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ITV norte-americana pessimista

De acordo com um estudo da United States Fashion Industry Association, com o aumento das taxas alfandegárias e o incremento dos custos do sourcing na China e em destinos alternativos, os empresários da indústria têxtil e vestuário nos EUA estão a ficar mais pessimistas.

No seu sexto relatório anual, designado como “Fashion Industry Benchmarking Study”, a United States Fashion Industry Association (USFIA) refere que 64% dos inquiridos estão otimistas em relação aos próximos cinco anos. Uma redução de 20 pontos percentuais em relação aos 84% que afirmaram o mesmo no ano passado. «É um mau sinal», considera a presidente da USFIA, Julia K. Hughes.

Os resultados, aponta a presidente, «refletem o impacto da incerteza e da ameaça da guerra comercial na indústria da moda. Há 301 taxas na China que incluem produtos como chapéus, artigos em couro e acessórios. Além disso, as taxas impostas pela China em produtos dos EUA incluem o algodão. Sem esquecer as ameaças latentes de implementação de mais tarifas alfandegárias sobre artigos de moda, que aparecem nas listas das retaliações. Existe ainda incerteza relativamente à forma como o Congresso e o presidente dos EUA, Donald Trump, irão trabalhar em conjunto para aprovar o acordo ente os EUA, o Canadá e o México», refere.

A intensificação das incertezas potenciou o aumento dos custos do sourcing, o que tem preocupado os empresários da ITV norte-americana. «As preocupações da indústria em relação ao aumento dos custos e o facto de os dados do governo estarem já a mostrar subidas substanciais de preços para muitos fornecedores, é muito preocupante», afirma a presidente da USFIA. «Isto deve ser uma chamada de atenção ao governo. É tempo de encontrar uma solução para pôr fim à guerra comercial com a China. O inquérito foi realizado antes das tarifas terem subido para 24% em alguns produtos como malas, acessórios…. As preocupações e o impacto são hoje ainda maiores», avisa Julia K. Hughes.

As preocupações com os custos

Relativamente ao maior desafio da indústria da moda em 2019, quase 40% referem que o aumento dos custos na produção e no sourcing estão no topo das suas preocupações, com a política comercial protecionista dos EUA em terceiro lugar.

Muitos dos aumentos de custos podem ser atribuídos às taxas alfandegárias sobre os produtos da China, porém, o que talvez preocupe mais os empresários são os valores crescentes nos países alternativos à China. «Não são apenas os custos na China que estão a aumentar, mas também os custos do aprovisionamento nas principais alternativas à China, especialmente o Vietname, Bangladesh e Índia» aponta Julia K. Hughes. «A incerteza tem também afetado os custos de logística e transporte», acrescenta.

No inquérito, mais de 85% dos inquiridos admitem esperar que os custos da sua produção e do sourcing aumentem este ano e quase metade estimam que esses custos, na pior das hipóteses, vão subir «substancialmente» e, na melhor, «ligeiramente». «Em resposta às perturbações da cadeia de aprovisionamento e às acentuadas incertezas no mercado causadas por estas ameaças de novas taxas, muitas marcas de moda e retalhistas dos EUA tiveram que optar por fornecedores que são mais caros ou por pagarem mais para transportar os seus produtos», aponta o estudo. 63% dos inquiridos admitem que as taxas dos EUA sobre os produtos chineses aumentaram os custos de aprovisionamento da sua empresa em 2019.

Aumentos inevitáveis

«Há um limite para aquilo que as empresas podem suportar relativamente ao aumento das taxas», refere Julia K. Hughes ao Sourcing Journal. Os fornecedores asiáticos – e o Vietname em particular – têm sido os maiores beneficiários da guerra comercial, acabando por usar as taxas como tática negocial. Na verdade, quase todos os países do top 10 de maiores destinos de sourcing em 2019 são asiáticos: China, Índia, Vietname, Indonésia, Camboja, Bangladesh, Filipinas, Sri Lanka, Jordânia e Paquistão.

Julia K. Hughes

«Este resultado sugere que, em resposta à ampliação das tensões comerciais entre os EUA e a China, as empresas norte-americanas estão a diversificar as suas opções de sourcing na região asiática», aponta o estudo. A China e o Vietname, em conjunto, representam agora entre 40% a 60% do volume de sourcing total das empresas de vestuário. «De facto, enquanto a China permanece a principal base de sourcing, já não é sempre o principal fornecedor das empresas de moda dos EUA. Cerca de 25% dos inquiridos indicam que aprovisionaram mais do Vietname do que da China em 2019, uma tendência emergente à qual se deve dar atenção», refere o relatório.

No estudo, 46% dos inquiridos admitem aprovisionar mais de 30% da sua produção, em termos de valor ou volume, da China, uma diminuição em relação aos 61,5% de 2016. Relativamente ao Vietname, 41% aprovisionam mais de 30% da sua produção neste país, em termos de valor e volume, o que representa um valor recorde desde que o inquérito se iniciou, em 2014.

Ninguém a quem recorrer

As conversações entre Donald Trump e presidente chinês, Xi Jinping, não terão progredido e há mais taxas alfandegárias em cima da mesa. Com os custos a subirem nos principais países alternativos, os empresários estão sob uma grande pressão para construírem uma estratégia de sourcing à prova de taxas. Nos primeiros cinco meses do ano, o preço unitário das importações de vestuário dos EUA aumentou mais de 10% em relação ao ano passado, segundo o relatório. «As exportações de vestuário do Bangladesh, Vietname e Índia foram as que registaram o maior aumento de preços – todos em mais de 20%», aponta o estudo, reforçando que a descoberta não é surpreendente. «Pressionados por uma força laboral limitada, deficiências infraestruturais, reduzido fornecimento de matérias-primas e fraca capacidade produtiva, as empresas de vestuário destes países estão igualmente sob pressão, tendo em conta o aumento dos pedidos das empresas norte-americanas que procuram alternativas à China», pode ler-se no estudo.

Xi Jinping e Donald Trump

Segundo o relatório, «cerca de 50% dos inquiridos referem que as empresas chinesas chegaram mesmo a diminuir os seus preços para manterem o volume de encomendas. Porém, esta prática pode não ser sustentável a longo prazo, já que a China já não é considerada um “destino barato” para produzir vestuário e alguns fatores contribuem para isso, como o valor salarial, que tem vindo a subir no país».

Seja qual for o caminho que a diversificação da cadeia de aprovisionamento tome, a subida dos custos irá impor-se como uma preocupação contínua. «Neste momento é impossível prever como os preços irão subir. As empresas procuram alternativas para reduzir estes custos, contudo, os aumentos nos custos de aprovisionamento e na cadeia de aprovisionamentos será sentido pelos consumidores», avisa a presidente da USFIA.