Início Notícias Mercados

ITV marroquina acerta agulhas

Apesar de ter sido bastante afetada pela pandemia, a indústria têxtil e vestuário de Marrocos acredita que poderá beneficiar da procura por uma produção de proximidade por parte de marcas e retalhistas, numa altura em que luta para se adaptar e diversificar os mercados de destino fora da Europa.

[©AFP/Fadel Senna]

A tentativa de diversificação de sourcing e a procura de centros produtivos mais próximos do mercado por parte das marcas pode beneficiar a indústria têxtil e vestuário marroquina. No curto prazo, contudo, 2020 continua a ser um ano disruptivo, como explica ao just-style.com Fatima Zohra Alaoui, que desde setembro do ano passado se tornou a primeira mulher nomeada diretora-geral da AMITH – Association Marocaine des Industries du Textile et de l’Habillement.

A AMITH tinha planeado usar o ano de 2020 para acelerar o lançamento da fase de 2021-2025 do plano de desenvolvimento industrial de Marrocos. No entanto, em março, os clientes começaram a cancelar encomendas com o encerramento das lojas na Europa e o plano de controlo da pandemia em Marrocos fechou as fábricas.

Em meados de abril, porém, 150 empresas implementaram os protocolos definidos pelo governo e pelas autoridades sanitárias e recomeçaram a produção. Muitos enveredaram pela produção de equipamentos de proteção individual (EPIs), mas a AMITH e os seus membros estão empenhados em regressar ao negócio da moda. «As coisas começaram a melhorar em julho. Os clientes têm voltado às encomendas – ainda não está tão bom como no ano passado, mas ainda assim bastante bem», revela a diretora-geral da associação.

Fatima Zohra Alaoui [©just-style.com]
Apesar disso, Fatima Zohra Alaoui continua cautelosa em relação às perspetivas para o resto do ano e para 2021. «Não temos uma ideia clara sobre como as coisas vão evoluir nos próximos meses», assume, sublinhando que durante os meses do confinamento a AMITH trabalhou com as empresas para melhorar a sua resiliência e capacidade de adaptação. A associação mostrou aos seus membros «como trabalhar numa estratégia e estar pronto para lidar com o que se avizinha», aponta a diretora-geral da AMITH, que tem um doutoramento em desenvolvimento económico e financeiro da Universidade Lancaster, do Reino Unido.

A crise levou a indústria a analisar o posicionamento de Marrocos no mercado, as suas forças e vulnerabilidades, admite Alaoui. «Hoje é mais óbvio que nunca que precisamos de diversificar a nossa estratégia e os nossos mercados», reconhece.

Palavra de ordem: diversificar

A indústria marroquina foi particularmente afetada por causa do enorme impacto da pandemia nos seus mercados tradicionais de França e Espanha, que estão agora a sentir a segunda vaga de Covid-19. Como tal, «estamos a pôr em curso uma estratégia de diversificação mais agressiva, por isso estamos a direcionar-nos para novos mercados, não apenas a Europa, e a reduzir a nossa vulnerabilidade», adianta a diretora-geral.

De acordo com a AMITH, 60% a 65% da produção de Marrocos é CMT (corte, confeção e acabamento) e os mercados não-europeus que estão a ser explorados pela associação estão mais vocacionados para a produção até ao transporte, o que implica que «vamos ter de melhorar e desenvolver a nossa oferta» nesse tipo de serviço.

Fatima Zohra Alaoui considera que a indústria de Marrocos tem a flexibilidade para fazer esta mudança, destacando que tem sido capaz de lidar com a tempestade trazida pela pandemia porque é muito responsiva e consegue adaptar-se rapidamente.

Os clientes estão em busca de produtores de proximidade que sejam flexíveis nas quantidades, possam entregar rapidamente e «fornecer todo o tipo de vestuário ao preço que os retalhistas e marcas estão a procurar», acrescenta.

[©International Trade Centre]
Embora fazer estas mudanças estruturais seja importante, os produtores precisam de encomendas, o que não é fácil de assegurar atualmente, sobretudo depois da AMITH ter tido de cancelar a feira anual Maroc in Mode. Isso significa que os produtores marroquinos «estão a perder a oportunidade de encontrar clientes» cara a cara. Para compensar, a associação está a promover «reuniões virtuais B2B com potenciais clientes e compradores para apresentar os produtores marroquinos online», indica a diretora-geral da associação.

Dependendo da evolução da pandemia, Alaoui assevera que a AMITH espera levar os produtores aos países dos clientes ou facilitar a visita de marcas e retalhistas a Marrocos.

Tudo isto implica uma mudança, com a associação a estar atualmente empenhada em «finalizar a nossa estratégia a curto e médio prazo». Quando ficar concluída, a AMITH vai reunir-se com os ministérios da indústria e da economia e finanças para criar um programa de apoio para ajudar a ITV do país a navegar no complexo mercado global no futuro. Entre os pedidos estarão «investimento em capacidade técnica, reestruturação e marketing», enumera Fatima Zohra Alaoui. A nova estratégia pretende igualmente uma parceria público-privada para «apoiar o sector não só a ultrapassar a crise mas a aproveitar as oportunidades no contexto internacional», conclui a diretora-geral.