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ITV na via verde

Os casacos de pele de leopardo e as carteiras adornadas com penas de pavão foram desaparecendo das prateleiras. As vozes dos ambientalistas e ativistas dos direitos dos animais têm sido escutadas pelos líderes da indústria têxtil e vestuário, ecoando no sector da moda de luxo mundial.

Essas vozes estendem-se, agora, à parte inferior da cadeia de preço, alcançando o segmento de fast-fashion, advertindo não apenas para as condições de trabalho praticadas em unidades fabris, mas também para o perigo ambiental dos detritos que resultam da elevada quantidade de itens de vestuário descartados anualmente, mais pelo desinteresse do que pelo uso. Essa quantidade é superior em 400% ao valor de há 20 anos atrás, de acordo com os dados do documentário “The True Cost”, que afirma que as compras de peças de vestuário de preço reduzido são anéticas, incentivando à produção de itens de baixo custo, que poluem o ambiente durante o processo de fabrico e existência posterior.

O relatório produzido pelo professor de comportamento organizacional da INSEAD, Frederic Godard, um especialista na indústria de luxo, revela que «a introdução da fast-fashion como um novo modelo de negócio aumentou a taxa de substituição prematura de produtos e do “fora de moda”». O excesso de itens descartados, afirma, está a poluir o ambiente. «Mas a moda é mudança». A afirmação é discutível mas, efetivamente, ansiamos a cada temporada pelas novidades trazidas pelas novas coleções. Com base no que aconteceu até agora na vanguarda das iniciativas de moda socialmente responsável, parece ser uma aposta segura, no momento em que o pêndulo está a oscilar rumo ao que Godart define de «eco-sustentabilidade e criatividade, que irá conduzir, eventualmente, a uma renovação institucional da moda». A moda, acredita, será um dia um negócio ético de liderança. «A beleza de longa duração é a nossa responsabilidade global», acrescenta.

O desafio do denim
Para este dilema caminhou há seis anos uma mulher holandesa, com uma licenciatura em design, talento para os negócios e uma forte consciência ecológica. Mariette Hoitink gere hoje a firma HTNK, a sua consultora e agência de recrutamento homónima, investindo o seu tempo livre na coordenação da House of Denim, a fundação sem fins lucrativos criada por ela, em colaboração com o marketeer local James Veenhoff, destinada à promoção do que ela considera ser a maior contribuição da Holanda para o mundo da moda: jeans. Isto é mais do que uma ideologia efémera.

A House of Denim fundou a Denim City, um centro de negócios e design em Amesterdão, dedicado exclusivamente à moda e à sustentabilidade de, essencialmente, jenas. A organização completou recentemente o segundo evento de moda anual “Denim Days” e procura captar negócios de moda, instigando-os a fixarem-se na cidade. Um total de 15 marcas desenha e produz os seus jeans azuis na Holanda, entre elas Calvin Klein, Tommy Hilfiger, Pepe Jeans, Scotch & Soda e G-Star Raw, que se estreou no país há 25 anos.

Hoitink estima que o holandês médio detém sete pares de jeans e com a tendência atual das “casual Fridays” e uma atmosfera de trabalho mais descontraída, a procura está a aumentar rapidamente. «Amesterdão é uma cidade pequena no grande mundo do denim», afirma Mariette Hoitink. «Não temos cadeia de aprovisionamento, por isso temos de nos destacar na indústria através de capacidade técnica e design», explica. Tendo em vista este investimento, Hoitink envolveu escolas profissionais da cidade em programas de cooperação dedicados ao desenho e criação de jeans azuis. E assim nasceu “The Jeans School” (Escola de Jeans).

A Denim City é financiada pela União Europeia e por iniciativas privadas, interessadas em gentrificar a área De Hallen e criar novos negócios na região. O presidente da câmara de Amesterdão está, também, envolvido na iniciativa, promovendo a emergência de Amesterdão como um centro de denim, destacando a sustentabilidade e inovação, e tem apoiado a criação de bolsas e estágios para estudantes internacionais. Designers locais, pertencentes à rede profissional de Mariette Hoitink, orientam os estudantes, partilhando design e experiência. Thecla Schaiffer, diretora de marketing da G-Star Raw, admite que «se a colaboração funcionar, contratamos os estudantes». Existe, também, uma sólida ética laboral. No decorrer do evento Denim Days, que teve lugar na cidade em abril, membros da turma de graduação da Escola de Jeans (com a ajuda de membros de um centro comercial de luxo italiano) produziram jeans sob medida para clientes no valor de 1.000 dólares. «Isso foi realmente uma doação para a Denim City», salienta Hoitink.

Azul sobre azul
Porém, o projeto ultrapassa a fronteira do design. Um dos principais objetivos é tornar o processo de fabrico de jeans mais ecológico, devido ao seu elevado consumo de matérias-primas e químicos tóxicos. «Os jeans azuis usam muito algodão e muita água», destaca Hoitink. «Em acréscimo, o corante azul utilizado no tingimento é tóxico. Por isso criamos um “laboratório azul” que se dedica ao desenvolvimento de denim ecológico, com colaboradores provenientes da Turquia, Itália e Espanha (três países ativamente envolvidos no fabrico de tecido). O nosso slogan é: “rumo a um azul mais brilhante”.

Estamos a trabalhar nisso mas não podemos fazer sustentabilidade de repente. É um processo», explica. O processo inclui a criação de diferentes processos de fabrico que requerem uma menor quantidade de água e usam diferentes materiais, de forma a reduzir a necessidade de algodão. «Estamos a testar o cânhamo», revela. «Denominamo-lo de “Red Light Denim”». «Os jeans azuis são moda democrática», afirma Schaeffer. «Mas o denim e os jeans são diferentes de moda: a moda é sempre sobre tendências, enquanto os jeans estão mais relacionados com desenvolvimento de produto – construção, fabrico, forma. Trata-se mais de arquitetura», explica. Os fabricantes de jeans mantêm os mesmos estilos por muito tempo porque compreendem que o par de jeans perfeito é um processo interminável e requere atenção ao detalhe. «Comprar jeans pode ser tão stressante como comprar uma casa! Mas as pessoas não se descartam de uns jeans tão facilmente. São verdadeiramente a peça de vestuário mais sustentável do nosso guarda-roupa», conclui.