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ITV já economizou €21 milhões em energia

Os números da ADENE revelados no webinar do BCSD mostram que o investimento em medidas de eficiência energética por parte da indústria têxtil e vestuário portuguesa superou os 60 milhões de euros, com um terço desse valor a representar uma economia direta. Um percurso de sucesso onde, contudo, é possível melhorar.

Riopele [©Riopele]

O webinar “Financiar e medir a eficiência energética no sector têxtil», promovido pelo BCSD – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável reuniu João Meneses, secretário-geral do BCSD Portugal, João Paulo Calau, coordenador da unidade de indústria na ADENE – Agência para a Energia, Eugénia Coelho, técnica de produção sustentável do departamento de tecnologia e engenharia do CITEVE, e Rui Sebastian, gestor de projeto do ESI, para explorar a importância da integração da sustentabilidade nos modelos de negócio atuais, assim como as medidas que têm sido adotadas em Portugal no âmbito da eficiência energética, especialmente na indústria têxtil e vestuário.

A visão macro foi dada por João Meneses, que mostrou que o desenvolvimento económico está diretamente ligado ao desequilíbrio dos ecossistemas. «Há uma correlação direta entre o desenvolvimento económico que nos deu a longevidade e estes desequilíbrios na biosfera e nos ecossistemas», referiu, acrescentando que «estamos hoje a entrar na sexta extinção massiva», com um milhão de espécies em vias de extinção.

Segundo os dados do mais recente Fórum Económico Mundial, «usamos, no ano passado, 100 mil milhões de toneladas de recursos naturais», frisou o secretário-geral do BCDS Portugal, «muitos deles não renováveis ou com ciclos longos de renovação». Com 50% do PIB mundial a depender de recursos materiais, «estamos a depender de recursos que são absolutamente finitos, muitos deles, ou têm longos ciclos de renovação», explicou João Meneses.

No caso português, desde 24 de maio que os recursos naturais ficaram esgotados para o ano. «Portugal está mais de metade do ano a viver a crédito das gerações futuras, a consumir muitos mais recursos do que seria sustentável», indicou.

Soma-se a isso também as alterações climáticas, com efeitos visíveis um pouco por todo o mundo e a dificuldade de cumprir o Acordo de Paris, que implicaria reduzir em 55% as emissões de carbono para a atmosfera até 2030. «Mas a sustentabilidade não tem só a ver com capital natural de ecossistemas, não tem só a ver com emissões, não tem só a ver com o lixo que produzimos. Tem também a ver com a dimensão social – temos neste momento as 26 pessoas mais ricas do mundo com o mesmo volume de riqueza de 50% da população mundial mais pobre, ou seja, 26 pessoas equivalem a 4.000 milhões de pessoas e, enquanto for assim, vamos ter cada vez mais perturbações sociais e desequilíbrios sociais», sublinhou João Meneses.

Há, contudo, vários referenciais para que pessoas, empresas e governos possam tomar medidas, como o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. «Temos aqui uma cartilha para esta década, que é a derradeira para a sustentabilidade. E, do ponto de vista das empresas, significa respeitarem os 3 P’s para serem sustentáveis: planet [planeta], people [pessoas] e profit [lucro]», referiu.

Na área da moda há quem esteja a tomar medidas, exemplificou o secretário da BCSD. A Farfetch, por exemplo, vai passar a fornecer informação sobre a pegada de carbono e a pegada hídrica dos artigos e a Norm está a desagregar o preço de venda dos seus ténis, com informação sobre quanto custam os materiais, as embalagens, quanto paga aos fornecedores e aos retalhistas.

«O que se espera das empresas está a mudar rapidamente. Tivemos uma vaga de transformação nos negócios, que foi a vaga digital, no início do século. Agora temos a vaga da sustentabilidade e é bom que todos tenhamos presente que business as usual é obviamente arriscado – não faz sentido nenhum em termos económicos porque os investidores vão passar a fugir de empresas não sustentáveis e os clientes também. Portanto, é cada vez mais arriscado não ser sustentável, é ambientalmente estúpido, é socialmente inaceitável e é legalmente perigoso», resumiu João Meneses.

Retrato nacional

João Paulo Calau, coordenador da unidade de indústria na ADENE, fez, por seu lado, um retrato da situação portuguesa, onde, no âmbito do regulamento Sistema de Gestão dos Consumos Intensivos de Energia (SGCIE), foram já feitas 1.746 auditorias energéticas em 1.254 instalações consumidoras intensivas de energia (superior a 500 toneladas equivalentes de petróleo). Foram feitos 2.800 relatórios de execução e de progresso e há 727 relatórios finais, indicou João Paulo Calau, adiantando que «destes 727 relatórios de execução de progresso finais, o grau de cumprimento das medidas representa quase 100%, ou seja, as medidas foram preconizadas pelos auditores e validadas pelos operadores, os donos das instalações. É quase a totalidade ou perfeitamente a totalidade e temos uma redução do consumo de energia expectável de 7%, o que é superior aos 4 e 6% que a lei preconiza».

Os dados apontam para investimentos de 420 milhões de euros, com uma economia direta de 131 milhões de euros, uma redução de energia de 177 mil toneladas equivalentes a petróleo e uma redução de gases com efeito de estufa de cerca de 710 mil toneladas de CO2 equivalente, com a recuperação do investimento em medidas de eficiência energética a três anos.

De acordo com João Paulo Calau, a indústria têxtil está no top 10 das indústrias com mais instalações registadas, com 153 instalações, 224 planos de racionalização dos consumos de energia analisados, 422 relatórios de execução e de progresso intermédios e 70 finais. As empresas da indústria têxtil já investiram 63 milhões de euros, com uma economia direta de 21 milhões de euros, uma redução de energia de 28 mil toneladas equivalentes a petróleo e uma redução de gases com efeitos de estufa de 115 CO2 equivalente, com um retorno do investimento a três anos.

A indústria têxtil está a fazer mais investimentos na recuperação de calor, iluminação eficiente e cogeração, respetivamente, sendo que são igualmente áreas que permitem uma maior economia nas faturas mensais, juntamente com os isolamentos térmicos, onde o investimento é menor mas que, em termos de economia, surge no terceiro lugar, a seguir à iluminação eficiente e antes da cogeração – o primeiro lugar mantém-se com a recuperação de calor.

Com dados «positivos» que vão além do mero cumprimento da legislação, João Paulo Calau apresentou ainda alguns projetos que estão a ser desenvolvidos pela ADENE, nomeadamente o EMB3Rs, que consiste na criação de uma plataforma de simulação de cenários de recuperação e reutilização do excesso de calor e frio industrial, promovendo simbioses industriais de aproveitamento de energia térmica.

«São projetos a que estamos a dar o ponto de partida para que, num futuro em breve, os auditores que estão no SGCIE comecem a falar de transportes, de economia circular e de eficiência de recursos», indicou o coordenador da unidade de indústria da ADENE.

Têxtil e vestuário mais eficientes

Segundo os dados do CITEVE, que faz auditorias energéticas e planos de racionalização dos consumos de energia, o consumo de energia do sector têxtil representou, em 2018, 6% do consumo total de energia das indústrias transformadoras em Portugal, referiu Eugénia Coelho. «Os custos, dependendo da atividade, variam, mas numa empresa vertical podemos dizer que fica se situam entre os 15% e os 25% do custo total dos produtos».

Os custos com o gás natural representaram 49% e a energia elétrica representou 31,8%. «São as duas fontes de energia mais representativas da indústria têxtil», afirmou Eugénia Coelho.

Apesar da produção da indústria têxtil e vestuário ter vindo a aumentar desde 2009, o consumo de energia não tem tido a mesma tendência de crescimento. «Parece que as nossas empresas têxteis e de vestuário estão a ser mais eficientes, ou seja, estamos a produzir talvez com um valor acrescentado superior face aos anos anteriores e o consumo de energia tem-se mantido constante, não acompanhou o aumento de produção, o que indica que a intensidade energética tem vindo a baixar – o que quer dizer que as nossas empresas de têxteis e de vestuário estão a ser cada vez mais eficientes em termos energéticos», destacou.

Esta evolução resulta da evolução tecnológica, com maquinaria mais recente a equipar as unidades industriais, da implementação de medidas de racionalização de energia e otimização dos processos, ajudadas por incentivos para a promoção da eficiência energética e das próprias obrigações legais.

A técnica do CITEVE deu ainda exemplos práticos de medidas de eficiência energética, como a recuperação do calor, que permitiu poupar até 30% do consumo térmico de uma râmula, ou a instalação de economizadores, para pré-aquecer a água ou ar, que tem um potencial de poupança de 5% de consumo do gás natural. «Ultimamente há também cada vez mais empresas com centrais fotovoltaicas para autoconsumo, o que reduz a pegada carbónica», explicou, salientando, contudo, que «apesar destes indicadores positivos, a eficiência energética é um caminho contínuo e ainda há muitas oportunidades de melhoria».

Seguro de poupança de energia

O webinar serviu ainda para a BCSD Portugal apresentar o modelo GoSafe with ESI, produto do projeto europeu ESI Europe, que tem como objetivo «aumentar a competitividade das PME europeias através da eficiência energética com a implementação de um seguro de poupança de energia», explicou Rui Sebastian, gestor de projeto do ESI. Em Portugal, a meta é «quebrar barreiras no segmento da eficiência energética, em especial dirigido aos sectores hoteleiro e têxtil, para terem o maior potencial de poupança energética», acrescentou.

O modelo envolve os bancos e as seguradoras, os fornecedores tecnológicos e as PME para mobilizar investimento privado para a eficiência energética, e pretende reduzir o risco associado aos investimentos em eficiência energética, tornando-os mais atrativos para as empresas.

O modelo Energy Savings Insurance (ESI) baseia-se em quatro pilares: no seguro, no contrato, em acesso facilitado a financiamento a numa validação externa por uma entidade independente. «A ferramenta mais importante deste modelo é o seguro. A sua função é ser uma garantia para o caso do fornecedor não cumprir as suas obrigações contratuais relativamente à poupança de energia prometida. Este seguro entra em ação quando não é atingida toda a poupança prometida pelo fornecedor de tecnologia e o mesmo não consegue reembolsar ou compensar a PME», sublinhou Rui Sebastian.

As tecnologias abrangidas incluem iluminação LED, compressores, caldeiras, ar condicionado, cogeração, painéis fotovoltaicos e térmicos. «Sumarizando, as vantagens do modelo GoSafe with ESI são a redução do risco de investimento, redução da fatura energética e dos custos de manutenção e facilidade de acesso às linhas de financiamento verde», resumiu o gestor de projeto do ESI.