teve lugar ontem, 4 de julho, nas instalações do Citeve, em Vila Nova de Famalicão. O habitual comentador do evento, presente em praticamente todas as 20 edições, destacou que «na vida tudo tem um fim e não há nada que dure sempre, nomeadamente as estratégias mais bem sucedidas».

Daniel Bessa

Referindo que a exigência e a complexidade com que as empresas se deparam hoje tem vindo a aumentar, com mudanças muito rápidas dos negócios, «não sei se este não é tempo da necessidade de uma nova geração à frente de tudo isto. Quando foram desenhados os caminhos que nos conduziram ao sucesso, mesmo os que estão aqui hoje tinham menos 20 anos. (…) Acho que estamos no dealbar de uma nova geração, no dealbar de novas competências críticas, acho que estamos no dealbar de novos planos estratégicos, de novas metas… Acho que isto vai começar tudo de novo».

Nicolau Santos, Adolfo Gonzalez, Ana Roncha, Nuno Frazão, Miguel Pedrosa Rodrigues e Miguel Tolentino

A nova realidade passa pela economia digital, que foi o tema escolhido pela ATP-Associação Têxtil e Vestuário de Portugal para esta edição do Fórum da Indústria Têxtil e que os intervenientes no painel de discussão assumiram como estando já no dia a dia das empresas. «Usamos muito os princípios da Indústria 4.0 e da economia digital orientados para a nossa operação. Somos um produtor de peça acabada em private label e este contexto é ajustado à nossa realidade», afirmou Miguel Pedrosa Rodrigues, administradores da PR-Pedrosa Rodrigues. Já Miguel Tolentino, diretor-geral da Berg Outdoor, marca do grupo Sonae especializada no vestuário para atividades outdoor, destacou que «uma das grandes vantagens do marketing digital é a rapidez com que nos conseguimos afirmar em alguns mercados, os baixos investimentos comparados com os negócios tradicionais – abertura de loja, aquisição de clientes por outros canais». Além disso, «a rapidez de aprendizagem, em termos de resultados podermos adaptar vendo o que está a resultar e apostar nisso, mas também em termos da globalização, que permite, de facto, ver nichos globais», sublinhou.

Paulo Vaz

Certo de que «o futuro será aquilo que quisermos que ele seja», Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, destacou os números positivos obtidos pela indústria têxtil e vestuário nos últimos oito anos – +49,5% nas exportações, +44,4% na produção e +40,1% de volume de negócios entre 2009 e 2017 –, os prémios de inovação que têm sido entregues às empresas do sector, nomeadamente pela Cotec (ver Riopele vence prémio de inovação Cotec e ERT vence prémio de inovação), e enumerou as tendências que vão influenciar os próximos anos, que vão desde as alterações na área da geopolítica e geoeconomia até à sustentabilidade, passando ainda pela demografia, a tecnologia e conectividade, a digitalização da economia e indústria 4.0 e a sustentabilidade. «O que será a ITV portuguesa daqui a 15 anos? Sabemos quais são as suas forças e fraquezas, percebemos quais são as ameaças e oportunidades que nos são oferecidas, mas não podemos assegurar a capacidade de enfrentar essa realidade que se está a formar e que, daqui a 15 anos, será, certamente, tremendamente mutável, com fenómenos e tendências que nem sequer imaginamos ou podemos antecipar», afirmou.

Críticas ao Governo

Apesar da tónica positiva face aos números do sector, o Fórum da Indústria Têxtil foi também o palco da expressão do descontentamento dos empresários face às políticas que estão a ser adotadas pelo governo. No tradicional discurso do estado do sector, que abriu o programa, e perante o Ministro da Economia, Paulo Melo sublinhou que o percurso dos últimos anos não significa «que estamos satisfeitos, que nos acomodamos e que somos complacentes». Dando conta da necessidade dos empresários melhorarem a sua competitividade internamente, nomeadamente no que diz respeito à formação dos colaboradores e diversificação dos destinos de exportação, o presidente da ATP destacou que «aquilo que é o contexto em que atuamos e que nos toca a todos por igual, o qual não é nossa responsabilidade, mas acaba por se tornar o nosso lastro, é já o resultado das boas ou más decisões da classe política, que tem responsabilidades governativas».

Manuel Caldeira Cabral

Entre os “recados” deixados ao Ministro da Economia, Paulo Melo mencionou «as recentes iniciativas do governo, cedendo às pressões dos partidos da esquerda, e em alguns casos radical», nomeadamente no que diz respeito ao fim do banco de horas individual e o salário mínimo. «Confundem-se salários com o custo do trabalho», referiu o presidente da ATP, acrescentando que «desde que este Governo está em funções, ele [o salário mínimo] já aumentou mais de 15%, muito para lá da inflação e dos ganhos de produtividade».

Em resposta, o Ministro da Economia elogiou o sector pelo crescimento, realizado pelo acréscimo de valor e não pela redução dos custos, algo que permitiu, sublinhou, aumentar o salário mínimo nos últimos anos. «Lembro-me de estar aqui e de estar noutros fóruns e de muitos dizerem que se aumentasse o salário mínimo, íamos comprometer o crescimento do emprego, que se aumentássemos o salário mínimo íamos pôr em causa as exportações. Aumentámos o salário mínimo uma vez, aumentámos o salário mínimo duas vezes e vamos aumentar o salário mínimo com o acordo da concertação social (…). Temos que ser realistas nos aumentos do salário mínimo, mas se a realidade demonstra alguma coisa é que o aumento do salário mínimo coexistiu com o segundo maior aumento de criação de emprego na União Europeia, o salário mínimo coexistiu com o aumento de 11% das exportações», sublinhou Manuel Caldeira Cabral.

O Ministro da Economia destacou ainda a implementação do IVA alfandegário, a diminuição dos custos com a energia e o lançamento de linhas de crédito, incluindo uma nova no valor de 600 milhões de euros, que será lançada até ao final deste mês, como medidas que estão a contribuir para o crescimento. «É a esse crescimento e a esse futuro que eu aqui brindo», concluiu.